Sombra Narrando
Meu nome é Nathan, mas no submundo ninguém me chama assim. Meu vulgo é Sombra. E não é à toa não. Sou o chefe do comando, o cara que manda, que decide, que assina com a própria vida se precisar. Mas também, sou o rosto que a polícia não conhece. Sou aquele que muitos dariam a vida por uma foto. Transito no meio deles, sem ao menos, eles imaginarem com quem estão lidando.
Não moro em morro, nunca morei. Tenho uma casa no Dendê, que é onde eu me escondo quando a coisa aperta, quando o clima esquenta de verdade. Mas minha casa mesmo é Ipanema. Cobertura de frente pro mar, visão limpa, do jeito que eu sempre vivi. Quarenta anos nas costas e, se tem uma coisa que eu sou, é um filho da püta de sorte.
Herdei o comando do meu pai. Ele criou tudo do zero, na raça, no sangue, na inteligência. Começou pequeno, respeitando os mais velhos, subindo degrau por degrau. Quando o câncer levou ele, deixou tudo no meu nome. Tudo mesmo. Documento, esquema, dinheiro, territórios. Peguei mastigado? Peguei. Não vou bancar o humilde. Mas também não fiquei parado não. Refiz muita coisa, cortei cabeça, troquei gente, modernizei o jogo. Hoje nós comanda sem dó, sem pena, sem espaço pra erro.
Nunca, dentro do meu comando me desafiaram. Porque sabem a consequência. Não tenho medo de derramar sangue, pode ser quem for. Me traiu, armou pra cima de mim. É caixão e vela preta. Sem reza.
Minha mãe mora comigo. Sempre morou. Mulher forte pra Carälho, aguentou coisa que pouca mulher aguenta. Meu irmão trabalha pra mim, cada um no seu quadrado, sem privilégio só porque tem o mesmo sangue. Aqui é resultado. Errar, paga igual qualquer um.
A sede do comando fica em Copacabana, num casarão antigo. Quem passa na frente acha que é mansão de magnata, empresário milionário, desses que saem em revista. E deixa achar. É isso que eu sou mesmo. Um magnata. Só que do tráfico. Não uso corrente grossa, não ando gritando poder. Meu luxo é silencioso, discreto, mortal.
Minha infância foi em Ipanema. Escola boa, roupa boa, viagem pra fora. Cresci vendo o dinheiro entrar fácil, mas também vi gente morrer cedo. Meu pai nunca misturou as coisas dentro de casa. Dentro, ele era pai. Fora, era lenda. Eu sabia de tudo, sempre soube. Adolescência foi regada a excesso: festa, mulher, bebida, dinheiro no bolso desde cedo. Nunca precisei roubar bicicleta, nunca passei fome. Meu preço sempre foi alto.
— Tu vai assumir isso tudo um dia — meu pai me disse uma vez, sentado na varanda, já doente.
— Eu sei — respondi.
— Então aprende a mandar sem gostar. Quem gosta, perde.
Guardei isso. Meses depois, ele morreu.
Casei com a Paola. Por quê? Nem eu sei explicar direito. Talvez pressão social, talvez vontade de parecer normal, talvez carência num dia errado. Ela é bonita, sempre foi. Cheia de manias, cheia de frescura. Gosta de gastar meu dinheiro como se fosse água. Bolsa, joia, viagem, estética. Eu deixo. Luxo não me assusta. Minha mãe e minha filha merecem o mundo. A Paola, só tem tudo porque é mãe da minha princesa.
Minha filha, Giovana. Quatro anos. Minha vida inteira resumida em duas tranças e um sorriso banguela. Quando ela corre pra mim, o mundo para. Eu viro só pai. Só ali eu baixo a guarda.
— Papai, olha pra mim — ela fala, puxando meu rosto.
— Tô olhando, minha Gigi.
Meu casamento é uma mërda. Não vou romantizar. Não gosto do perfume da Paola, não gosto da voz dela reclamando, não gosto da cama fria. Não sei ser fiel e nem faço questão de fingir. Ela sabe. Sempre soube. A gente vive como marido e mulher na teoria. Na prática, é um contrato com prazo de validade.
Já falei pra ela.
— Quando a Giovana crescer, a gente se separa.
— Você fala isso como se fosse simples — ela respondeu.
— Pra mim é.
Se ela quiser ficar na cobertura, fica. Eu compro outra pra mim. Dinheiro não é problema. Nunca foi. O problema é viver uma vida que não me serve mais.
Cresci cercado de luxo pago com crime, aprendi cedo que poder não grita, sussurra. Que respeito não se pede, se impõe. Que amor, pra gente como eu, é artigo raro. Não me faço de vítima, não pago de coitado. Eu escolhi esse caminho e sigo nele de cabeça erguida.
Sou um magnata, sim. Do jeito que o sistema permite. Do jeito que o crime ensina. E enquanto eu respirar, ninguém passa por cima do que é meu.
Além de comandar nos morros, eu também tenho ponto no asfalto. Restaurante, boate, hotel, esquema que ninguém vê e dinheiro que roda limpo pra quem não sabe olhar. Aqui não tem meio termo não, ou obedece ou sai do caminho. Sou eu que mando na pörra toda, simples assim.
Há uns dias eu tava com aquele tédio que só quem tem tudo sente. Mulher pra mim nunca foi problema, mas tava faltando novidade. Não queria mais do mesmo, não queria büceta conhecida, não queria história. Chamei o Tubarão.
— Tô precisando de algo diferente — falei seco no telefone.
— Diferente como, chefe?
— Me mostra o que tu tem de mais novo.
Ele chegou com o celular na mão, abrindo foto por foto, como se tivesse apresentando mercadoria. Mulher bonita é o que não falta naquele cardápio, mas quando a foto dela apareceu, eu parei.
Jolie.
Vinte e três anos.
Morena.
Olho castanho que não abaixa fácil.
Franja malandra, cabelo grande, corpo que não pede licença.
Carälho. Foi automático. Não precisei pensar.
— Essa — falei.
— Tem certeza? É a mais nova.
— Tenho.
Marquei no Hotel Nacional. Tenho um flat lá, discreto, vista bonita, segurança que eu confio. Quando ela chegou, vi na hora que foto nenhuma fazia justiça. Não era só o corpo. Era a postura. Ela entrou no quarto sem baixar a cabeça, sem deslumbramento, sem medo. Aquilo me pegou.
Ela não falava demais. Observava. Cada passo, cada detalhe. Não se vendia barato no jeito, mesmo estando ali pra isso. E isso me deixou mais interessado do que devia.
O tempo passou rápido demais. Quando ela foi embora, o quarto ficou com cheiro dela, e aquilo me incomodou mais do que devia. Não era pra incomodar. Mulher nenhuma fica na minha cabeça. Nunca ficou.
Mas a Jolie marcou território.
Me arrumei pra reunião que eu tinha ali mesmo no hotel. Sala privada, mesa fechada, negócio grande. Eu falava, os caras ouviam, assinavam, concordavam. Mas minha mente voltava nela. Na forma como me encarou. Na calma. No silêncio.
Assim que saí da reunião, peguei o celular e mandei mensagem pro Tubarão.
— Segura essa mina.
— Gostou, chefe?
— Não é da tua conta.
— Ela fica exclusiva então?
— Só minha.
Demorou alguns segundos pra ele responder.
— Entendido.
Pronto. Recado dado.
Não é só desejo. É posse. Controle. Curiosidade misturada com aquela sensação rara de algo que não se compra fácil. Jolie não parecia desesperada por dinheiro, nem deslumbrada com luxo. Isso, pra mim, é perigo.
Passei a semana inteira no automático. Casa, trabalho, reunião, família. Paola falando, eu ouvindo pela metade. Minha filha brincando, eu sorrindo de verdade. Mas no fundo da mente, o nome dela voltava.
— Jolie.
Aquisição? Talvez. Mas não do jeito comum. Eu não quero só pagar. Eu quero decidir. Quero tirar do jogo. Quero que seja minha.
E quando eu quero alguma coisa, eu não divido.
Ainda não sei onde isso vai dar. Não sei se ela vai aceitar continuar desse jeito. Não sei se vai tentar fugir do controle. Só sei que, pela primeira vez em muito tempo, algo saiu do roteiro.
E quando sai do roteiro, periga virar problema. Ou obsessão.
E eu ainda não decidi qual dos dois ela vai ser.