Valéria e Larissa foram para o lado de fora da Basílica, estava vazia de pessoas, o lugar era protegido por si só e não precisava de vigilância ou qualquer outra coisa parecida, apenas quando se tinha aula, mas Kanahlic havia armado um plano para aquele dia, por isso cancelou as aulas e Valéria seria fundamental no seu ato.
Em frente à Basílica, os seis mestres, servos dos Treumilas, estavam reunidos e encapuzados — a repudiarem a luz do sol — a esperarem pela Allogaj. Também, estavam as quatro amigas mexicanas de Larissa, quais também trabalhavam no Castelo e estavam associadas à Potestade.
— Finalmente — disse Taraman, o grão-mestre —, poderosa Allogaj, não aguentávamos mais esperar por ti. Os nossos deuses não têm muito tempo na superfície e querem ver-te urgentemente.
Taraman lançou um feitiço no primero degrau da escadaria, bem no centro, que dava para a entrada da Basílica e uma passagem se abriu.
Antes, lançaram um feitiço de ilusão para que ninguém pudesse testemunhar aquilo, precisaram tomar as precauções necessárias para que o segredo deles não fosse revelado, e se isso acontecesse seria o fim para todos eles.
Desceram por uma escadaria que dava para dois portões de ferro que se abriam pelas laterais, portões de correr. Taraman lançou outro feitiço e os portões se abriram bem rápido, apesar do som que fez como se algum mecanismo interno fosse acionado.
Na verdade, havia mesmo um mecanismo que fazia os portões se abrirem, mas sempre por meio de magia, pois, não havia chave que pudesse abri-los.
À frente havia um corredor escuro e várias tochas se acenderam magicamente, então, caminharam para o interior do templo dos Treumilas.
— Quantas passagens existem para este lugar? — perguntou Valéria.
— Agora, apenas esta — respondeu Taraman. — A outra foi vetada por Kanahlic.
— Como é possível ninguém saber o que se passa com esta Basílica?
— O poder dos Treumilas é muito forte, minha querida, nem mesmo os Vinte e Quatro Anciões, os Senhores da Ordem deste mundo, sabem explicar.
Os Treumilas eram enganadores, tinham poder para ludibriar, iludir, confundir, engodar e muito mais, eram ilusionistas, não havia um ser humano que pudesse desfazer a sua magia, nem desvendar, ou decodificar, a não ser que os Trealtas dessem tamanho poder.
Quando chegaram, Valéria foi a única que pôde se aproximar da grande lareira qual estava maior que antes, seis metros, os demais ficaram distantes e se curvaram.
O lugar estava limpo, como se não houvesse acontecido um m******e ali, e a Allogaj sentiu o seu coração pesar, apesar se ser malvada, a sua humanidade não extinguiu-se por completo, e os Treumilas queriam exterminar aquilo dela de uma vez por todas.
Ela esperou algo acontecer até que, de surpresa, um vórtice de fumaça preta e cheia de centelha surgiu e os grandes olhos amarelos e vazios, porém, vibrantes, dos Treumilas surgiram daquele corpo disforme e bruxuleante.
— Olá, minha gloriosa Audaxy — disseram os Treumilas.
— Saudações, Potestade — Valéria se curvou.
— Erga-se, tenho algo para te dar, estenda as tuas mãos, depressa.
Valéria obedeceu e estendeu as mãos como se fosse receber umas palmadas, mas os Treumilas invadiu as suas veias com uma substância que parecida centelha líquida, ou lavas de um vulcão e Valéria gritou e ajoelhou-se de dor, mas suportou e pôs-se de pé com dificuldade.
Finalmente, os Treumilas pararam de enxertá-la para explicar-lhes o que era aquilo.
— Agora você tem autoridade para invocar demônios sem precisar de rituais.
Valéria sorriu, m*l podia esperar para usar a sua habilidade. A cada momento que se passava, os Treumilas a deixavam mais poderosa.
Acreditavam que estavam perto de conquistar o mundo, contudo, o Universo ainda não permitiu que soubessem da existência de Cesar para atrapalhar os seus planos, a Suma-Sacerdotisa sozinha não daria conta.
— No próximo encontro te darei uma criatura de estimação — prosseguiu a Potestatde —, um Primevo, o primeiro das trevas a ser criado por mim, eu só preciso de algumas vidas, mate as cinco garotas que estão prostradas atrás dos seis mestres.
Valéria olhou para trás já com os olhos dominados pela escuridão, então, começou a fumegar uma fumaça preta e manipulou a matéria escura que enlaçou as meninas pelo pescoço e as arrastou para perto da grande lareira.
Elas gritaram e se debateram, Valéria as suspendeu do chão, ainda não as machucava, pois, elas gritavam por misericórdia. Então, fechou os olhos e apertou o pescoço de quatro delas até a morte, deixou que os corpos caíssem abruptamente no chão, mas Larissa foi posta com leveza e viva. Valéria desfez a matéria escura que a envolvia.
— Mate todas — exigiu a Potestade.
Valéria se voltou para ele a esconder Larissa e respondeu com autoridade:
— Ela não.
Os Treumilas se aproximaram mais um pouco de Valéria com os olhos apertados. Por um momento ela estremeceu, pensou que seria morta, ou torturada, punida de alguma forma, mas a Potestade simplesmente recolheu-se para a lareira sumiu num vértice.
Valéria pôde, mais um momento, respirar de alívio, pegou na mão de Larissa que sorriu como uma louca, e disse:
— Vamos embora.
***
Zadahtric e todo o pessoal que estava envolvido nos planos para o seu resgate se encontravam agora na mansão da Feiticeira Sal, era um lugar muito grande, repleto de salas e quartos e cômodos, era luxuosa e bem arrumada.
Sal tinha renome no Reino, na verdade, no Império, não chegou a conhecer Icobax, pois, se tornou Immortalis no mesmo período do Grande Rei Ic, já era uma exímia guerreira.
A rainha destronada não parou de reclamar um minuto, até que chamou os líderes em particular para terem um debate sobre o que fariam depois e aproveitariam para contar toda a história.
Ela não permitiu que o Cesar participasse, pois, ela não o conhecia, sendo ele Allogaj, ou não. Também não era considerado por ela parte da liderança, nesse caso, ele ficou no salão com as demais pessoas.
Ninguém levantou qualquer objeção contra aquilo, nem mesmo o próprio Allogaj, Zadahtric era a maior autoridade ali, uma sague-azul, simplesmente obedeceram.
Lamel, um dos Feiticeiros Prodígios, aproveitou a situação e correu para falar com o rapaz dos olhos de girassol antes que outra pessoa passasse na sua frente.
— Oi, Rasec — saudou Lamel alegremente.
— E aí, meu amigo — Cesar deu um abraço bem apertado no jovem branco que ficou vermelho com aquele ato de afeto inesperado e com muitas pessoas a testemunhar.
Cesar achou fofo ele ter ficado encabulado por aquilo, mas se martirizou porque sabia que o garoto tinha sentimentos por ele, contudo, jamais haveria chances de se relacionarem.
O Allogaj não tinha preconceito, mas era heterossexual e um dos motivos por gostar tanto do Lamel foi ele ter respeitado a sua heterossexualidade.
— Você agora é um homem muito ocupado, não deu para chegar perto de você um minuto sequer, sempre te requisitavam para alguma coisa — Lamel fez biquinho. — Fiquei com saudades.
Cesar levou Lamel para um divã no canto de uma parede para conversarem.
— Meu amigo, eu estava morrendo de saudades de conversar com vocês outra vez, finalmente Zadahtric foi resgatada, mas não estaremos em paz enquanto tudo não for resolvido. Assim que tudo acabar, vou te levar para a minha casa, você vai passar uns dias comigo lá.
— Meu sonho. Vamos dormir juntos, não é?
— Óbvio, vai ficar no meu quarto.
— Na mesma cama?
Cesar percebeu que o rapaz começou a forçar, então ficou sério, não queria ser rude, mas estava tudo entendido entre eles e agora Lamel insinuar aquilo não fazia sentido. Ele abaixou a cabeça antes de responder:
— Olha, Balamel, eu gosto muito de você, muito mesmo, mas você sabe que eu não sinto atração física ou s****l por meninos, só por meninas. A gente não devia estar tendo esta conversa, não quero que se magoe.
Os olhos tristes de Lamel fizeram o coração de Cesar se partir.
— Eu sei meu amigo, mas eu não consigo controlar esta paixão toda — Lamel queria chorar, mas seria apelativo demais e se conteve.
— Você pode ficar com o meu irmão. Já não se pegaram uma vez?
— Sim, mas eu não gosto dele, eu gosto de você. Por favor, Rasec, só um beijo, ninguém iria ficar sabendo.
— Amigo, na moral, não força.
— Vamos entrar em uma guerra, Rasec, quem sabe, eu possa nunca mais te ver...
— Vamos vencer esta guerra, meu amigo, eu tenho fé, e não vou deixar você participar de jeito nenhum, quero você intacto.
— Mas vão exigir que eu participe.
— Aí eu digo que não vou participar, eu sou um Allogaj, eu posso fazer muito, como fiz e precisam de mim, não que eu seja convencido, mas eu preciso fazer o que é certo. Não participei desta reunião porque não quis, esta rainha insuportável não manda em mim, mas por enquanto estou respeitando a hierarquia.
Lamel sorriu cabisbaixo.
— Ela é extremamente insuportável, por isso que ela gosta tanto do Érrio.
— Agora é que tudo faz sentido nesta bagaceira — ambos riram da situação. — Por que Kanahlic tinha que ser das trevas? Que d***a! Agora vamos lutar por uma pessoa que eu vejo que não merece ser rainha.
— O problema nem era em Kanahlic ser das trevas, mas querer se sentar no trono sabendo de todas as histórias. Passou por cima de tudo e agora se tornou a primeira feiticeira das trevas a sentar-se num trono real de Umnari por tanto tempo. Parece que a primeira do mundo, não é!?
— Mas aí é que está a questão: cadê esses deuses inferiores que disseram que poderia voltar a ter contato com os humanos?
— Devem estar escondidos, ninguém sabe quem são os seus seguidores e ninguém sabe onde eles são cultuados, qualquer um de nós pode ser um adepto e ninguém jamais saberá, a não ser por uma poção da verdade ou por meio de um Identificador, ou não — Lamel deu de ombros. — Os Treumilas são potestades, Rasec, muito poderosas e somente os Trealtas podem combatê-los.
Cesar ficou pensativo quanto àquilo, ele queria entender mais, porém, arquivos sobre os Treumilas eram confidenciais.
Quando ele sentisse que estivesse seguro, iria projetar-se de maneira astral e tentar contato com a Luz para que ela lhe revele algumas coisas sobre o tema.
— Rasec — Lamel tirou o rapaz dos seus devaneios.
— Sim, amigo.
— Nem um beijo no rosto?
Cesar arfou.
— Se você virar o rosto eu vou ficar muito irritado.
Lamel, emocionado, chegou mais perto.
— Não, eu prometo que não vou fazer isto.
— Então vira o rosto — assim que Lamel virou, Cesar segurou a sua face e deu um beijo bem apertado e demorado em sua bochecha, depois o soltou e o encarou. — E então, está tudo certo?
Lamel apertou os olhos depois sorriu de maneira como se tivesse ganhado um prêmio, ele abraçou o Cesar com muito apreço.
— Obrigado, Rasec, obrigado. Eu nunca mais vou lavar o rosto — ele o soltou, relutante, queria abraçá-lo eternamente. — Você sabe que é impossível eu deixar de ficar apaixonado por você, não é?
— Ah! Lamel, não se machuque assim.
— Eu não vou me machucar, fique tranquilo, mesmo vendo você com outra pessoa, nesse caso, uma garota, eu vou ficar feliz por você — Lamel suspirou. — Mas se você tivesse me beijado na boca eu tenho certeza que iria desmaiar.
— Para com isso, menino — Cesar riu e se levantou. — Vamos nos juntar ao pessoal, aposto que os outros estão com saudades de mim também.
Cesar abraçou Lamel pela cintura e o conduziu até os demais, jamais realizaria o sonho dele, pelo menos, tinha a certeza que não dava esperanças para o jovem gay, porém, faria de tudo para mantê-lo feliz.
Ainda eram duas horas da tarde quando Érrio desceu às escadas a correr e a gritar:
— Gente, Beltenor e Sal acabaram de serem transportados por um portal-chamado, quem está registrado neste Reino pode ser levado também.
Aquela súbita notícia preocupou os demais, os Feiticeiros e Feiticeiras Prodígios excluíram os seus registos do Reino, Nabyla não era de lá, então não corriam perigo.
Zadahtric e Escálius eram num caso a parte, estavam ocultados, então, apenas o pessoal da Terra seria o próximo alvo.
De repente, uma das fardas da Escola de Magia voou sozinha como uma capa da levitação dos luvas-de-prata e envolveu Belisa como uma múmia, depois uma fumaça preta a fez sumir daquele lugar.
— Rápido, se escondam — gritou Layra para quem tinha registro na Basílica.
Cesar correu para algum lugar até outra capa voar em sua direção, ele se esquivou, mas não era a dele, foi para Gisele, em seguida, as outras capas foram surgindo do nada a envolver as outras meninas.
Não havia escapatória.
Cesar tinha o seu bastão mágico em mãos, então pensou rápido, o diminuiu e o colocou dentro da sua meia de tecido encantado qual Sal havia lhe dado no dia do resgate de Zadahtric. A última capa voou para ele que apenas deixou acontecer.
Primeiro, Cesar se sentiu na escuridão das profundezas do oceano, ele não sentia a gravidade, mas sentia um frio que era de rachar os lábios, depois a fumaça preta dissipou-se e ele agora estava no meio de uma multidão, em frente à Basílica.
Vários guardas reais estavam armados com espadas e guardiões com bastões mágicos ameaçavam o pessoal para entrar na Basílica.
Todos os bastões mágicos foram tomados e ainda passariam por uma revisão para saberem se portavam outros objetos mágicos ou não.
Cesar ficou muito preocupado, agora estavam numa situação qual não imaginaram que podiam passar.
Ele procurou pelas meninas e encontrou primeiro a Tainara, ela o abraçou muito forte, mas ele pediu para ela não demonstrar afeto, poderia denunciá-los.
Ficaram de mãos dadas no meio da multidão que ia entrando na Basílica e outras pessoas iam aparecendo. A aglomeração estava parecida com o dia do evento que prometia a desmagnificação de Zadahtric.
Tainara e Cesar acabaram encontrando a Gisele e depois a Fabiana, somente a Belisa que ficou perdida. Fizeram de tudo para estarem juntos e conseguiram, só faltava permanecerem juntos.
Quando chegou a hora de entrar na Basílica, um dos guardas revistou o Cesar, além disso, mandou que ele retirasse os calçados.
Por essa ele não esperava. Com cautela ele retirou os sapatos e torceu para que não reparassem no relevo na sua meia extremamente preta.
O guarda pisou nos pés de Cesar para se certificar de que não havia nada por entre os dedos, daí, o rapaz tentou distrai-lo a perguntar:
— O que é que está acontecendo?
— Lá dentro você vai saber — respondeu o guarda e empurrou o Cesar para dentro do salão, pelo menos, estava com o seu bastão.
Ele esperou pelas meninas e uma por uma foi aparecendo. Se reuniram outra vez, porém, Belisa continuou perdida e Cesar não deixaria ninguém para trás.
Ficaram nervosos com aquela surpresa, com certeza, nada de bom viria daquele repentino evento, mesmo assim queriam saber o que Kanahlic planejou dessa vez.
O desconhecido assustava ao mesmo tempo que despertava curiosidade.
***
Minutos antes, Valéria tinha saído do compartimento secreto da Basílica pela mesma passagem que entrou e transportou-se com Larissa para a entrada do Castelo. Ao entrarem, alguém que a esperava a levou depressa para o local de reunião.
— Ah! — arfou Kanahlic. — Chegou. Pensei que demoraria mais.
— E aí, qual é a notícia? — perguntou Valéria a sentar-se numa cadeira.
— Esta menina ainda não aprendeu nada? Não tem um pingo de reverência? — reclamou Vincent.
— Me deixa em paz, velho chato da peste — xingou Valéria. — Você voltou do Egito mais rabugento.
— Minha rainha, isto é inadmissível, ela precisa se comportar, independente do que ela seja, isto aqui é uma reunião séria — Vincent não suportava mais a Allogaj.
— Concordo com o Conselheiro, Majestade — disse Legard, ele olhou para a acompanhante de Valéria e a reconheceu. — Larissa agora está com a Allogaj? — ele Balançou a cabeça a expressar negação. — Duas sádicas.
— O quê que é sádica? — sussurrou Valéria para Larissa.
— Sempre me chamaram disso, eu nunca soube — respondeu Larissa a soltar risinhos.
— Legard, Vincent — a rainha tomou a fala —, vamos prosseguir com os planos, deixe que da minha súdita cuido eu.
Valéria mostrou o dedo médio para os referidos. Vincent comprimiu os finos lábios e Legard fechou os olhos ao sentir tanta decepção em participar de uma reunião importantíssima e ter que lidar com uma criatura mimada como aquela Allogaj.
— Majestade — disse Tereya, a líder dos Capas Vermelhas —, será necessário mesmo explicarmos todos os nossos planos para a Audaxy?
— Ela precisa ficar a par dos nossos assuntos — respondeu Kanahlic.
— Mas falamos sobre muitas coisas e por muito tempo, vamos nos demorar mais, perder tempo, um resumo não faria sentido, esta menina nem sabe o que é sadismo.
— Olha só, Kanahlic — falou Valéria —, eu entendi o que esta velha estranha quis dizer e ela tem razão, não quero ouvir lenga-lenga e blábláblá, e plano aqui e plano ali. Vamos logo tocar o terror que eu quero acabar logo com isso.
— Meus Trealtas! — exclamou Tereya. — Não entendi nada.
— Tem certeza Audaxy? — perguntou Kanahlic. — Vamos executar os planos?
— Já passou da hora. Eu estou aqui, Majestade, não é do meu poder que precisam? Só me digam o que fazer e eu faço. Vamos pegar Zadahtric de volta.
A rainha olhou para o seu pessoal.
— Estão de acordo?
A líder das bruxas foi a primeira a ficar de pé, em seguida Azaryn e logo após o restante do pessoal.
Ninguém ali gostava de Valéria, mas a temiam, não a respeitavam, mas não podiam se voltar contra ela, a rainha a admirava e almejava o seu poder.
Reunião encerrada.