Capitulo 6

5000 Palavras
Laura Dias atuais... Eu sempre odiei aquela frase supostamente encorajadora que diz: "O não você já tem." Aquilo sempre foi um gatilho para fazer as pessoas correrem atrás da humilhação. Humilhante, é a definição mais suave para o que aconteceu, pelo menos até onde me lembro, e sinceramente? Rogo para ter esquecido as partes mais vergonhosas. Humilhação com uma pitada extra de orgulho ferido, não foi só isso que a noite de ontem significou para mim, mas com base em todas as situações humilhantes pelas quais passei durante a minha breve vida, essa foi a pior de todas, pior até mesmo que dizer para a coordenadora que estava cagando para não levar uma bronca por ter quebrado o nariz de Eduardo, eu tinha apenas 11 anos, era incrível como ele estava envolvido nas situações mais humilhantes que já passei até agora. Mas a de ontem atingiu um nível surpreendentemente alto e não há forma alguma de isso ser uma coisa boa, sabe, como quando aquelas coisas ruins e vergonhosas acontecem e tentamos extrair uma lição, um aprendizado, inconscientemente tentamos transformar a experiência r**m em algo que nos torne mais fortes ou mais confiantes, bem, não há nada de bom a se tirar do que aconteceu. — Deus do céu... — grunhi em desânimo. Minha têmpora latejou e apertei os olhos. Me virei para a parede numa tentativa fracassada de fugir da luz, eu precisava comprar umas cortinas pretas para minha mãe, o sol já castigava as persianas, sentia o cheiro de café, mas o mínimo movimento fazia parecer que a minha cabeça iria explodir, fisiologicamente, eu sabia o que acontecia com o corpo humano num estado deplorável de ressaca e cheguei a uma conclusão... eu precisava de água, muita água. Levantei aos tropeços, também precisava urgentemente de um banho. (...) O cheiro de café estava impregnado no apartamento, me vesti já com os cachos finalizados e úmidos, enquanto cabelo molhado na Europa e na América do norte significavam doença à vista, abaixo da linha do Equador era alívio imediato. Entrei na cozinha, a minha mãe estava distraída preparando bolo frito, o cheiro de fritura inundou minhas narinas, o aroma acordou meu estômago que roncou em resposta, a minha irmã ergueu os olhos do celular e me encarou horrorizada. -Jesus, Maria e José! O que diabos aconteceu contigo!? — Olha a boca! -Mainha ralhou. E a voz dela ficou ecoando em minha cabeça por vários segundos, como se o meu crânio fosse uma caverna escura e profunda. Meu Deus, eu vou morrer. — Nunca mais vou beber. — Todo bebum diz isso... -Mainha disse irritada ao colocar uma remessa quentinha de bolinhos na mesa. - E sempre bebe de novo no dia seguinte. Para o bem do nosso convívio familiar, decidi ignorar a alfinetada e me sentei na cadeira. -Anotou a placa? -Anotei. Foi o Terre de San Vicenzo italiano, safra de 1947. — Resmunguei. Me estiquei para pegar a caneca que estava a minha frente, fiquei feliz por minha mãe lembrar que sempre gostei de tomar café em recipientes mais robustos, cabia mais café, mas franzi o cenho ao notar a frase estampada na cerâmica “Fofa como um cacto.” em outro momento eu teria rido, mas ainda estava chateada. Me concentrei em me servir com o café, isso parece ter servido de gatilho para o início das reclamações da minha mãe. — Tantas coisas que poderiam ter puxado do pai e herdaram logo o amor pela cachaça. Encarei minha mãe enquanto ela se sentava, o cabelo preto cacheado estava preso num coque improvisado com uma caneta e deixava em destaque alguns cabelos brancos, a expressão continuava serena e doce, parecia ter sido um comentário despretensioso, mas ela sabia o quanto eu odiava ser comparada com aquele homem. — Bom, porque não nos diz quais são essas outras características formidáveis? Pois não me lembro de nada além da bebedeira, da grosseria, das ameaças e da ausência. — Minha gente, vamos parar com isso! -Louisa chamou nossa atenção. — Será que não podemos nem tomar café em paz? Como gente normal? — Gente normal? — zombei. — Gente normal não dispensa uma casa à beira-mar no mediterrâneo para continuar sendo explorada numa cidadezinha no fim do mundo! O rosto da minha mãe ficou pálido, foi rápido, depois ele se fechou em uma expressão dura, uma que até hoje me fazia sentir pequena e i****a, como uma criança mimada, passei do ponto. Esfreguei a testa e cruzei as mãos em frente ao rosto tentando me recompor. — Desculpa. — Murmurei olhando para minha mãe. Ela suspirou, estiquei a mão para pregar um bolinho, mas ela acertou minha mão com um tapa barulhento. — Eu já pedi desculpas! — Espere todo mundo chegar para começar a comer, sua esfomeada! — Esclareceu, olhei ao redor e Louisa suspirou como se esperasse outra briga. — Já estamos todas aqui. — Nem todos... — a minha irmã resmungou. Observei que havia um lugar a mais na mesa e quando abri a boca para perguntar, a porta da sala se abriu e Eduardo entrou vestido de jeans e camiseta preta, completamente lindo e cheio de si, a minha cabeça pulsou em agonia, tudo que eu menos precisava era dele de plateia numa briga familiar e logo depois de ter assistido e sido vítima de um dos meus shows de bêbada. Deus, eu quase dei para ele na varanda da minha mãe! Santo Cristo. — Bom dia! — Cumprimentou e odiei o bom humor dele, era realmente irritante como algumas pessoas acordavam felizes, eu sempre acordava com ódio. Edu era claramente do outro tipo. — Bom dia, meu filho. — Respondeu a minha mãe com um sorriso doce, fiz uma careta, essa senhora gentil estava prestes a me surrar há apenas alguns segundos. — Bom dia, Edu. — A minha irmã respondeu tensa, ela era a única sensata nessa casa. Peguei a minha caneca de café e ignorei a sua presença, a minha mãe me acertou com o pano de prato quase me fazendo derramar o café em cima de mim. -Cadê sua educação menina!? — Ainda não desfiz as malas, então deve estar na bagagem. — Respondi com desdém e ela tentou me acertar novamente. — Para Mainha! — Deixa ela, Lucinha. Já conheço a peça. Ela sorriu docemente para ele e fez uma careta de reprovação para mim quando revirei os olhos, mas ainda me serviu um prato com bolinhos e colocou mais café na minha caneca, fiquei surpresa por ela me servir antes de Eduardo, geralmente eu não deixava ninguém me servir, mas decidi aproveitar dessa vez, ele se sentou ao meu lado e minha mãe começou a servi-lo, reprimi um grunhido quando suas pernas imensas me tocaram por baixo da mesa. -Seu pai... Ele nem sempre foi daquele jeito. — Disse distraidamente ao se sentar. — Não me interessa. — Cortei, não estava com humor para falar daquilo e muito menos na frente de Eduardo, ele teve a decência de achar sua xícara de café muito interessante. — Não quero ouvir as suas desculpas, Mainha. Escuto elas desde que tenho ouvidos. — Seria mais fácil, não é? — Ela não se deu por vencida, todos ficaram tensos e parei a caneca a meio caminho da boca. — Seria muito mais fácil odiar as pessoas se elas fossem simplesmente uma coisa só, completamente ruins ou completamente boas, mas isso não resume tudo que uma pessoa é, pelo menos não o que seu pai é. — Metade bom ou metade r**m, não importa. -Ele é seu pai. — A senhora foi e é muito mais que isso. - Rebati bruscamente, vi de esguelha Eduardo olhando ansiosamente de mim para minha mãe, será que ele se lembrava da metade das coisas que contei do meu pai? Coisas que nunca contei para ninguém além dele... — Ele perguntou de você. — Ela encarou o prato, Louisa praguejou e fechou os olhos, o silêncio tomou conta da cozinha. Ela sabia que aquele era um território perigoso comigo e com Louisa. E foi eu quem me pronunciei primeiro, não consegui reprimir uma risada de escárnio enquanto sentia meu peito se aquecer de raiva, seria pecado odiar um pai daquela forma? Se sim, o meu lugar no inferno já estaria reservado. — É Mesmo? Quantos anos se passaram desde a última vez que ele perguntou algo de mim, de qualquer uma de nós? Oito ou dez anos? — ela abriu a boca para protestar e não esperei pelas desculpas que ela daria. — Nós não temos pai, não precisamos de um. Levantei e não me importei em deixar o prato de bolinhos e a caneca de café praticamente intocados, o meu apetite sumiu. Louisa suspirou e fui para o quarto ouvindo seus sussurros furiosos e contidos enquanto ela conversava com a nossa mãe, eu sentia minhas costas queimando e sabia que Eduardo estava me olhando, talvez isso tenha me feito apressar o passo, eu precisava sair dali. Peguei o celular da cama bruscamente e a bolsa que usei na viagem, passei pela cozinha num silêncio furioso. — Termine ao menos o café filha! -Não. Tenho que resolver umas coisas e ver a vovó. Calcei as sandálias bufando e saí, eu precisava mesmo sair dali, me sentia sufocada. Caminhei tranquilamente pelas ruas recentemente asfaltadas em direção ao centro, mapeava mentalmente as coisas que haviam mudado, as lojinhas que haviam fechado, outras que foram reformadas e expandidas, um calor acolhedor aqueceu meu peito, nostalgia, aquilo era nostalgia. Passei por novos consultórios médicos, eles se espalhavam naquela cidade com uma praga. Sorri com a ironia do comentário, o que me lembrou que eu teria de visitar o consultório de Marina em algum momento, já havia cinco ligações perdidas dela, algo sobre ontem havia deixado ela preocupada e como recusei a companhia dela depois de me deixar em casa e consequentemente tomei um porre, eu poderia dizer que ela estava certa, estava tudo errado, não deveria ter voltado para cá para início de conversa. Passei pela velha agência dos correios, ainda tinha a mesma pintura gasta cor creme, atravessei a rua e caminhei pela praça principal onde ficava o pequeno museu, o sol brilhava intensamente, meu coração estava repleto de alegria infantil ao avistar uma bicicleta de carga munida com garrafões térmicos e uma estufa para salgados, me aproximei e pedi uma coxinha e um copo de suco, houve um tempo em que meu pai não era apenas um brutamontes alcoolizado. Uma época feliz em que ele trabalhava com uma bicicleta daquelas, vendia os salgados e sucos que minha mãe havia preparado e depois que vendia tudo ele me buscava na escola, fora um período curto, mas eu era feliz naquela época. Lembro de levar na lancheira sempre uma bomba -um salgado pouco conhecido feito de massa fermentada e recheado com mortadela e queijo- e uma pequena garrafinha de refrigerante, muito famoso na época, daí o apelido de pitchula, mas aquela rotina pacifista durou pouco, assim como todas as coisas boas em minha infância. Terminei de comer e atravessei a praça, segui em frente, mudei de rumo ao avistar uma loja física da perfumaria que minha mãe revendia, costumava comprar perfumes daquela marca apenas nas revistas, uma saudade aguda me atingiu, a intensidade das lembranças me fez entrar na loja à procura do meu velho perfume. Sorri pela primeira vez no dia ao ver a embalagem do Humor n° 2. Eu amava aquele perfume, amei a vida inteira. Sempre gostei de perfumes amadeirados, chegava a usar algumas fragrâncias masculinas, eu e minha mãe sempre compartilhamos esse apreço por perfumes. Quando recebi meu primeiro salário, decidi gasta-lo com aquele perfume, era pouco, trabalhava de babá cuidando de duas crianças, uma no andar de cima e outra no térreo, tinha apenas 12 anos e comprar aquele perfume com meu próprio dinheiro me fez tão feliz, mas tão feliz que o sentimento ecoa até hoje. Agradeci a vendedora ao finalizar a compra, ela me entregou uma sacola bem elaborada com papel seda, me despedi e segui em direção a uma rua lateral e em direção aos bairros, torcendo para acertar o endereço do único residencial para Idosos da cidade, seria uma longa caminhada, mas precisava mesmo pensar, apesar da infância conturbada eu fora uma criança feliz, quando menciono a idade em que precisei trabalhar, as pessoas me olham com compaixão e pena, pensando talvez que eu fora explorada e incumbida de responsabilidades que destruíram minha infância e me privaram de um bem essencial. Em parte? Sim, me afetou, mas não de forma negativa. Me orgulhava em ajudar minha mãe a pagar as contas, o que eu não gostava era de ir ao supermercado e pior, ensinar as tarefas para minha irmã, ela odiava estudar e eu odiava ensinar, essas eram as partes ruins, mas isso também serviu para formar meu caráter e me deu a motivação necessária para correr atrás de tudo que eu desejava alcançar e advinha só? Eu consegui, me tornei aquilo que minha mãe queria de mim, uma mulher forte, independente, que não precisa de um homem para me sustentar, eu fiquei razoavelmente rica com o meu próprio esforço. Mas minha mãe não estava satisfeita, vi isso no olhar dela ontem quando me disse que não iria voltar comigo para a Itália, vi hoje na mesa durante o café da manhã, não era um olhar completamente decepcionado, mas era algo como: "Estou orgulhosa, mas eu esperava mais de você." Deveria estar muito distraída para não ter notado o barulho da moto me seguindo, meu coração subiu até a garganta e me preparei para golpear o ladrão com a bolsa. — Por um momento jurei que ia colocar os chinelos na mão e sair correndo como uma trombadinha. Disse uma voz rouca e salpicada de deboche, parei na calçada e segurei com mais força na alça da bolsa, pensei que tinha escapado dele, grunhi com raiva e fui para o meio da rua, o suor já escorria pelas minhas costas e reprimi a vontade de prender meu cabelo no alto da cabeça, ele acelerou a moto e parou a centímetros de mim, por um momento parecia que meu coração havia parado de bater. -Tá doido!? — Odeio quando me ignora. — Isso é lá motivo para tentar atropelar os outros! -Te dou carona. -Sugeriu completamente alheio aos meus protestos. O sangue subiu pra a minha cabeça. — Vá se lascar! Ele soltou uma risada debochada, desviei dele e segui em frente, mas ele continuou me seguindo. -Está indo ver a sua avó, não é? — Não respondi, continuei andando e subi para a calçada. — Essa rua é perigosa, te levo até lá. — Não, prefiro ser assada num espeto. -Venha, pitchula. Jesus, como é que esse apelido mixuruca me deixava tão mole? Com certeza não era a hora nem o lugar para se pensar nisso, mas eu estava envergonhada e me sentia grata por ele não ter feito nenhuma piadinha sobre ontem, na verdade, começava a acreditar que a noite de ontem foram apenas o delírio de uma bêbada, suspirei, odiava me sentir assim, parei repentinamente na calçada e ele fez o mesmo na rua. — Eu vou. — Concordei. Ele sorriu para mim como se fosse eu fosse um oásis no deserto, perdi o prumo e foi difícil pensar em algo coerente pra dizer. — Mas não iremos conversar, nem rir e muito menos nos tocar. Ele arqueou a sobrancelha, a ironia ilustrava o seu rosto bonito, ele olhou de mim para a garupa saliente da moto. — Apenas toques estritamente necessários são permitidos. -Esclareci. — Certo, será um passeio bem chato. Disse ao dar umas tapinhas no banco, me aproximei e bufei quando ele me passou o capacete preto que carregava no antebraço, o segurei com um grunhido irritado e ele soltou um risinho. — E tire esse sorrisinho b***a da cara! — Gosto de você mandona e irritada. Subi na maldita moto, ele ainda gostava de modelos esportivos, m*l tive tempo de tentar descobrir qual modelo era aquele, Edu acelerou me impelindo rapidamente para trás, segurei com urgência em seu corpo e xinguei quando ele acelerou na rua tranquila, o barulho do escapamento fazendo meu coração disparar, a vibração do motor sacudiu meus ossos e despertou aquele latejar delicioso entre minhas pernas... Jesus. — Vá devagar... -disse rouca, mas ele não me deu ouvidos e firmei meu agarre em sua cintura tentada a fincar minhas garrar nele. Tarde demais percebi que ele não estava indo o para o lar de idosos, bati no seu ombro e ele me ignorou, xinguei e escutei sua risada rouca acima do vento. Deus, eu adorava aquela risada de moleque, meu estômago revirou quando subimos uma ladeira íngreme e reconheci a rua da minha antiga casa, enfiei a cara entre suas omoplatas com medo dos vizinhos me reconhecerem, ele acelerou e chegamos a parte íngreme, gelo inundou minha barriga, já havia assistido muitas quedas naquela ladeira virei o rosto apenas para ter um vislumbre rápido da casa de pintura azul-claro gasta, Edu pilotava muito bem, a moto nem derrapou, chegamos ao topo e comecei a rir de nervoso, eu senti falta disso. Relaxei um pouco, ele conduzia a moto por ruas tranquilas e residenciais na parte mais alta da cidade, passamos pela torre da caixa de água, reconhecia o caminho e fiquei inquieta ao notar para onde ele estava me levando, meu peito estremeceu quando ele encostou no meio-fio e parou em frente à casa branca com detalhes em madeira escura, os portões estavam escancarados e m*l se aguentando nas dobradiças, o mato no jardim estava quase da minha altura, ele desligou a moto, minha respiração estava audível. — Quero que veja uma coisa. Disse ao tirar o capacete, eu fiquei lá, na garupa, com as mãos ao redor do corpo dele, encarando a casa como se ela fosse algo vivo e prestes a me devorar, a pintura branca estava encardida, a madeira estava ressecada e gasta, eu queria ir embora. — Sei que sou muito gostoso, mas preciso que me solte para eu poder descer. — Disse dando tapinhas suaves em minhas mãos entrelaçadas na sua cintura, sibilei irritada e o soltei, desci da moto e tirei o capacete, mas não me movi além disso. — Isso é invasão de propriedade. — Alertei inutilmente, ele bufou e colocou o capacete no retrovisor da moto e a moveu para dentro do jardim com uma facilidade absurda, era como ver um adulto conduzindo um velotrol. — Era invasão de propriedade há 10 anos e você não parecia se importar quando estava me montando feito uma amazona no chão da varanda. Meu rosto queimou de ódio e vergonha. — Você é um cretino. — E você uma cretina, não combinamos? — ele tomou o capacete de mim, deixou em cima da moto e entrou por um caminho de pedras quase invisível, fiquei indecisa sobre entrar ou seguir o meu rumo. — Se precisa de um incentivo, posso deixar você me chupar... Talvez tenha sido a provocação que me fez dar um passo adiante e me embrenhar naquele matagal xingando, odiava que eu continuava respondendo as provocações quando devia simplesmente ignorar, eu tinha 26 anos! Pelo amor de Deus, qual era o meu problema!? — Aquele infeliz! -Esbravejei. Deixei minha bolsa e sacola em cima da moto e entrei afastando o mato, segundos depois estava em frente a porta que já estava aberta, a fechadura ainda estava em boas condições, deduzi que Edu havia ficado muito bom em arrombamentos ou tinha uma chave mestra, adentrei a sala e passei pela escada em caracol, mesmo velha e coberta de teias de aranha, o lugar ainda era fascinante. Eduardo havia sumido, as janelas estavam fechadas com tábuas, mas a luz do sol passava por entre as frestas, caminhei pelo saguão onde havia um lustre enorme e empoeirado, faltavam algumas gotas dos entalhes de cristal, fui para um cômodo adjacente que estava vazio, passei pela cozinha e suspirei exausta ao notar o jogo dele. — Se acha que vou sair te procurando nessa casa abandonada está enganado, tenho mais o que fazer Eduardo! Dei as costas e fui embora, mas parei ao chegar em frente à moto, minha bolsa sumiu. — Filho da p**a. — Murmurei e entrei novamente, subi as escadas pisando duro, as tábuas rangiam em protesto e não me importei nem um pouco. Me vi em um corredor escuro familiar cheio de portas, comecei a abri-las uma a uma e conferindo cada cômodo, havia o cômodo com um armário esquisito com rostos nas maçanetas, ele estava vazio, abri o próximo e ele era ainda mais escuro, ainda havia uma armação de cama com dossel, coberto por um mosqueteiro velho e esfarrapado que cheirava a baratas, a porta balcão da varanda deixava entrar luz suficiente para me permitir ver um velho colchão encostado na parede, se eu abrisse o guarda-roupa encontraria lanternas e velas? Olhei ao redor mais uma vez, que lugarzinho decadente, como é que eu pude... — Relembrando os velhos tempos? Sussurrou em meu ouvido e eu dei um pulo assustada, acabei me enroscando em uma densa teia de aranha. — Sai daqui alma penada! — ralhei, eu realmente odiava essas brincadeiras idiotas dele. — Que mania de ficar se esgueirando por ai que nem assombração! Resmunguei e tentei me livrar dos pedaços de teias que estavam presos no meu cabelo, ele se aproximou e ergueu a mão, mas eu o acertei com um tapa estridente. — Não trisque em mim! — ele começou a rir, rir de verdade, seu corpo enorme se dobrou ao meio e sua risada ecoou pela casa abandonada. — Arisca como um Marruá. — Acabou de me chamar de vaca? — Está mesmo empenhada em brigar né? Idiota. Grunhi, os meus olhos dispararam novamente para a varanda, queria dar uma olhada nela. - O que foi? — Nada. Os meus olhos passaram rapidamente pela varanda e novamente para Edu, o encarei, ele estava sorrindo. -Está olhando para o lugar onde tirei seu cabaço. -Oh Jesus Cristo. — Vai dizer que esse lugar não te traz lembranças? — Oh sim! Ele me traz lembranças decadentes e asquerosas. — É melhor estar falando do colchão. Não pude evitar o sorriso em meu rosto, ele pareceu relaxar visivelmente, mas ainda parecia um pouco desconfortável e desviou o olhar. —Não me arrependi. — disse e ignorei o calor que se espalhou nas minhas bochechas. Continuei olhando para ele, esperei ele erguer o olhar e quando o fez, percebi exatamente o que estava pensando. — Não me arrependi de perder a virgindade com você, eu menti naquele dia. -Por que? — Não sei, peso na consciência por me sentir bem com algo que achava errado, falso moralismo, parecia adequado me arrepender e foi o que fiz, mas não me arrependi nem um pouquinho, cometi muitos erros, mas esse não foi um deles. -Uau. — Ele ergueu as sobrancelhas e se empertigou, endireitei os ombros já me preparando para o golpe. — Obrigado por me livrar desse trauma, realmente esse era o desfecho que esperava para seguir em frente, estou grato por me libertar desse fardo, Laura. De verdade. — O sarcasmo realmente é a parte que mais odeio em você. — disse com raiva, os sentimentos bons indo emborra com o meu sorriso. -Cadê minhas coisas? Ele ficou me encarando em silêncio, a sua mandíbula travou e percebi que ele não iria me dizer. — Tudo bem, vou embora. Eu tentei ir, tentei mesmo. Não havia passado do pórtico quando seus braços me agarraram pela cintura e ele enfiou o rosto em meu pescoço me cheirando, meus joelhos fraquejaram e seu agarre ficou firme enquanto ele me segurava contra si. -Deus, senti tanta falta do teu cheiro. Senhor. Por que esse maldito mexe tanto comigo assim? Eu não tinha força para me afastar, queria empurrá-lo para longe, era difícil até mesmo respirar, ele estava sempre roubando meu fôlego, ele deveria ser preso por fazer algo assim... estremeci quando ele afastou o cabelo e enganchou atrás da minha orelha esquerda, minhas forças voltaram com tudo e o empurrei antes que ele visse o que não devia. Dei sorte dele não ter visto ontem, estávamos tão eufóricos, m*l me lembro do corpo dele, senti a vergonha se aproximando. — Tá azeda? — perguntou debochado. — Você fala como a minha avó... Droga, a vovó! Praguejei irritada, estava quase no horário de visitas, ele ergueu as sobrancelhas surpreso. — Merda, minha vó! — Apressei-me para sair do quarto e ele se colocou em minha frente. O encarei irritada, respirei fundo tentando conter a onda de raiva que queimava meus olhos. — Se você não sair da minha frente irei acertar seu saco com tanta força que suas bolas vão se chocar com seu cérebro. — Jesus Cristo.Te levo lá. — Declarou exasperado e tive vontade de rir do medo que cintilou nos olhos dele. (...) Mal esperei a moto parar e já estava descendo, Edu grunhiu e me estendeu a bolsa e a sacola quando devolvi o capacete, peguei apenas a bolsa, fui rapidamente até o portão e toquei a campainha da casa de repouso. -Ei! -me chamou e me virei sorrindo maliciosamente. — Leve a sacola para casa da minha mãe, parece que tem muito tempo livre. (...) Depois de uma triagem cansativa, segui uma enfermeira pelos corredores do lugar, era uma instituição grande, fiquei feliz ao perceber que não tinha o característico cheiro de hospital, percebi ao chegar ao pátio que isso era devido ao denso jardim repleto de plantas e havia até mesmo uma frondosa mangueira no centro, me lembro de quando eles plantaram ela aqui, foi há mais de 10 anos, agora eu sei que minha avó já planejava viver aqui. Fiquei pasma ao ver as hortênsias coloridas, havia várias, em tons fabulosos de azul-celeste, lilás, vermelho e brancas… isso com certeza era obra de dona Luzia, ela sempre gostou muito de plantas, eu me lembro de mexer em muitas delas quando era criança, ela sempre ficava furiosa, era fácil irritá-la. Me espantei ao perceber que havia ficado para trás, a enfermeira já estava do outro lado do pátio e tive de correr para alcança-la, chegamos a um corredor claro e repleto de portas, sorri ao ver o número oito, minha avó tinha uma cisma com esse número, ela sempre dizia que era seu número pessoal, acho que é algo relacionado a numerologia, ela é um tanto quanto supersticiosa e leva isso muito a sério. Ela sempre fazia contas esquisitas quando eu viajava e precisava escolher poltronas, e eu sempre acatava suas sugestões, ela não era de demonstrar muito afeto, sempre foi forte e determinada, por anos ela foi a rocha em que Mainha se apoiou, em quem nós nos apoiamos, e eu seria grata para sempre por ela ser minha avó. Percebi que a enfermeira estava me observando, provavelmente queria me dizer algo. — Algum problema? — Ela está de mau-humor. — avisou e me deu um sorriso amarelo, do tipo que se dá a familiares quando se tem muito trabalho e pouco tempo para ser simpática. — Tudo bem, conheço bem os humores dela. Obrigada. Ela saiu silenciosamente, bati na porta, sorri quando ouvi a voz trémula e ao mesmo tempo firme me dando permissão de entrar. Ela era uma velhinha osso duro de roer, meus olhos se encheram de lágrimas quando vi o pequeno corpo sentado numa cadeira de macarrão branco, ela estava direcionada para uma janela que dava para o pátio, percebi que minha avó tinha uma vista privilegiada, mas o quanto ela ainda enxergava? — Vovó? — chamei suavemente sem querer assustá-la, sorri quando o rosto enrugado se virou para me olhar, ela estava de óculos. -Sua peste, você demorou. — Resmungou e corri para ela, me ajoelhei aos seus pés abraçando seu corpo miúdo, lágrimas rolaram quando os dedos nodosos se abriram para acariciar meu cabelo. — Pensei que não iria te ver antes de morrer. — Não diga isso. — Por que está chorando? — ela praguejou e sorri ainda mais. — Sempre abrindo essa boca de caçapa, não cansa de ser uma maria chorona? -Não sou chorona! — Claro que é, toda vez que fica com raiva se treme igual aqueles cachorros que parecem ratos... como é mesmo o nome da raça? -Pinscher. — Esse mesmo. — Não sou mais assim, vó. Eu cresci. — Cresceu mesmo, deixe-me olhar pra você. Ergui o rosto quando suas mãos finas seguraram minhas bochechas canhestramente. — Continua bochechuda, mas sempre foi uma menina vistosa, esses olhos grandes de jabuticaba sempre foram bonitos. Exceto quando vira uma onça, aí eles dão medo. Bufei uma risada, eu tinha os olhos dela, e não podia discordar, porque quando ela ficava irritada era difícil não ficar com medo, me acomodei aos seus pés enquanto ela me observava com olhos semicerrados, a observei de volta absorvendo os detalhes, o cabelo cacheado estava branquinho e preso num coque baixo, toquei os braços flácidos... ainda era gostoso apertar eles, eu e Louisa costumávamos passar horas fazendo isso quando criança, segurando e apalpando os bracinhos da nossa avó, explorando as características da velhice que achávamos tão fascinante. — Quem mexeu com a minha oncinha? - perguntou de repente. Meu lábio inferior tremeu, era estranho como ela sempre sabia das coisas. -Como a senhora... — Menina, só a vi perturbada assim uma vez e foi por causa daquele menino, o filho de Fabiano. O que aquele moleque fez dessa vez? — perguntou ameaçadoramente. Imaginei uma senhorinha dando bengaladas em Eduardo e sorri, aquilo foi a coisa mais fofa que ela podia ter dito. Tive vontade de beijá-la, me ergui de joelhos e dei um beijo estalado em sua bochecha, me surpreendi quando ela não me acertou com um cascudo. — Senti saudades vó. — Menina maluvida. -Repreendeu apertando a minha bochecha. — Agora sente, temos muito o que conversar...
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