Capítulo 8

5000 Palavras
Laura Dias atuais... A minha avó deixará tudo para as netas. Tudo. As propriedades. O gado. O dinheiro no banco. Merda, até mesmo o gato dela. Meu Deus, isso iria provocar a Terceira Guerra Mundial. Pisquei, ela não me observava mais, estava olhando as flores através da janela, em silêncio, por fim ela suspirou enquanto a minha mente continuava em pane, tentando processar as complicações do que ela havia dito. — A minha hora está chegando, minha filha. — A minha garganta se apertou. Para validar as suas palavras os meus olhos traidores encheram-se de lágrimas ao pensar na ideia de não a ter mais aqui, de não receber os seus cascudos, mesmo que eles tenham se tornado suaves com o avançar da sua idade. A simples constatação de que não teria mais avó me despedaçou de dentro para fora, como se sentisse a iminência das minhas lágrimas ela voltou os seus olhos leitosos para meu rosto. — Estou cansada, vivi bem e por muito tempo. Pedi ao bom Deus que me desse saúde para vê-las crescidas, pelo menos até que caminhassem sozinhas e ele concedeu o meu pedido, mas meu tempo está acabando agora. Estou tão orgulhosa de você, meu bem. É uma menina incrível, gentil e forte e tão, mas tão cheia de determinação. —Vovó... — Eu não quero ser um peso para ninguém, trabalhei a vida inteira e estou deixando os frutos para vocês, não quero um retorno porque esse era meu dever, não fui uma boa mãe para seu pai, talvez para nenhum dos meus filhos, mas espero ter compensado isso sendo uma avó decente, amo você e a sua irmã. E não quero ficar nesse mundo dando trabalho e atrapalhando a vida de quem amo, quero ser levada antes disso. Por Deus Laura, não chore, eu ainda estou aqui. Tarde demais. Há tempos eu lutava para conter o choro, mas eu ainda era fraca, fraca por que a culpa venceu-me, eu havia ido embora e deixei a minha família aqui, perdi anos e anos e o tempo estava acabando, havia uma coisa interessante com pacientes, os idosos, aconteciam coisas estranhas, casais há muito tempo juntos, por exemplo, quando um deles morria não demorava muito para o outro falecer, já havia visto isso acontecer, um idoso solitário fazendo pedidos estranhos e fechando os olhos para sempre durante a noite ou até mesmo no dia seguinte, era como se a morte lhes enviasse um aviso sobre quando os levaria. Ela tem de estar errada, ainda acreditava que ela viveria muitos anos, a minha avó estava com 98 anos agora, uma idade avançada, a mãe dela - a minha bisavó, morreu aos 105 anos, como uma saúde muito boa, exceto por problemas de visão -Vovó estava muito bem, ela teve glaucoma e os seus olhos estavam quase esbranquiçados, mas ela ainda caminhava acompanhada pelas enfermeiras, conseguia comer sozinha não tinha outras comorbidades e mesmo se tivesse, estava aqui agora poderia compensar o tempo perdido, iria cuidar dela a levaria para casa isso a deixaria mais animada... — Pare com isso. — Ela segurou no meu queixo e olhou nos meus olhos. — Estou bem, eu a ajudei a ir embora dessa cidade porque era o melhor para você querida, faria tudo de novo. Valeu cada centavo, eu venderia a roupa do corpo se você ou a sua irmã precisassem, vim para cá porque queria e elas vem me visitar dia sim, dia não, não fui abandonada ou negligenciado como as pobres criaturas de quem cuidou, você fez o que era preciso, não é r**m pensar em si mesma de vez em quando, isso não é egoísmo. — Mas vovó, eu passei anos sem vir aqui, deixei todas para trás, eu deveria ter feito algo, talvez tentado arrumar emprego aqui. — Ana Laura Macedo! -Esbravejou e empertiguei-me. — Não me tome por uma pobre coitada! Tinha esperança de que parasse com essa mania de querer levar o mundo nas costas, mas parece que continua a mesma, a sua irmã e a sua mãe não são sua responsabilidade! Elas são adultas e independentes, jovens e trabalhadoras, elas não precisam que você segure suas mãozinhas como se fossem um bebê aprendendo a andar! Pelo amor de Deus! Quando é que vai começar a pensar primeiro em você!? — Eu sei... — Não, você não sabe. Acha que sabe, mas não sabe de nada. Pensei que estava te ensinando bem quando a ensinei a se virar sozinha, a ganhar o seu dinheiro sem depender de macho ou de qualquer outra pessoa, eu pensei que era o certo de que você fizesse tudo sozinha, cuidar da casa, da sua irmã, de mim, empenhei-me em te ensinar isso desde pequena... — É claro que é o certo avó! — Não, não é. Pessoas sozinhas se acostumam com a solidão, elas passam tanto tempo contando consigo mesmas que passam a não precisar de ninguém, elas se acostumam a isso e quando aparece alguém que realmente some algum valor a sua existência eles não sabem lidar com isso e acabam deixando a oportunidade passar ou a destroem, porque é mais seguro assim. — Não há nada de errado em ser sozinha. - disse fungando o nariz de uma forma nada elegante, ela sorriu aquele sorriso que dizia: "Você ainda é jovem e não sabe das coisas." — Não é mesmo, você é magnifica sozinha, mas eu não queria isso para você. — Por quê? — Porque você não é do tipo que alcança a felicidade com o conforto. Você é aquele tipo de pessoa excepcional que atravessa barreiras, que faz tudo diferente, que pensa fora da caixa e também... — ela puxou novamente minhas mãos e aninhou entre as dela enquanto sorria. — Sou sua avó, e sempre desejarei que tenha mais. Sempre mais. Arranque o que puder da vida, pois você não levará nada na sua morte. (...) Sinalizei com o braço estendido, o mototáxi parou no meio fio. — Uma corrida até o shopping. — É pra já. Subi na moto atordoada, as palras da minha avó rondando minha mente. "Você merece mais.", Deus ela ainda acha que me falta alguma coisa? Irá nos deixar um monte de dinheiro, ficaríamos relativamente ricas, mas eu receberia a minha parte apenas se aceitasse voltar a morar aqui, poderia vender a maioria das propriedades, mas teria que manter e cuidar de um sítio em particular, havia outras exigências que ela não quis dar detalhes, para meu azar, o sítio que teria de manter era o meu preferido. Segurei com mais força na garupa da moto, uma motocicleta com certeza não era o melhor lugar para se pensar nessas coisas, precisava de silêncio e calma para processar tudo, suspirei aliviada quando o mototáxi parou perto da entrada do shopping, paguei o senhor e entrei animada para explorar o famoso estabelecimento. O lugar era pequeno, mas aconchegante, nada como os shoppings intimidantes, opressores e confusos de São Paulo. Havia barzinhos, um mercado razoavelmente grande e conhecido, algumas lojas e brinquedos e alguns espaços vazios para lojas... vazios. Parei um instante, uma velha ideia voltando à tona, pesquei o meu celular e mandei um áudio para minha assistente. — Andrea, o que acha de vir morar no Brasil? — ri de nervoso e enviei o áudio com as mãos trémulas. Tentei acalmar-me enquanto raciocinava como aquilo impactaria a minha vida e a da minha assistente, ela sempre disse que queria conhecer o Brasil, me sentei em um banco de madeira envernizada que cercava um canteiro de flores e plantas ornamentais, apertei o botão novamente quando me acalmei o suficiente para expressar a minha ideia de forma coerente, como uma escritora de sucesso deveria fazer. — Tudo bem, não surta. Acho que encontrei um lugar para a nossa livraria, ainda é só uma ideia, mas gostaria que você fizesse um planejamento e um relatório a respeito das minhas finanças e dos contratos pendentes com a nossa atual editora, ti voglio bene. Stai calmo caro. Ri com escárnio, ela iria entrar em desespero. (...) Andava de um lado para o outro enquanto Andrea berrava comigo ao telefone. Quase conseguia ver ela despenteando as madeixas onduladas e castanhas enquanto digitava furiosamente no computador, pois conseguia ouvir as teclas sendo pressionadas. — Se. Acalme. — falei pausadamente, mas estava me esforçando para não rir. — Eu já finalizei o livro. — Come!? Come hai fatto senza dirmelo? — Era uma surpresa. Contudo, você pode sugerir que o lançamento seja na aqui no Brasil. O que acha? — Laura. — Ela suspirou daquele jeito exasperado, como se eu tivesse lhe pedido para me trazer a lua numa caixa de fósforo. — Olha, temos alguns meses antes do término do prazo para entregar o livro, as minhas finanças cobrem tudo e ainda sobra um fundo emergencial, é uma mudança lucrativa conseguiremos organizar isso e lançar o livro na inauguração da livraria. É um prazo apertado, mas confio em você e no Maurizio. — Aquele ragazzo faz tudo por ti. — Olha só, o seu português está maravilhoso. — Algumas palavras ainda são... estranhas. — E como! Mas o que me diz? Está comigo, Andrea? — Claro que sim! Confio em você, sei que o livro novo será um sucesso e a livraria também, e cá entre nós, estou cansada desses ragazzos insonsos. Ou sonsos? É assim que se pronuncia? — Depende de como você queria insultá-los, mas é quase a mesma coisa. — Certo, irei desligar. Tenho uma reunião com o Maurizio e com o novo artista que irá desenhar a capa. — Ok, mande-me notícias, assim que ele tiver um esboço envie-me por e-mail. Se precisarem de ajuda, façam uma vídeo chamada. — Inteso. Ciao, Laura. — Ciao, bellissima. Uma batida soou a porta. — Entre. — disse enquanto ajeitava o notebook no colo. A minha mãe colocou a cabeça para dentro. — Está ocupada? — Estou, mas pode entrar. — Deixei o computador de lado, ela entrou como uma bandeja de bolo frito. — Você deve estar com fome. — Comi um salgado na rua. — Hm. — Ela parou e passou de um pé para o outro, estava desconfortável, como sempre ficávamos depois de uma quase briga. Decidi facilitar as coisas ao menos uma vez. — Dê-me aqui, ainda estou com fome, tenho que procurar logo uma academia para treinar ou vou virar uma jamanta. — Ainda com essa loucura de academia? — Não é loucura. É bom para a saúde e para a autoestima também. As pessoas acham que é fácil ter um corpo bonito e manter ele, mas nada é fácil, tudo exige disciplina e esforço. — Que exagero, sempre foi linda. Não, nunca fui linda. Bonita de um jeito comum, mas linda? Nunca. Eu não tinha baixa autoestima, apenas era sensata e realista a respeito dos meus atributos, eu tinha completa ciência dos meus pontos fortes e fracos. — Sério mãe, linda? — Bufei. — É claro que há aqueles que são privilegiados e tem de fazer menos esforço ou nenhum, mas não sou um deles. — Você é linda, sim! Uma princesa, mas se tem uma coisa que não é, é privilegiada — concordou monotonamente. — Primogénitos raramente são privilegiados. — Disse com um sorriso cansado e soube que estava falando dela mesma, minha mãe também era uma irmã mais velha. — O que foi? — perguntei com a boca cheia, ela suspirou. — Fala logo, mainha. — É que você está diferente. — Diferente como? — Você tem um brilho no olhar. — Franzi o cenho. — Eu não via isso há muito tempo. — Só estou empolgada com o trabalho. — Resmunguei de boca cheia. — Não, sei que gosta do trabalho, mas é... diferente. — Mãe, com todo o respeito. Acho que não me conhece o suficiente para dizer isso. — E isso é culpa de quem? — Não pode me culpar, a senhora me criou assim — Laura, eu te criei para ser uma mulher forte e não para ser uma muralha de concreto impossível de atravessar até mesmo pela mulher que te pariu. Você se trancou dentro de si mesma, não se abre com ninguém filha! Isso não é saudável. — Ser assim me permitiu chegar aonde cheguei e ser o que sou hoje, independente, rica e bem-sucedida, essa foi a forma que encontrei mãe. — Eu esperava que você fosse feliz, já está chegando aos 30 e não tem ninguém, nunca nem namorou! A vida não é só trabalho! — Irônico ouvir isso de quem trabalhou a vida toda e continua a trabalhar mesmo quando não precisa e ainda recusa uma casa à beira-mar... — Isso ainda é porque não quis ir com você? — Não. — Respondi seca ao lembrar da sua recusa. — Não, isso é porque a senhora acha que não fiz o suficiente e acha que tudo ficará resolvido se tiver um homem na equação. — Isso é mentira! — Mãe, pelo amor de Deus! A senhora sempre tem esse olhar de insatisfação quando olha mais de 30 segundos para mim, e tenho que dizer que depois de tudo que passei para ser o que sou, receber esse tipo de olhar da senhora é como ir ao dentista arrancar um dente sem anestesia. E já estou ficando sem dentes. — Isso é não é verdade, tenho orgulho de você! — Então pare de me olhar como se eu tivesse feito algo errado! — Se estivesse com a consciência limpa isso não te incomodaria. Quem não deve não teme. A encarei atônita, realmente havia alguma coisa, pensei que estava apenas sendo paranoica, ela levantou-se, a decepção estampada no rosto. Eu odiava isso. — Você fica cheia de vida aqui, como eu não via há anos e tenho certeza de que não é por causa da cidade ou de mim e de Louisa... sei que nos ama, mas há pessoas que simplesmente nos inspiram e ele é assim para você. Fui cega em não perceber isso antes. — Perceber o quê? — Ofeguei. — Você estava com ele. — Disse daquela forma que apenas as mães conseguem dizer, 27 anos e ela ainda conseguia gelar meu coração. — Afaste-se, ele não é pra você. Observei perplexa ela sair do quarto. O que diabos foi isso? Tudo bem que ela foi contra meu namoro com Eduardo, mas não me lembro dela ter sido tão mesquinha ou preconceituosa, na verdade ela funcionou com um amortecedor entre mim e meu pai, será que havia mais coisas que eu não sabia? Isso teria alguma relevância? Odiava esse tipo de coisa, esse mistério por falta de comunicação que fazia as pessoas terem um estalo e irem atrás da verdade. Como escritora eu adorava esse tipo de coisa, isso dava uma guinada na história e era uma justificativa plausível para mudanças de comportamentos, mas na vida real eu odiava, odiava porque isso atiçava a minha curiosidade e minha intuição me dizia que havia mais, e eu sempre acreditava nela, era uma característica natural esse sexto sentido apurado, afinal, eu era de escorpião. Me levantei resignada e fechei o computador, isso seria péssimo, conseguir informações da minha mãe era como tirar leite de pedra, e pior de tudo eu odiava fuçar o passado, principalmente quando Eduardo e nosso envolvimento malfadado estavam envolvidos. (...) Já era tarde quando bati na porta do apartamento em frente ao da minha mãe, o apartamento de Eduardo. Meu coração batia feito louco, minha respiração rápida e ruidosa, era como se eu estivesse fazendo algo errado, e eu odiava me sentir assim, por que sentia isso apenas com uma pessoa e... pelo amor de Deus, eu era uma mulher de 26 anos! Eu escrevia sobre sexo na fila do banco, por que diabos estava nervosa? Fiquei tensa quando a porta se abriu, mas não era Eduardo e senti o gelo correr nas veias. — O que está fazendo aqui, p***a? Gabriel rosnou guardando a porta como se fosse um maldito cão protegendo seu dono. — Pode latir o quanto quiser, mas meu assunto é com o seu dono. Eduardo está aí? — Perguntei despreocupadamente e tentando espiar atrás dele com esperança de ver Eduardo ou minha sacola. — Escuta aqui. Deixe-o em paz, pare de f***r com a cabeça dele! Eu o encarei e ri, ele se empertigou e meu sorriso aumentou, me aproximei para tentar falar baixo. — Quem te vê assim não imagina o lixo traidor que você é. — sibilei no seu rosto e ele me empurrou fechando a porta em seguida e grudando na parede com força, antes que pudesse fazer algo sua mão estava no meu pescoço, doeu, mas não me deixei intimidar, nem mesmo quando seu hálito que fedia a cigarro de menta bateu contra o meu rosto. — Não contou a ele que estava em Madrid naquela temporada, não é? — Cale a boca. — Estou curiosa... — disse ao olhar em seus olhos escuros. — Está defendendo-o ou a si mesmo? — Do que está falando? — Conhecendo o Edu, acho que ele não ficaria nada feliz em saber que não contou que fui a todos os jogos da temporada em que ele estreou, ou que quando entrei no hospital quando ele se machucou foi você que me barrou e se encarregou de que aqueles capangas truculentos me despachassem no primeiro voo de volta a Itália, o que ele diria se soubesse de todas ás vezes que liguei ou mandei mensagem no direct, através das redes sociais que você gerenciava, pior, que se passava por ele enquanto me enxotava todas às vezes. Minha irmã me disse que você era o empresário e assessor dele, disse que Eduardo não tinha contato nem mesmo com a família, ou seja, quem quisesse contato teria que passar por você. Ele apertou os dedos ao redor do meu pescoço, o rosto contorcido de ódio. Houve um tempo em que acreditei que seríamos amigos, que eles me aceitariam na turma, não, houve fatos que indicavam isso quando éramos adolescentes, havia uma certa semelhança entre mim e Gabriel, ele sabia um segredo meu, pior, agora descobri que ele escondera coisas de mim, um segredo só dele que destruiria tudo que ele mais prezava se fosse revelado. Sorri, eu conhecia o sentimento de ser destruída, minha vida era assim. Construir e reconstruir sempre, e não me importaria de destruí-lo, deveria ter dito tudo a Eduardo ontem, mas eu iria me demorar com isso, como se sentisse minhas más intenções ele se inclinou e quase grudou nossos rostos. — Vá embora, volte para sua vila de merda e nos deixe em paz. — Com medo? — sussurrei e parei de sorrir. — Devo contar ao seu dono que o cachorrinho dele é um lobo traiçoeiro? Acariciei os seus braços em dúvida se devia rasgá-lo com as minhas unhas, conseguiria até mesmo chegar ao seu rosto se quisesse. — Conto ou não conto? Eis a questão... Ele abriu a boca, no mesmo instante a porta escancarou-se e Eduardo apareceu ainda de toalha na cintura, recém-saído do banho e com o cabelo chocolate pingando gotas de água. — O que estão cochichando aí? — Perguntou ao nos ver, vi o instante em que seus olhos se estreitaram quando ele notou a mão em meu pescoço, Gabriel retesou-se e me soltou imediatamente. — Tá querendo morrer, seu cuzão? Eduardo endireitou a postura, percebi o exato instante em que a tranquilidade nos seus os olhos, foi substituída pela dúvida e em seguida pela ira, pressentindo o mesmo, Gabriel levantou as mãos num gesto apaziguador e se afastou de mim. — Sei que não compartilhamos, irmão. Não estou interessado de toda forma, não é o que está pensando. — O que estou pensando no momento, é que quero muito te machucar e suas palavras de merda me deixam cada vez mais puto. — Cara... Eu vi apenas o braço se erguer, a amplitude do movimento me deixou assombrada e deixei escapar um grito quando Eduardo acertou um soco certeiro no queixo de Gabriel, ele tombou para trás quase me prensando na parede e me afastei às pressas para não ser esmagada. — Nunca mais coloque suas mãos nela, entendeu? Para seu crédito Gabriel se recompôs e passou a mão no lábio cortado, ele riu quando viu o sangue e olhou de Eduardo para mim e ficou me encarando, me desafiando a falar, ele sabia algo de mim e agora eu sabia algo dele, o i****a iria mesmo transformar isso numa queda de braço? Eu não tinha mais nada a perder, mas isso aconteceria no meu tempo, ergui o queixo em desafio e ele bufou uma risada e voltou a encarar Eduardo seriamente. — Estarei aqui quando essa v***a chutar a sua b***a novamente, irei ouvir as suas desculpas quando essa hora chegar. Mas que audácia. Comecei a rir, mas parei ao ver o olhar de Eduardo enquanto Gabriel sumia no corredor em direção a saída, como se sentisse meu olhar ele me encarou desconfiado e cruzou os braços, uma pergunta silenciosa entre nós. — Eu não fiz nada, vim apenas pegar minha sacola. Declarei em defesa, ele continuou me encarando com aquela postura ridícula de autoridade, mas meus olhos imediatamente se focaram em seu corpo e minha libido tomou o controle de minhas emoções ao ver os bíceps contraídos, aqueles ombros largos e definidos, o abdome parcialmente definido, ele deve ter relaxado depois de parar de jogar, mas seu corpo estava ainda mais gostoso, como isso era possível? Antes precisava se manter magro porque era um jogador ofensivo, mas agora ele estava mais musculoso, robusto, e ... olhei para as coxas grossas e definidas, Jesus ele parecia um jogador de futebol americano, dedos estalaram no meu rosto e pisquei. — Sei que é difícil, mas tente se concentrar em meus olhos, Pitchula. Ele sorriu e grunhi um palavrão inaudível. — Cadê a minha sacola? — Na mesa, lá dentro. — O que está esperando? Vá pegar! Ele estalou a língua e afastou-se da porta abrindo espaço para que eu passasse. — Não sou seu empregado. — Rebateu sorrindo. É sério? Ele acha mesmo que iria cair nessa? Revirei os olhos exasperada. — Será que você poderia ser menos irritante e trazer a minha sacola? — Perguntei ao cruzar os braços para esconder meus m*****s eretos, era repulsiva a maneira traidora como meu corpo respondia a ele, e minha vestimenta não era das melhores, o baby-doll de malha não era dos mais comportados. — Por favor? Emendei na intenção de amaciá-lo, mas Eduardo nem piscou, depois de alguns segundos de olhares desafiadores ele apenas suspirou e entrou. — Eduardo! -berrei indignada antes que ele batesse a porta na minha cara, mas não fez isso, ele sumiu dentro do apartamento e deixou a porta aberta, um convite silencioso e uma armadilha. Uma armadilha óbvia demais para alguém com um QI de 115 cair. Grunhi ao entrar e fiquei surpresa ao dar de cara com uma estante repleta de livros na sala, ele não gostava de ler. Olhei ao redor, ele não estava por perto, deveria estar no quarto se vestindo, me aproximei da estante e ergui a mão, passando os dedos nas lombadas dos exemplares, estavam organizados em ordem alfabética, de acordo com os nomes dos autores e não dos títulos. Sorri, eu costumava organizar os meus livros assim, era uma forma de homenagear os autores que me presenteavam com obras incríveis, não que eu desmerecesse as outras pessoas que participavam da construção e publicação de um livro, mas um autor doava um pedaço de si mesmo em cada história que escrevia, pelo menos era assim que me sentia a respeito dos meus livros. Passei por Austen, Brönte, Dickens, Fitzgerald, George. R.R. Martin... É claro que ele gostava de Game of Thrones, meu dedo congelou em cima de uma lombada familiar, puxei o exemplar e fiquei chocada ao ver minhas palavras ali. — Para quem não queria nem passar da porta está gostando muito de xeretar minha estante. — Você leu? — perguntei ainda de costas, não conseguia olhar para ele. — Não sou uma traça de livros, mas li a maioria. Me virei com o livro em mãos. — Não os outros. — Bufei, havia mais de 500 livros naquela estante, ergui o meu livro e ele corou ao notar o que estava segurando. — O meu livro, você leu? — Li. — Respondeu e fiquei sem fôlego, meu coração voltou a marretar meu peito quando notei que ele ainda estava de toalha. — Você é uma cretina, mas ainda é uma cretina talentosa. — É uma primeira edição, está em italiano... Meu coração deu um solavanco, chegava a doer a forma como ele batia quando Eduardo estava por perto, senti as palavras travarem na minha garganta. Isso não era importante. Isso não era importante. Isso não era importante. Isso não... Como não era importante? As coisas não mudaram de figura quando me dei conta que não fora ele que me desprezara todos aqueles anos, não foi ele que ignorou as ligações, as mensagens, os textos enormes de juras de amor... — Você... — Terá continuação? Você meio que deixou o final em aberto. — É a história de duas pessoas machucadas que salvaram a si mesmas da escuridão, isso por si só já é um final decente. — Não acha que merecem um final feliz? — Não comecei a escrever porque acredito em finais felizes. — Então em que acredita? — Em finais em aberto. Sempre me identifiquei com livros que relatam um acontecimento em particular e finalizam com essa dúvida sobre o destino dos personagens. Quer dizer, ninguém é feliz para sempre, temos momentos felizes, mas ninguém tem a vida repleta de felicidade 24 horas por dia, às vezes mesmo depois de enfrentar um obstáculo as coisas dão errado, ou não, mas um felizes para sempre não é garantido. — Somos um final em aberto então? — Congelei ao colocar o livro de volta no seu lugar. Meus dedos se demoraram na lombada dura dedilhando o título em letras prateadas e em alto relevo, A miséria do amor. Sempre achei aquele título apropriado, amor leva o ser humano a misérias terríveis, seja a presença ou a falta dele, tudo dá no mesmo. — O que quer dizer? — É sobre nós, não é? Me virei, mas fui obrigada a desviar da intensidade do seu olhar, vasculhei o apartamento em busca da sacola, mas ela não estava em lugar nenhum. — Onde está a minha sacola? — Já disse, na mesa. Olhei novamente para a mesa da cozinha, e de volta ao redor da sala, ele estava maluco? — Não tem nada em cima da mesa. — Ah, não naquela mesa... Disse e deu-me as costas ao sumir novamente, feliz por ter a minha blindagem de indiferença novamente fui atrás dele admirando a decoração simples e refinada do apartamento, havia um sofá em tom off-White na sala com almofadas em tom bege e terracota, uma mesa de jantar com oito lugares, uma varanda pequena com duas poltronas no mesmo tom do sofá, uma mesinha de centro com enfeites de vidro em tom âmbar, a direita havia uma porta que dava num corredor que levava aos dormitórios, fomos para o último que eu sabia que era o maior e deveria ser o quarto dele. Entrei e me virei de supetão assim que dei de cara com sua abunda musculosa, mas voltei a olhar como a desavergonhada que sou. Meu deus. — Você depila a b***a?! — gritei chocada apontando para seu traseiro definido e redondo, ele terminou de vestir a cueca despreocupadamente e se virou ajeitando o m****o que se avolumava a parte da frente. — Sim, costume de ex-jogador. Posso indicar a minha depiladora se quiser. Entrei no quarto atordoada e peguei minha sacola em cima de uma escrivaninha, me virei quando ele estava fechando a porta, ele girou a chave e sorriu, merda. Ele caminhou pelo quarto, se afastando da porta e imediatamente fui até ela, mas estava trancada, quis me estapear e me virei sem ter coragem de dar as costas para ele, mantive minhas costas coladas na porta, o mais longe possível da imensa cama king size. Seu sorriso se alargou ao notar, mas não era um sorriso arrogante ou zombeteiro, era aquele sorriso. O sorriso sacana que vinha sempre antes dele flertar. — A minha depiladora fez um trabalho excelente nas pernas, como pode ver. — Ainda o encarava incrédula enquanto ele flexionava os músculos das coxas para que eu observasse, era inédito falar de depilação justo com ele, mas o que diabos era isso? Por que ainda dava trela para esse maluco? — Tem outra parte que ela depilou...— sussurrou maliciosamente e o meu corpo retesou-se até o dedinho do pé. — Uma que fica bem perto de outra coisa, forte e grossa também, quer ver? O meu queixo foi ao chão, minhas mãos ficaram moles e soltaram a sacola no chão, mas quando recuperei minha dignidade endireitei os ombros e semicerrei os olhos, me esforçando para não cruzar os braços a frente do peito, ele achava que eu ainda era uma virgem tímida e medrosa? — Mostre. — disse e odiei como falhei em disfarçar a voz rouca. Seus olhos se cravaram em mim quando ele colocou as mãos no cós da Calvin Klein preta e desceu devagar, devagar demais. Ergui os braços e acomodei um deles ao redor da barriga enquanto apoiava meu cotovelo em cima dele e levava o indicador aos lábios, tentando me manter calma enquanto minha mente e meu corpo me diziam para passar as mãos e a língua por aquele corpo todo, ele hesitou no meio do caminho. Porra porque ele não... Edu puxou a cueca com tudo para baixo me surpreendo, a minha boca salivou ao ver seu m****o semiereto saltar para a liberdade, praticamente apontando para mim. — Me lembrava dele maior, acho que exagerei.
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