-ATCHIN- coloquei a mão na boca, coçando os olhos e me esforçando para abrir a porta da sacada e ver o que estava acontecendo ali.
Eu só esperava que não fosse nenhum animal escondido, que resolveu saltar da árvore e tentar invadir minha casa, como da última vez. Abri a cortina e destravei a porta com olhos fechados, já que estava morrendo de vontade de espirrar novamente.
-Oi- pulei de susto quando abri meus olhos e dei de cara com nada mais nada menos que Bailey May.
Até a vontade de espirrar passou.
-p***a, QUE SUSTO DO c*****o- gritei, sabendo que eu estava sozinha em casa. Quer dizer, agora não mais- QUE m***a VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, c****e?- Coloquei a mão no peito, ainda tremendo por causa do susto- ATCHIN
-Desculpe, eu realmente não queria te assustar- ele me seguiu para dentro do meu quarto, enquanto eu dramaticamente me joguei por debaixo das cobertas e peguei minha caneca com chá, tomando uma golada.
-Você ainda não me disse o que está fazendo aqui- falei, quando ele se jogou ao meu lado, na cama.
O olhei f**o, abusado.
-Eu fiquei preocupado porque você não foi na aula, mas achei que seria estranho perguntar para seus irmãos ou amigos. Aproveitei o horário do almoço e que não vou ter a primeira aula da tarde, para vir te ver e saber se aconteceu alguma coisa.
-Então você veio até minha casa na hora do almoço- minha voz saiu completamente fanha- E se não tivesse comida aqui, ia ficar com fome?- questionei.
-Não né, eu ia passar aqui rapidinho e comer em algum restaurante no horário da aula vaga, voltar para escola, ter as outras aulas e ir para o treino- ele deu de ombros, como se perder o almoço não tivesse a mínima importância para ele.
-Ah- foi a única coisa que falei.
-Você está doente?- me perguntou.
-Crise alérgica, ATCHIN- disse, dando uma pausa para espirrar- Depois do vexame da aula de biologia ontem, fui ajudar Josh que queria pintar o skate dele. Só não imaginava que era alérgica as tintas, ou melhor, ao cheiro delas.
-Você tomou um remédio?- voltou a me questionar, colocando a mão na minha testa como se quisesse checar a minha temperatura. Me afastei um pouco.
-Não, vou roubar um cigarro do meu irmão para dar uma relaxada, depois do almoço. Os remédios me dopam e eu acordo com tanta dor no corpo, que nem vale a pena. Mas então, já que você já invadiu minha casa, quer almoçar?- mudei de assunto.
-Parece uma boa- ele deu um sorriso de lado.
-Essa aula que você tinha depois do almoço, era com algum dos meus irmãos?- ele negou- Tá, então vamos lá para baixo que não tem perigo deles voltarem para casa.
Praticamente me arrastei para fora da cama, assim como precisei fazer certo esforço para chegar até a porta do quarto.
-Gostei da roupa- ele disse, vindo atrás de mim.
Eu usava uma blusa de Josh, ou de Noah, sei lá. Só sei que ela não ficava tão comprida em mim, então dava para ver a minha calcinha, que no momento era preta, básica, normal.
-Me poupe, May- falei, descendo as escadas um pouco mais rápido- Para a sua sorte, tem comida pronta, mas é para comer gelado. Se você for doido e quiser esquentar, o micro-ondas está logo ali- apontei, antes de tirar o pote na geladeira e destampá-lo.
Aquilo ali era tipo uma salada de macarrão, com frango e vários tipos diferentes de folha. Peguei a jarra de suco de laranja e dois copos, pratos e talheres.
-Parece ótimo, você que fez?
-Fiz para mim e meus irmãos jantarem ontem, mas meus pais chegaram com pizza e acabou sobrando- dei de ombros, me servindo e sentando na cadeira de frente para o balcão. Ele também se serviu e sentou ao meu lado.
-Realmente está muito bom- ele falou, após a primeira garfada.
-Eu sei, eu sei- sorri convencida- Mas então, o que te trouxe até aqui?
-Acho que eu já te falei sobre isso- ele parecia convencido deste fato- Você sabe, a parte em que não te vejo chegando com sua gangue, que seu carro não aparece no estacionamento e você não dá as caras em nenhuma aula.
-Você sabe que eu poderia estar com alguém e você teria aparecido no meu quarto bem nessa hora, não é? Ou pior, não ter ninguém em casa e você ia precisar descer pela árvore ou ficar me esperando aparecer.
-Não pensei muito sobre os riscos.
-Por que não tocou a campainha?
-Por que poderia dar de cara com seus pais?- disse óbvio.
-Ok, faz sentido. Aliás, obrigada pela preocupação- disse, meio entre dentes.
-Fiquei com medo daquele cara do Pub ter aprontado alguma- ele admitiu, meio sem graça.
-Cão que ladra não morde, May- pisquei para ele.
-Bom saber que pensa assim- ele levantou a cabeça em sinal de ironia, dei uma risada baixa- Se encaixa muito com você.
-Eu sou um caso à parte!
-Se você diz- ele levanta os braços, em sinal de rendição.
-Terminou de comer?- questionei, ele fez que sim.
Qual é, como minha avó diz "não tem osso nem caroço".
-Ótimo, você por acaso vai querer fumar comigo ou você vai vazar?
-Me parece uma proposta muito tentadora, irresistível eu diria.
-Se é assim- dei de ombros- Vem me ajudar a procurar- falei, me levantando e levando algumas coisas para a pia. Bailey fez o mesmo com o resto delas e me seguiu escada acima.
-Nossa, não sabia que Josh era organizado- ele falou, bisbilhotando o quarto do meu irmão.
-Não mexe em nada, se você tira uma moeda do lugar, ele percebe.
-E ele não vai brigar com você por roubar a maconha dele?
-Eu dividi o útero com ele, o que é dele é meu e vice e versa- falei, revirando os olhos e indo olhar no closet, depois de ter checado na escrivaninha e na mesinha de cabeceira.
-Você me falou que eu deveria tomar cuidado com a maconha e é a segunda vez que vai fumar nessa semana, isso é, só comigo. Vai que você fumou mais, sem eu estar por perto- ele continuava me seguindo.
-Eu nunca passo dos limites, May. Se eu não estivesse realmente precisando relaxar, provavelmente não olharia para a cara da e**a por no mínimo uma semana- falei, fechando uma das gavetas de Josh- Como eu sou burra- revirei os olhos.
-No banheiro?- Bailey questionou.
-As vezes ele fuma no banheiro e esquece o pote que ele guarda os cigarros aqui.
-c*****o, ele já deixa bolado?
-Mais fácil- dou de ombros- Vamos- puxei seu braço, segurando dois cigarros e roubando um dos isqueiros do meu irmão.
Arrastei Bailey escada abaixo e me joguei no tapete da sala, ele se sentou ao meu lado, logo em seguida.
-Mas e se alguém chegar?
-Aí você se esconde na entrada do porão- falei, meio óbvia, apontando para a porta que dava acesso ao local.
-Eu sou um problema maior que a maconha?
-Com certeza- me culpei pelo que disse- Quer dizer, a maconha não seria surpresa para ninguém- dei de ombros.
-E eu com certeza seria, eu entendi, você tem razão- falou, fixando seu olhar na mesa de centro, enquanto eu colocava o cigarro na boca e acendia.
-Posso te perguntar uma coisa?- falei, tragando e dando uma tosse fraca.
-Teoricamente você já perguntou, mas eu deixo você você fazer mais uma pergunta.
-Engraçadinho, normalmente sou eu que dou esse tipo de respostas- revirei os olhos, lhe passando o beck.
-Eu tinha que aprender alguma coisa, né?- ri fraco com sua fala.
-Mas agora é sério, aquele vídeo, o que que deu?
-O seu vídeo fumando na sacada?
-É
-Bom, sobre você eu acho que todo mundo sabia, então ninguém que respondeu o story parecia surpreso com isso.
-Como eu imaginei. Mas...- deixei-o continuar, sabia que tinha mais alguma coisa.
-Todo mundo sacou que, seu eu tinha filmado aquilo, obviamente estava fumando junto contigo. Ainda mais com a música.
-Não se arrependeu?
-Não- ele pareceu sincero- Eu falei sério quando disse que não quero que mentiras sejam uma grande parte da minha vida.
-Você não tinha dito com essas palavras, mas eu entendi- Peguei o cigarro da sua mão, pela quinta vez, eu acho.
-E o que seus amigos falaram?
-Uhm, Any disse alguma coisa como "Você está fumando com ela?" "Por que nunca me falou disso, antes?" "Cuidado com as influências".
-Ela me odeia, não é?- ri, entregando nas mãos dele de novo.
-Não, pelo menos não como você pensa- me virei em sua direção, encarando seus olhos- É sério, ela pode não concordar com algumas de suas atitudes e te achar muito diferente dela, mas ela não te odeia. Ela só é... Super protetora.
-Por causa da sua ex, eu sei. Sua irmã falou alguma coisa?
-Não, eu já tinha conversado com ela e ela não fez mais nenhum comentário.
-E os outros?
-A maior parte só fez alguns comentários bobos, tipo "o que está rolando?", "tu tá fumando agora?" ou alguma insinuação b***a sobre a viagem. Nada demais, sem lições de moral, decepção ou brigas.
-Por que eu sinto que tem um "porém"?
-Porque tem!- ele que acendeu o segundo cigarro- Lamar realmente estranhou e ficou meio preocupado, achando que eu estava criando um escape, um vício. Mas você sabe, parei com isso depois que você me orientou.
-Sei que sim- dei um sorriso pequeno, porém que me fez sentir satisfeita.
-Heyoon também ficou meio estranha, perguntou se eu queria conversar, se eu sabia o que estava fazendo e se estava tudo bem. Me pediu para tomar cuidado e essas coisas, também questionou o que a gente tinha- falou, apontando para nós dois.
-Uhm- dei de ombros.
-Seus irmãos falaram alguma coisa? Todos eles viram. Até Sina, Noah e Sabina.
-Eles já esperavam, Josh provavelmente contou que tinha me dado uns cigarros antes da viagem, então para eles foi normal. Eles já sabiam de você, também- não liguei muito.
-Parece que você e seu grupo tem um estranho talento de saber dos meus segredos antes dos meus próprios amigos.
-As vezes acho que sei seus segredos antes de você mesmo- sorri convencida, mas ele tossiu um pouco.
-Anda usando de algum tipo de magia?
-Está me chamando de bruxa?- questionei brincando e aproximando seu rosto do meu.
-Não, Hermione.
-Nunca assisti Harry Potter- deixei claro- Não me venha dando uma de Josh e me criticando por isso, só não faz meu estilo- me antecipei.
-Ok, não ia falar nada- ele ergueu os braços, rindo- Bom, acho que está na minha hora! Vou indo para não correr risco de me atrasar.
-Arrume uma boa desculpa por ter sumido na hora do almoço- ordenei.
-Vou dizer que eu estava com uma loira gostosa aí- falou brincando, mas recebeu um t**a na cabeça- Ai, é claro que não vou falar isso, não precisa me agredir.
-Hm- revirei os olhos.
-Vou dizer que precisei passar no banco para sacar dinheiro, que a fila estava grande e acabei almoçando na rua.
-Quem saca dinheiro hoje em dia?
-Comprar uma bala com cartão de débito é meio desnecessário- ele disse, como se fosse óbvio.
-Se você pensa assim... Vai mesmo para a escola com esses olhos vermelhos? Aí todo mundo vai perceber que não era exatamente um tipo de banco que prendeu seu intervalo.
-Não ligo mais para isso- ele deu de ombros- Que vejam, nada me impossibilita de ter fumado enquanto dirijo, depois de ter enfrentado uma fila estressante.
-Ok, senhor desculpa para tudo. Nós dois fizemos um baita progresso hoje!- afirmei, com um sorriso no rosto.
-Conversamos como duas pessoas civilizadas, sem brigar?
-Não transamos, dessa vez.
-Ah, mas isso a gente pode mudar agora, se você quiser!- me puxou para o seu colo, segurando firme em minha coxa.
-Não vamos cometer o mesmo erro dessa vez, May. Sem s**o para nós dois... Quer dizer, para nós dois juntos- me embolei um pouco e soltei uma gargalhada.
-Ok, madame. Conseguir controlar o t***o não foi fácil- sussurrou no meu ouvido, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
-May, acho melhor você vazar logo- pedi, saindo de seu colo, mesmo que cada pedaço do meu corpo me pedisse para fazer o contrário.
-É, é melhor mesmo- ele coçou a cabeça- Estou vazando- se levantou, tirando a chave do camaro do bolso.
O levei até a porta, abrindo em seguida.
-Você está há uns 10 minutos sem espirrar.
-Bom sinal- agradeci aos céus.
-Que bom que está bem!
-Valeu pela visita- respondi sem graça- Mesmo que tenha sido meio desagradável.
-Conta outra- ele riu, me puxando para o lado por um segundo e selando seus lábios com os meus, de maneira extremamente rápida- Só para não esquecer de mim.
-Vai embora, seu filho da mãe- falei rindo e dando um t**a na sua b***a.
-TE VEJO AMANHÃ- Ele gritou, de costas para mim, enquanto caminhava até seu carro.
Bati a porta atrás de mim e olhei para as almofadas jogadas no chão da sala, com um sorriso no rosto. Neguei com a cabeça e fui para o meu quarto, querendo dormir um pouco.
Reviro os olhos com aquilo, mas deixo um sorriso escapar.