Eu tinha, sorrateiramente, fugido do May durante todas as aulas da quinta-feira. Não estivemos presentes no mesmo ambiente durante o dia inteiro, nem que fosse no estacionamento, corredor ou refeitório.
Não sei se os meus amigos perceberam algo estranho, mas o fato era que se eu quisesse fazer meu plano dar certo, simplesmente não podia olhar para a cara de Bailey, durante o dia. Deixei meus irmãos em casa e segui para a sua.
Se ele achava que podia entrar no meu quarto, pela sacada, sem ser convidado, era bom que soubesse que eu também podia fazer o mesmo. Na verdade, Bailey May precisava entender que comigo as coisas eram assim.
Estacionei o carro e segui pelo mesmo caminho que eu tinha feito na outra noite, com cuidado para não dar de cara com ninguém. Com um pouco de dificuldade, consegui chegar na sacada e me jogar lá dentro, mas tratei de me levantar do chão, sacodir a roupa e esperar que ele aparecesse.
Eu sabia que ele ia, com o barulho do meu corpo caindo no chão, era impossível passar desapercebido.
-Joalin?- ele pareceu assustado- O que você está fazendo aqui?
-Eu não te vi na escola e... Preciso de um motivo? Você invadiu minha casa ontem e eu decidi fazer o mesmo- falei, passando por ele e entrando em seu quarto.
-Lamar está aqui- seu olhar foi praticamente desesperado- No banheiro- apontou para a porta. Então era por isso que ele estava sussurrando.
Bailey puxou meu braço até a porta da frente. Por um segundo pensei que ele fosse querer que eu me jogasse de sua sacada.
-Eu vou embora- sussurrei, assim que ele fechou a porta atrás de nós.
-Não, Shivani deve estar no quarto dela. Fica conversando com ela por enquanto, estamos terminando um trabalho e ele já vai embora.
-Tá- dei de ombros.
-É aquela porta- apontou.
-Eu sei onde fica, não sei se você se lembra que fingiu que aquele era seu quarto.
-Ah, é!- deu de ombros, antes de voltar para o seu quarto.
Caminhei atrás da indiana, mas como não achei, decidi procurá-la no primeiro andar. A encontrei sentada no sofá, olhando para a televisão apagada.
-Joalin? Ainda bem que você está aqui, eu preciso da sua ajuda- falou, se levantando e puxando meu braço, até que eu sentasse ao seu lado.
-Precisa?- perguntei.
-Mas espera, o que está fazendo aqui?- questionou, não de forma m*l educada, mas sim confusa por eu ter magicamente aparecido no segundo andar.
-Eu vim me vingar do seu irmão, invasor de quartos- fingi normalidade- Mas ele está fazendo trabalho com Lamar, fugi antes que ele me visse, se não Bailey ia querer me m***r.
-Ele com certeza ia!
-Mas então, já que estou aqui, o que vamos aprontar?- sorri- Quer que eu bata em alguém?
-O que? Não, lógico que não! Na verdade eu queria conversar contigo, sobre algo que eu deveria conversar com meus pais, se não fosse tão envergonhada.
-Sobre relacionamentos?- chutei.
Qual é, a maioria dos adolescentes não tinha liberdade, ou tinha vergonha, de conversar com seus responsáveis, principalmente sobre esse assunto. Eu sabia que, para muitos, era importante ter um amigo disposto a ajudar, alguém que fosse realmente orientar de alguma forma.
-Mais ou menos. Eu tenho alguns bloqueios, na verdade- ela suspirou.
-Se quiser mesmo me contar, não precisa se sentir envergonhada- lhe dei um sorriso amigável- Se mudar de ideia e preferir não me contar, tudo bem também. Mas eu prometo que o que me falar, vai morrer aqui, não vou contar para ninguém da nossa conversa.
-Obrigada, Joalin! As vezes eu queria uma irmã mais velha.
-Não conversa com Bailey? Eu e Josh sempre fomos muito cúmplices.
-Converso sempre, na verdade. Acho que agora estamos vivendo momentos muito diferentes e acho que eu meio que preciso de uma opinião feminina.
-Eu te entendo- ri, esperando que ela falasse.
-Bailey deve ter te falado que mesmo sendo adotada, eu escolhi seguir as tradições da Índia, porque para mim, essa é uma forma de me conectar com a minha mãe biológica. Por outro lado, há muitas coisas que eu não concordo, como o sistema de Castas, obviamente. Tem coisas que eu simplesmente não sei se concordo ou não.
-Pode me dar um exemplo?- questionei.
-É nesse ponto que eu queria chegar, na Índia, é normal que as mulheres se casem novas, com homens escolhidos por suas famílias. Na maioria das vezes, o beijo ou coisas mais avançadas, só acontecem depois do casamento.
-Realmente é uma cultura bem diferente da que vivemos por aqui- falei, talvez um único comentário simples era o que cabia no momento.
-Sobre ter um casamento arranjado, isso está fora de cogitação, não é o que eu quero, assim como não quero me casar antes de beijar meu marido. Mas sexo...
-É uma coisa que te atormenta?
-Isso- ela passou a mão pelos cabelos- As vezes eu acho que quero esperar, outras horas penso que não. Eu ainda não consegui decidir se essa é uma das tradições que eu quero seguir, ou não.
-Olhe, eu poderia te dizer para você seguir seu coração. Eu podia te falar que, se for para acontecer, você vai querer e você vai se permitir. Mas eu não vou te falar essas coisas porque junto com o t***o, há luxúria e esse sentimento te permite fazer coisas que as vezes você não faria em um "juízo normal", o arrependimento se torna cabível demais.
-Então você acha que eu deveria tomar uma decisão logo?
-Não, não acho- sorri- Eu acho que você precisa ter certeza do que quer, não importa quanto tempo demore para isso acontecer. Talvez você decida t*****r na semana do seu casamento, "mas se for assim, eu espero mais alguns dias", não, se a decisão que você tiver tomado for essa e você achar que é importante para você ter s**o antes de se casar, não importa quanto tempo falte.
-Mas e se essa decisão demorar demais?
-Não tenha pressa, você tem uma grande decisão para tomar. Por trás dela, há muitas outras coisas para pensar. Todo casamento pode acabar em divórcio? Sim, todos estão sujeitos a essa possibilidade, mas talvez você escolha esperar pela segurança, porque só quer ter um homem em sua vida. Talvez no noivado ou em um namoro fixo você já adquira tal confiança. Pode ser que você não precise disso e não veja problema em t*****r com 2, 3, 4 caras que namore durante a vida. Ou então, você vai decidir que não liga para números e que quer ficar com quem tiver vontade. O que eu acho mais importante é que você respeite seu tempo, que não deixei ninguém interferir na sua decisão. Se você decidir esperar, você decidirá por si própria ou porque não quer fugir da sua cultura? São perguntas que você precisa se fazer, mas não é que precisa encontrar a resposta agora.
-Seria invasão demais, da minha parte, perguntar como essa parte da sua vida se desenvolveu?
-De maneira nenhuma, falar de s**o não precisa ser um tabu, Shiv. Comigo as coisas foram um pouco fora do comum, eu diria.
-Sério?- ela riu.
-Eu meio que não procurava um amor, um namorado ou algo do tipo. Porém...- fiz suspense- Eu era extremamente curiosa e desapegada, o mesmo aconteceu com Josh, Sabina e Noah. Nós queríamos viver aventuras, sempre fantasiamos muito sobre nossa adolescencia. Na época em que queríamos beijar pela primeira vez, fizemos um acordo de fazer isso entre si e, obviamente comigo e Josh sendo irmãos, a única forma de separar era eu e Noah para um lado e ele e Sabina para o outro.
-Vocês realmente fizeram isso combinado?
-Sim, mais de uma vez- brinquei- Para Sabi e Josh, foi um beijo. Eu e Noah continuamos com isso, com uma amizade colorida. Quando nós decidimos que estávamos prontos para perder a virgindade, foi a mesma coisa: dividimos da mesma forma, marcamos dia, hora e local, foi cada dupla para um quarto e rolou, na mesma hora.
-Meu Deus- ela tampou a boca.
-Eu juro que foi legal, mas mais uma vez para Josh e Sabi foi apenas uma única vez.
-Enquanto você e Noah continuaram?
-Pois é- confirmei- Nós nunca deixamos isso atrapalhar nossa amizade, temos um carinho de irmãos, só que de uma maneira diferente. Se um de nós começasse a namorar, nós parávamos. Ao mesmo tempo, isso nunca nos atrapalhou com outras pessoas, pelo contrário, nos deu mais confiança e segurança do que estávamos fazendo, além de i********e, é claro.
-Isso é bem legal, mas eu acho que nunca teria capacidade de separar as coisas, nesse nível.
-As vezes temos nossas trapalhadas, como foi com Sina, não acreditamos que tínhamos ficado com ela na mesma noite. Agora, cá entre nós, acho que eles estão desenvolvendo sentimentos, então acho que não vai demorar muito até que eles me deem um ultimato sobre nossa "pegação desenfreada".
-Eles combinam!
-Também acho- sorri- Mas voltando a falar de você, principalmente sobre a parte de não ceder por culpa dos outros: Nunca faça nada para agradar ninguém, para se encaixar em um padrão. Não vale a pena, não é saudável e só vai te machucar, não ultrapasse seus limites por ninguém, isso não é prova de amor. E se alguém te dizer que é, escolha se amar e se priorizar antes de tomar qualquer decisão.
-Eu sei disso, um dos pensamentos mais machistas é de que s**o segura relacionamento.
-Exatamente, s**o não garante nada. O prédio fadado ao desastre, uma hora irá desmoronar e se para evitar isso, você tiver colocado uma viga a mais na parede, mesmo contra sua vontade, além de se sentir culpada você ainda ficará triste consigo mesma e decepcionada.
-Gostei da metáfora- ela riu, parecendo prestar muita atenção em cada conselho que eu dava.
-Outra coisa importante: se o cara te falar que c*******a aperta, machuca, tira a sensibilidade ou algo do tipo, tome cuidado porque ele provavelmente não vale muita coisa. Não permita que ele deixe de usar, se você engravidar dessa forma, nada garante que ele não vai colocar a culpa em você ou pior, sumir do mapa, mas o risco de pegar uma doença contagiosa é h******l e esse é daqueles que não vale a pena correr, então só transe sem c*******a se você confiar muito no cara, mas não esqueça de ter outro método contraceptivo, se não tiver planos de engravidar.
-Você já... transou sem c*******a, alguma vez?- ouvi passos na escada, mas preferi ignorar aquilo e apenas continuar conversando com Shiv.
-Uma única vez, eu e Noah conversamos sobre isso e fomos juntos ao médico, porque queríamos ter segurança, mas mesmo assim foi só para "experimentar". Nesse caso, o medo era de gravidez, mas se em uma hipótese minúscula isso acontecesse, eu sabia que íamos nos apoiar e lidar com isso juntos. Assim como temos confiança suficiente com relação à doenças, sempre fomos muito responsáveis e sei que ele não saiu por aí transando com todo mundo sem c*******a. Mas é sério, não usar não é prova de amor, nem de confiança.
Mas aí alguém pigarreou atrás de nós, me virei sem muita surpresa, dando de cara com Bailey e Lamar. Ótimo, eles pegaram a melhor parte da conversa, para não dizer o contrário.