📖 Capítulo 4
Vitória
Segui Katy pelos corredores da casa sem dizer uma palavra. O chão era tão limpo que refletia a luz fraca dos lustres. Cada passo que eu dava parecia ecoar, como se a casa toda me ouvisse.
Ela abriu uma porta no final do corredor e me fez sinal para entrar.
— Esse vai ser o seu quarto. — disse num tom neutro, quase mecânico.
O espaço era grande, muito maior do que meu barraco inteiro. Uma cama de casal, lençóis brancos esticados sem um vinco, um guarda-roupa de portas espelhadas e uma cortina pesada cobrindo a janela. No canto, uma cômoda com gavetas fechadas.
Katy foi até a porta ao lado da cama e a abriu.
— Banheiro. — apontou para dentro. — Tem chuveiro quente, toalhas no armário de cima e sabonete na pia.
Voltou para o quarto, pegou um controle remoto em cima da cômoda e colocou na minha mão.
— Ar-condicionado. Aqui faz frio à noite, então regula como quiser.
Abriu a primeira gaveta do guarda-roupa e mostrou algumas cobertas dobradas.
— Se precisar, estão aqui. Mais tarde eu trago umas roupas pra você, tá? — falou como quem repete uma tarefa rotineira.
Assenti com a cabeça, mas não disse nada.
Ela me olhou por um segundo, como se esperasse alguma pergunta, e então saiu, fechando a porta atrás de si.
O silêncio caiu pesado.
Me sentei na beira da cama, olhando para o chão. Não era meu quarto. Não era minha casa. Tudo ali parecia limpo demais, arrumado demais… e frio demais. Não havia nada que tivesse meu cheiro, minha marca, nada que me lembrasse quem eu era antes de entrar por aquele portão.
Segurei o choro enquanto Katy estava ali, mas agora…
Agora ele veio.
Deitei de lado, encolhida, e deixei que as lágrimas caíssem sem fazer barulho. Não queria que ninguém soubesse. Era meu momento, meu luto pelo pouco de liberdade que eu tinha e que, agora, não existia mais.
A cada lágrima, eu sentia o peso da realidade afundar mais no meu peito. Eu estava presa. E, pior que isso, presa a um homem que não parecia conhecer a palavra “misericórdia”.