Capítulo 5

993 Palavras
📖 Capítulo 5 Ricardo Katy entrou na sala, limpando as mãos no pano de prato.
— A menina já tá no quarto. — disse. — Certo. — respondi, sem levantar a cabeça dos papéis. — Você vai sair daqui a pouco pra fazer umas compras. Quero que traga tudo que uma mulher precisa. Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa com meu interesse.
— Roupas, sapatos? — Tudo. — cortei. — Produtos de higiene, maquiagem, lingerie, calçados… Não quero ela usando aquelas roupas velhas que tava no corpo. Compra peças boas, nada de porcaria. Entendeu? Katy assentiu, mas não comentou. Eu confiava nela para executar ordens simples, e essa era uma delas. Ainda assim, meu tom deixou claro que não era um pedido. Quando ela saiu, minha atenção foi para a bolsa de Vitória, largada perto da entrada. O celular estava lá dentro. Peguei. Era um modelo simples, com a tela trincada no canto. Levei para o escritório, tranquei a porta e liguei o computador.
Conectei o aparelho a um cabo, iniciando o processo de clonagem. Não era a primeira vez que eu fazia isso. Com as ferramentas certas, em poucos minutos eu teria acesso a tudo: conversas, fotos, contatos, redes sociais. Para controlar alguém, não basta vigiar onde anda. Tem que saber o que pensa, com quem fala, o que deseja. As pastas começaram a aparecer na tela. Mensagens recentes, áudios, fotos antigas. Não me interessava nada de sentimentalismo, mas ali tinha informação. Nomes, números, datas. Então vi algo que chamou minha atenção: várias mensagens para e-mails e contatos com título “Orçamento – Faculdade de Administração”.
Abri. Orçamentos simples, valores de matrícula, planos de parcelamento. Vitória queria estudar. Isso explicava muita coisa: o jeito calado, a vontade de trabalhar, a forma como evitava chamar atenção no morro. Mas agora… os planos dela iam ter que mudar. Me recostei na cadeira, encarando a tela.
Eu não era um homem que acreditava em sonhos. Sonhos deixavam as pessoas fracas, distraídas. E no meu mundo, distração custava caro. Ainda assim, uma parte de mim analisava aquilo como se fosse uma ficha de um soldado novo. Vitória não tinha vícios, não tinha contatos perigosos, não tinha histórico de traição. Só uma vida ferrada e uma ambição que nunca ia se concretizar se dependesse dela sozinha. Katy bateu na porta.
— Tô indo. Quer que eu leve o carro? — Leva. Compra tudo que eu disse. — falei, desligando o celular de Vitória e colocando de volta na bolsa. — E vê se não economiza. Ela assentiu e saiu. Eu fiquei sozinho no escritório, o som distante da favela entrando pela janela. No meu mundo, cada pessoa tinha um valor — e, naquele momento, eu estava tentando calcular o dela. O som do rádio que ficava sobre a mesa me tirou dos pensamentos. — Chefe, tá na escuta? — a voz abafada veio carregada de tensão. Peguei o aparelho.
— Fala. — Problema na boca do Morro Alto. A carga que chegou ontem… metade tá faltando. Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo.
— Vocês tão de brincadeira comigo? — perguntei, já sentindo o sangue subir. — A gente conferiu, chefe… — Conferiu uma ova. — cortei, me levantando. — Eu vou aí agora. Se eu descobrir que alguém meteu a mão, vai sair caro. Larguei o rádio na mesa com força. Peguei as chaves da BMW branca na prateleira. Não era um carro qualquer — era blindado, suspensão reforçada, vidros que aguentavam mais que algumas paredes de casa. Não porque eu tivesse medo, mas porque não dava pra facilitar. Saí pela porta da frente. Dois dos meus vapores que estavam de vigia se ajeitaram ao me ver.
— Vamos. — mandei, entrando no banco do motorista. O motor roncou alto quando girei a chave. Engatei a primeira e desci pela rua estreita do morro, desviando de motos e crianças que brincavam sem nem perceber a tensão que rondava. O rádio chiou de novo.
— Chefe, os caras tão aqui, mas juram que não mexeram na carga. — Vou ouvir isso pessoalmente. — respondi, curto. Chegamos à boca de fumo em poucos minutos. O lugar tinha acabado de passar por uma reforma, e era visível: paredes pintadas de branco, prateleiras alinhadas, caixas empilhadas de forma organizada, até o chão estava limpo — algo raro naquele pedaço. Desci do carro e a conversa no local morreu na hora. Todos baixaram os olhos.
— Cadê o responsável pela entrega? — perguntei, a voz baixa, mas carregada. Um dos rapazes apontou para o fundo. Fui até lá, e encontrei dois homens parados ao lado de uma mesa, com a expressão de quem esperava a própria sentença. — Então? — encarei o mais velho dos dois. — Me explica como é que uma carga de vinte quilos chega aqui com dez e meio. — Chefe, eu… eu não sei. — ele gaguejou. — A gente recebeu assim. — Recebeu assim? — repeti, dando um passo à frente. — E não achou que era bom me avisar ontem? O silêncio foi a única resposta. — Eu não tenho paciência pra incompetência. — continuei. — Aqui, todo mundo come porque eu deixo. E todo mundo vive porque eu quero. Então, quando eu digo que a carga vem completa, ela vem completa. Olhei para um dos meus homens.
— Confere as câmeras. Eu quero saber quem encostou nesse carregamento desde o momento que saiu do fornecedor até entrar nessa boca. Se eu descobrir que alguém desviou, não importa se é sangue, amigo ou vizinho. Vai pagar. O clima pesou ainda mais. — Agora limpa essa merda e me entrega o relatório até o fim do dia. — finalizei, virando as costas e saindo. Ao entrar de volta na BMW, minha cabeça já estava no próximo passo. Problemas como esse eram como vazamentos — se não tampasse rápido, a água invadia tudo. E no meu mundo, um vazamento podia afundar o barco inteiro.
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