A Ascensão da Herdeira de Gelo
Sou Kyra Volkov. Vinte e oito anos de um inverno que nunca derrete e uma dieta à base de pólvora russa. No meu mundo, a "omertà" não é um código de conduta romântico para ser impresso em livros de banca; é o muro de arrimo que separa a tua jugular do bisturi do legista. Cresci com o som rítmico de ossos sendo moídos servindo de trilha sonora para jantares onde a vodka custava mais que o PIB de um país pequeno, e a vida de quem a servia não valia o vidro da garrafa. Aprendi cedo: respeito é um órgão que você arranca da garganta de quem ousa sustentar o olhar por um segundo a mais do que o permitido. Se tu não te curvas, eu te quebro. Simples assim.
Tenho cabelos pretos como o asfalto de Moscou sob a chuva e olhos que não tremem diante do d***o, simplesmente porque ele costuma sentar à minha mesa aos domingos para discutir negócios e partilhar o lucro. As cicatrizes que decoram minha pele não são marcas de erro ou fragilidade; são as medalhas de uma guerra de desgaste que eu ainda estou vencendo por puro sadismo e competência. Meu pai, o velho Lorenzo Volkov um carrasco de terno sob medida e alma de chumbo me ensinou o único mantra que não falha: quem controla o medo, controla o destino.
Não sou uma princesa de contos de fada esperando resgate. Sou a p***a de uma herdeira de uma coroa de espinhos forjada no aço de tanques soviéticos.
Lorenzo era um czar entalhado na frieza. Um mestre em apertar mãos que cheiravam a traição enquanto, mentalmente, já media o tamanho da cova que abriria para o "aliado" antes do café da manhã. Ele me criou no vácuo da fragilidade. Aos dezoito, eu não estava escolhendo vestidos de debutante; eu comandava os brigadiers, sentava em cúpulas onde cada vírgula errada era uma sentença de execução imediata e limpava a mesa de homens feitos apenas com o peso do meu silêncio. Eu não estava lá por nepotismo. Estava lá porque eu sabia exatamente como fazer o relógio biológico de qualquer traidor parar de tiquetar.
Mas o inferno é criativo e a traição é um prato que se serve em taças de cristal. Meu pai foi morto. Não com um tiro digno de um soldado, o que eu até perdoaria. Foi por veneno. O crime dos ratos, dos covardes que não têm culhão para olhar no olho enquanto puxam o gatilho. A traição veio de dentro da nossa própria bratva mãos que brindaram à nossa saúde com sorrisos largos, enquanto destilavam o fim do meu velho. O veneno caminhou no sangue dele por semanas, discreto, corroendo o leão por dentro até morder o coração.
Na véspera do fim, o quarto fedia a remédio, conhaque e morte iminente. Lorenzo me chamou. O olhar dele ainda era puro cálculo, mesmo com a vida se esvaindo.
— Kyra... Pacto de Ferro. Procura o Heitor, o "Feroz", no Rio de Janeiro. Ele é o único que protege o que decide possuir. E quando ele decide, a vontade dele vira a única lei daquele inferno tropical.
Ele me deu o anel dos Volkov ouro maciço e um rubi que parece sangue coagulado e um envelope lacrado com cera n***a. Não foi um pedido; foi uma ordem de guerra. Eu obedeci. Na nossa família, a vontade do Don é o destino final, e o meu destino agora cheirava a asfalto quente e fuzil.
Na manhã seguinte ao velório, Moscou estava infestada de abutres. Matteo e Ruggiero primos de sangue, mas lixo de caráter vieram me "proteger". Eles apareceram num sedan blindado preto, vidros tão escuros quanto o vácuo que tinham no peito. Eu entrei. Sentei no centro do banco traseiro. Mão direita no colo, esquerda escondida sob o casaco de pele de lince, colada na minha Beretta personalizada. No meu mundo, quem senta no centro comanda o campo de visão e dita quem continua respirando.
A cidade corria lá fora como um borrão cinza. O silêncio era doentio.
— Signorina, — Ruggiero soltou, a voz macia como seda podre — o palácio não é mais seguro. Vamos para a casa de campo. O conselheiro autorizou...
— O conselheiro fala comigo, não com um carrapato como você. — Minha voz saiu como um estalo de chicote. — E quando ele ligar, eu decido se ele continua com a cabeça no pescoço.
Eu li o movimento deles. Matteo, no volante, tensionou os ombros. Ele soltou o acelerador para estabilizar o carro. Eles queriam um "acidente". Amadores. Eu sou o próprio desastre natural.
Ruggiero girou o corpo, a arma saindo do coldre. Eu agi antes dele processar o próprio pensamento medíocre. Atirei primeiro no pulso dele, explodindo rádio, ossos e qualquer chance de reação. O disparo dentro do carro blindado foi um trovão. Mandei o segundo balaço no ombro de Matteo, travando a direção. O carro guinou.
Chutei o banco da frente com meu salto agulha, estourando o cotovelo de Matteo, e descarreguei no painel eletrônico. O motor tossiu fumaça n***a. Ruggiero, urrando de dor, tentou buscar o fuzil no assoalho. Eu esmaguei a ferida dele com a bota e sussurrei, sentindo o calor do seu pavor:
— A Bratva não é herança, seu bosta. É um moedor de carne. E tu acabou de virar janta.
O sedan beijou o muro de concreto a cem por hora. O cinto me cortou a pele, mas o airbag foi a cortina de fumaça que eu precisava. Saí do ferro retorcido com o lábio sangrando e o coração batendo no ritmo da guerra russa. Dei três passos e o tanque de combustível se entregou ao fogo. Uma bola de fogo gigantesca iluminou a minha silhueta enquanto Matteo e Ruggiero eram devorados vivos. Eu não olhei para trás. Quem olha para trás vira estátua. Eu nasci para ser o incêndio que purifica a traição.
Fiz o inventário: anel no dedo, envelope no bolso, alma blindada. Peguei o telefone descartável e liguei para o número internacional gravado na minha memória. A voz que atendeu era um rosnado grave, a voz de quem manda no inferno sem precisar gritar para ser ouvido.
— Quem fala? — O tom dele era um aviso de morte iminente.
— Pacto de Ferro, — respondi, o gelo de Moscou na voz — Volkov honra dívidas. Quero o Rei do Império.
O silêncio do outro lado durou cinco segundos eternos. A voz dele mudou de densidade. Ficou perigosa.
— Anota o endereço, russa. Vem sozinha. Se trouxer sombra, o morro te engole antes de tu passar pela base.
— Eu não trago sombra, Feroz. — Falei, vendo as chamas consumirem o que restava dos meus primos. — Eu sou a própria escuridão.