Capitulo 8

889 Palavras
Desliguei. O Rio de Janeiro agora era o meu tabuleiro. O vôo clandestino foi uma eternidade de planos de morte. Quando pousei em solo brasileiro, o calor me atingiu como um tapa na cara dado por alguém que me odiava. Era úmido, barulhento e fedia a uma liberdade que eu nunca conheci. Peguei um táxi caindo aos pedaços; o motorista me olhava pelo retrovisor com uma lascívia que eu cortei apenas ajustando o coldre na cintura, deixando o cabo da Beretta à mostra. Ele não falou mais nada até o destino. O Complexo do Império surgiu no horizonte como uma ferida aberta na montanha. Um labirinto de tijolo baiano e zinco. Comecei a subir. Cada viela era um teste de nervos. Sentia os olhares dos moleques na contenção, os fuzis apontados das lajes, o cheiro de óleo de motor e fumaça. Eu não parecia uma turista; eu parecia a morte vestida de grife. Eu estava a caminho da base, mas o morro não te recebe com tapete vermelho. Ele te testa na carne. Um grupo de quatro soldados armados me parou num beco estreito. — Onde vai, morena? — Um deles, com um fuzil atravessado no peito, riu, me medindo de cima a baixo com um desrespeito que eu não tolero nem do Papa. — Vou ver o teu dono. — Minha voz saiu reta, sem um pingo de hesitação. — E se tu não tirar essa mão imunda da minha frente, eu vou te ensinar como se diz "misericórdia" em russo antes de te mandar pro inferno. Eles riram. Achavam que eu era apenas um troféu de pele clara. O sujeito chegou perto, tentando tocar o meu rosto. Eu não esperei. Com um movimento que meu pai me obrigou a repetir mil vezes até sangrar, segurei o pulso dele, girei e usei a faca que estava escondida na minha manga. O corte foi limpo, na palma da mão dele, fundo o suficiente para ele soltar a arma. Antes que os outros reagissem, eu já estava com a minha Beretta encostada no queixo dele. — O próximo que se mexer vai carregar o cérebro desse o****o num balde. — Rosnei, os olhos faiscando o ódio acumulado de Moscou. — Eu sou Kyra Volkov. O Pacto de Ferro está ativo. Abram o caminho ou eu começo o m******e aqui mesmo. O silêncio que caiu no beco foi absoluto. Eles viram o anel. Viram o brilho do rubi e, principalmente, viram que eu não estava brincando de ser bandida. Eu era a máfia pura. — Deixa ela passar! — Um grito veio de cima, de uma laje. Eles recuaram, mas eu não guardei a arma. Continuei subindo, o sangue do soldado traçando um rastro discreto no cimento. Eu ainda não cheguei no Heitor. Eu ainda estou sentindo o gosto desse lugar, entendendo como o ferro se comporta sob o sol. Eu não vim para o Rio para me esconder atrás de um fuzil alheio. Eu vim para encontrar o d***o em pessoa e dizer que o inferno dele agora tem uma rainha. Se o Heitor acha que vai encontrar uma refugiada assustada, ele vai ter uma surpresa sangrenta. Eu sou a tempestade que a Rússia não conseguiu segurar. E se o "Feroz" quer o Pacto de Ferro, ele vai ter que provar que é forte o suficiente para não ser esmagado pelo peso do meu sobrenome. A guerra está apenas no prólogo. Eu sinto o cheiro da pólvora vindo da base, o som dos rádios comunicadores chiando. Cada passo meu é um aviso: a Volkov chegou. E quem matou o meu pai vai descobrir que o maior erro da vida deles foi me deixar viva para cruzar o oceano. Eu vou armar esse morro com o que há de mais letal no mercado n***o europeu e vou transformar esse Complexo no meu quartel-general. Ninguém me protege. Eu sou a proteção e eu sou a ameaça. Heitor que se prepare, porque o trono dele nunca viu alguém como eu. Eu não peço permissão, eu tomo territórios. E o Rio de Janeiro acaba de virar propriedade da Bratva... ele só não sabe disso ainda. Ando pelas ruas estreitas, o calor fazendo o suor escorrer entre os meus s***s, mas meu coração continua a zero grau. Vejo a miséria misturada com a ostentação das armas folheadas. Um mundo de contrastes, perfeito para quem sabe manipular o caos. Eu não sou uma estrangeira perdida; eu sou o futuro deste lugar. Vejo a entrada da base principal logo à frente. Blindados, soldados de elite do morro, o cheiro de óleo diesel. O coração bate no ritmo de um metrônomo de execução. Lorenzo, meu pai, eu vou honrar a tua dívida. Mas do meu jeito. Com o dobro de sangue e sem nenhuma gota de piedade. Quem atravessar a minha linha vai descobrir por que o gelo queima mais que o fogo. O Complexo do Império vai ser pequeno para o que eu estou trazendo na bagagem. Eu sou a herdeira do lobo, e eu vim para reclamar o que é meu. O Feroz pode ser o rei do morro, mas ele vai descobrir que até os reis precisam de uma Volkov para não serem destronados. A caçada está prestes a começar de verdade, e eu já sinto o gosto metálico da vitória na ponta da língua.
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