— Acabou a aula, Volkov. Vem, p***a. — Minha voz sai como um rosnado, sem paciência pra etiqueta de diplomata.
Saímos pelo corredor de cimento bruto do bunker sob um silêncio que pesava mais que uma tonelada de chumbo nas costas. O bar do Severino engole nosso rastro como um buraco n***o, e a rua lá fora nos devolve o cheiro de chuva batendo no asfalto quente e o rastro metálico de pólvora que ainda flutua nos becos, perfume de quem vive no limite. A favela nos observa com o canto do olho, um organismo vivo que sabe quando a hierarquia mudou: janela que abre um milímetro, assobio curto de protocolo que corre as vielas como um rastilho, passo que abre passagem sem eu precisar pedir licença. Quem anda comigo o morro não barra o morro abaixa a cabeça porque sabe que, se eu tropeçar, o tombo do mundo ao redor é feio pra c*****o e a vala vai ser rasa pra muita gente.
André vem dois passos atrás, o fuzil colado no corpo, o dedo no guarda-mão, os olhos fritando o ambiente. Duda vai fechando as rotas no meu ponto eletrônico, Pingo cuida das antenas no alto, Tuca costura as esquinas com o olhar de rapina de quem não deixa passar nem sombra. O Complexo obedece ao meu comando silencioso, uma engrenagem de morte que eu lubrifico com sangue, respeito e ódio.
Descemos uma viela estreita, subimos outra onde o esgoto corre e a vida pulsa com a violência de um tiro de traçante cruzando o céu. A laje parece que devolve a pulsação pra sola da minha bota tática, um tambor de guerra que bate no ritmo do meu coração acelerado. A Kyra anda no meu compasso: queixo erguido, r**o empinado, olhar de loba que mede cada saída, cada telhado, cada sombra. Mafiosa no DNA, abusada em cada gesto. E, p***a, gostosa de um jeito que faria qualquer rei de plástico perder o foco e a própria vida. Mas eu não sou rei fraco de condomínio. Eu sou o cara que até o vento pensa duas vezes antes de soprar contra, e ver essa gringa se movendo no meu terreno com essa pose de dona do mundo me deixa com o sangue em ebulição e o p*u pulsando na calça.
No topo mais alto, onde o Rio de Janeiro parece uma maquete de luxo e miséria que eu posso esmagar com o dedão, o meu Refúgio espera. Não é barraco de tijolo aparente pra polícia fazer festa; é um bunker de concreto e ferro encravado na rocha bruta. Fachada discreta pra não chamar atenção de drone da Federal ou de satélite estrangeiro, mas por dentro é força pura, puro poder. Piso de cimento liso, polido, onde o eco da bota bate seco e autoritário. Sala ampla, sofá de couro preto, mesa pesada de madeira maciça que já viu muito plano de invasão ser traçado entre uma carreira de pó e um trago de whisky. Mapa da cidade pregado na parede com pinos de aço marcando cada boca, cada rota de fuga, cada inimigo marcado pra virar saudade. Na estante, whisky importado de mil dólar divide espaço com peças de fuzil desmontadas e manuais de guerra urbana que eu conheço de cor. Cozinha de inox, limpa, funcional. Tudo ali tem um propósito letal. Não tem luxo de playboy que mora com a mãe; tem o conforto de quem reina no caos absoluto.
— Tu vai ficar aqui — abro espaço com o ombro, fechando a porta de ferro de três polegadas atrás de nós. O som da tranca batendo ecoa como uma sentença de morte ou de prazer. — É o único lugar onde eu sei quem entra e, principalmente, quem some se tentar a sorte de respirar meu ar sem permissão. Aqui dentro, se eu não der o ok, nem o oxigênio entra, entendeu, russa?
Ela gira os olhos rápido, mapeando o ambiente sem precisar de papel. Calcula rota de fuga, testa a espessura da parede com o olhar, sente cada canto como se tivesse tomando posse de uma terra conquistada. Ela se encosta perto da janela de vidro blindado, observa o reflexo das luzes do morro lá embaixo, e eu sinto que ela já está planejando como me derrubar daqui de dentro. Joga bem, a desgraçada. Joga sujo, do jeito que eu gosto.