capitulo 10 Feroz

1010 Palavras
O bunker fedia a eletrônico superaquecido, ferro e ao rastro de pólvora que aquela russa trouxe grudado na pele como se fosse um perfume de grife vindo direto do inferno. Eu estava sentado no meu trono de couro, observando o modo como ela entrou: não como uma mulher que buscava abrigo ou uma refugiada de guerra, mas como uma praga bíblica que veio reivindicar o que o d***o esqueceu de levar. O ar-condicionado no talo não era suficiente para esfriar o sangue que subiu para a minha cabeça no momento em que ela abriu a p***a da boca. — Então tu é o tal do Feroz — a voz dela saiu limpa, um sotaque carregado que cortava o ar gelado como uma navalha enferrujada. — O soberano desse lixo. Eu não me mexi. Continuei largado, com a postura de quem é dono de cada grão de poeira e de cada alma pecadora daquele morro. Puxei a fumaça do meu cigarro, sentindo o tabaco queimar o peito, e soltei aquela nuvem cinza bem na cara dela, um desrespeito silencioso, letal e vulgar. — Soberano, dono, rei... tu escolhe o vulgo, gringa — falei, a voz rouca, carregada de um deboche que já fez muito marmanjo mijar nas calças antes de levar um azeitona na nuca. — O que importa é que aqui, nesse quadrado, tu só respira porque eu ainda não decidi se tu vale o oxigênio que meu sistema tá filtrando. Pra mim, tu é só mais um problema com sobrenome difícil que eu posso apagar com um estalo de dedo e um descarte bem feito na Baía de Guanabara. Ela não recuou um milímetro. Pelo contrário, Kyra deu um passo à frente. O som do salto agulha no piso molhado era o tique-taque de uma bomba-relógio prestes a estourar. O cheiro dela tomou conta de tudo; não era essa p***a de perfuminho doce de shopping, era cheiro de guerra, de óleo de arma e de uma maldade que faria o capeta pedir arrego. Ela invadiu meu espaço pessoal com uma audácia que me deu um t***o doentio, parando tão perto que eu conseguia ver as pupilas dela dilatadas de fúria e desprezo. — Meu pai disse que tu era o único homem que prestava nesse país de merda — ela sussurrou, e o veneno naquelas palavras pesava uma tonelada de puro ódio. — Mas tô vendo que tu é só mais um moleque de favela que gosta de ouvir a própria voz e se esconder atrás de fuzil de ouro. Tu é vulgar, Heitor. Um vira-lata que se acha lobo porque manda em meia dúzia de miseráveis com fome. A sala inteira congelou. Eu vi o André tencionar o ombro pelo canto do olho, a mão já buscando a peça na cintura. O Tuca apertou a coronha do fuzil tão forte que os nós dos dedos ficaram brancos. A Duda parou de digitar os códigos de criptografia, o silêncio era tão pesado que dava pra ouvir a pulsação frenética daquela russa abusada. E foi aí que ela fez a maior loucura da vida dela. Sem pedir licença, aquela mão fina, mas firme como aço siberiano, roubou o cigarro da minha boca. Ela tragou fundo, fechando os olhos por um segundo com um prazer macabro, e soltou a fumaça de volta no meu rosto, me encarando com uma ousadia que beirava a psicopatia pura. Eu dei um sorriso torto. O tipo de sorriso que precede o m******e e a limpeza de terreno. — Saiam todos — ordenei, sem tirar os olhos daquela fêmea alfa. — Agora! Se eu ouvir um passo ou um suspiro no corredor, eu saio daqui pra matar quem tiver lá. Ninguém discutiu. No meu Império, minha ordem é sagrada, e quem desobedece vira adubo antes do sol nascer. Quando a porta de ferro bateu, o estrondo ecoou como o fim do mundo. Ficamos só nós dois, as respirações se batendo no ar saturado de intenções cruéis. — É isso? — ela provocou, jogando a cinza do meu cigarro bem em cima do meu mapa de logística, um desrespeito que me fez querer esganar ela ali mesmo, só pelo prazer de ver o brilho sumindo daqueles olhos gélidos. — O grande Feroz deixa uma mulher roubar o cigarro dele e não faz nada? Tu tá mole, ou o sol do Rio derreteu o que tu tinha de homem? Eu levantei da poltrona com uma velocidade que a pegou de surpresa, mesmo ela sendo uma máquina treinada. Em um segundo, eu a prensei contra a mesa de guerra, derrubando monitores, teclados e pilhas de papel. Minha mão fechou no pescoço dela não pra sufocar de vez, mas pra mostrar que a coleira agora tinha dono. A russa não gemeu, não implorou, nem mudou a expressão de deboche. Ela cravou as unhas nos meus braços, me encarando com um ódio que me fez querer quebrar cada osso daquele corpo só pra ouvir o som. — Eu não deixo nada, gringa — sibilei, o rosto a milímetros do dela, sentindo o calor infernal que emanava daquela jaqueta de couro e do corpo suado pela subida do morro. — Eu escolho o momento de agir. E tu acabou de passar no primeiro teste: não tremeu quando a mão pesou. Mas abaixa a p***a do tom. No meu morro, sobrenome de máfia não limpa o sangue do chão quando eu decido que a conversa acabou. Se tu quer proteção, vai ter que me provar que é utilidade, que tem serventia além dessa carinha de boneca, e não um peso morto que eu vou ter que carregar. Porque se tu for só uma princesinha russa exilada, eu te enterro sem nome em qualquer vala de lixo e ninguém vai nem saber que tu pisou no Brasil. Arranquei o cigarro da mão dela de volta e esmaguei no canto da mesa, mantendo meu corpo colado no dela, sentindo cada curva por baixo daquela roupa de combate que ela chamava de moda. A pressão que eu fazia era bruta, vulgar, sem nenhuma gota de cavalheirismo.
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