capitulo 13

1503 Palavras
— Vai me dar trabalho, gringa — falei, o suor descendo pela cicatriz no meu rosto, misturando-se com o sangue que começava a brotar. Agora eu não ia mais medir força. Acelerei. Sequência média: jab, cruzado, um gancho violento no fígado. Ela se fechou em concha, absorveu a pancada com um rosnado e girou a cintura me soltando uma cotovelada giratória que passou a dois dedos do meu nariz. Respondi com um pisão frontal no esterno, só para empurrar e ganhar espaço de manobra. Ela plantou os pés no chão e não arredou. Era abusada, confiante de um jeito que me irritava e me fascinava ao mesmo tempo. Cheguei junto de novo, sem dar espaço para ela respirar. Enfiei a mão na gola da jaqueta dela, girei o tronco e tentei um golpe de judô versão morro, sem técnica limpa, só força bruta e intenção de quebrar. Ela voou metade do caminho, caiu de lado e já rolou levantando como se tivesse molas nas costas. Tentou um armbar na subida, a perna subindo como uma cobra para prender meu bíceps. Eu cruzei o braço livre, empilhei o peso nela e bati o ombro contra o metal da parede para quebrar a alavanca. O golpe não fechou por milímetros. Escapei, mas ganhei um r***o na minha camisa. Ela levantou primeiro, num movimento rápido roubou o meu boné e jogou no canto da sala. Provocação de quem sabe que está lidando com um rei e quer ver a coroa no lixo. — A coroa caiu, "Rei" — ela sorriu de canto, um sorriso triunfante e cheio de veneno. — A coroa aqui não é pano, russa. É atitude e sangue — avancei com tudo, cego de uma mistura de raiva e fascínio que eu nunca tinha sentido por ninguém que ainda estivesse respirando. Entramos no clinch sujo, briga de rua total. Minhas mãos na nuca dela, ela tentando segurar meus pulsos com força de quem lida com fuzil pesado todo dia. Alternei joelhadas curtas nas costelas e na coxa dela. Ela não ficou atrás; acertou dois golpes de punho martelo na minha orelha que fizeram minha cabeça apitar como um rádio fora de frequência. Mudei o plano: ancorei no quadril dela, girei e encaixei um mata-leão pelas costas. Não apertei para valer teste de lealdade não é execução, ainda só coloquei o braço no lugar, sentindo o corpo dela vibrando contra o meu. Ela entendeu o recado, mas o revide veio sujo: cotovelada no meu flanco e uma rasteira interna que me pegou desprevenido. Perdi a base e caí de joelho. Ela soltou uma risada curta, seca, vitoriosa. Eu olhei para cima e vi a morte vestida de Alexander McQueen. Levantei já entrando com o ombro no plexo dela, colando a Kyra contra a parede de novo, sem deixar ela respirar. A mão dela subiu para o meu rosto, me puxando para um olho no olho tão pesado que dava para sentir o calor da respiração dela. Eu vi que ela não ia parar. Ela me deu uma cabeçada de volta, dessa vez na ponta do nariz. O sangue espirrou entre nós dois, pintando o asfalto interno do bunker. A Kyra se soltou, rodou e me acertou um chute giratório de calcanhar que pegou na minha têmpora. Minha visão escureceu, os joelhos fraquejaram. Ela veio para cima com uma sequência de socos no estômago, cada pancada com o som de um martelo batendo em carne. Eu travei os braços dela, usei minha altura e a joguei por cima da mesa de mármore. O som do corpo dela batendo no mármore foi seco, um estalo que ecoou no bunker todo. Ela deslizou, derrubando o computador e o whisky, mas já caiu de pé do outro lado, limpando o sangue do próprio rosto com uma elegância que me dava ódio. — Chega dessa p***a! — decretei, a voz saindo como um trovão que silenciou até o barulho das máquinas. Não era pedido de arrego, era a ordem do dono do Império que tinha visto o suficiente para saber que aquela mulher era a peça que faltava no meu tabuleiro. Dei dois passos para trás, abrindo as mãos, sentindo o sangue escorrer pelo meu pescoço. A sala voltou a ter espaço, mas a tensão continuava lá, uma faca pronta para degolar quem vacilasse. Ela ficou ali, o peito subindo e descendo freneticamente, a jaqueta de couro rasgada, o olhar de quem acabou de fazer um pacto com o d***o e estava pronta para cobrar os juros. — Tu não é convidada nessa p***a, Volkov — falei, recuperando o fôlego, a voz firme de novo. — Tu é o problema certo que eu estava precisando para botar fogo nesse Rio. Tu luta como quem não tem nada a perder e mata como quem já perdeu tudo. Eu olhei para o rastro de destruição na minha sala. Whisky caro no chão, monitores quebrados, e o sangue de dois herdeiros de impérios diferentes se misturando no concreto. Eu nunca tinha visto nada igual. A russa era um desastre natural com nome e sobrenome. — Passou no teste, gringa. Aqui dentro, eu falo e tu vive. Tu fala e muita gente morre — mas só do lado dos alemão e de quem ousar cruzar o nosso caminho. Tu quer vingança? Eu te dou a munição. Tu quer poder? Eu te dou o território. Mas tenta me trair para tu ver se eu não te mando de volta para a Rússia dentro de um pote de formol. Respirei fundo, fui até o canto e recolhi meu boné do chão. Não coloquei na cabeça. Fiquei segurando, sentindo a adrenalina baixar e o cheiro de sangue se tornar o perfume oficial daquela parceria. Olhei para a Kyra e vi que ela não tinha baixado a guarda nem por um segundo. Aquela mulher não se curvava, ela quebrava quem tentava dobrá-la. — Agora a gente trabalha. E quem vier te caçar lá de Moscou... — apontei para o corte no meu braço, fazendo um brinde silencioso com o meu próprio sangue — ...vai entender que dois predadores juntos não dão segunda chance nem para reza. O Rio vai sangrar, Kyra. E a gente vai ser quem vai beber o vinho da vitória. Aproximei-me dela, um passo de cada vez, sentindo o calor que emanava do corpo dela. A fúria ainda estava lá, vibrando. Eu toquei o queixo dela, forçando-a a olhar para mim, mas não houve submissão. Houve reconhecimento. — Bem-vinda ao Império, Rainha do Gelo. Tenta não quebrar muito as coisas, ou eu vou ter que te cobrar o conserto de um jeito que tu vai descobrir que o Feroz tem esse vulgo por um motivo bem escroto. Ela deu um sorriso de lado, aquele sorriso que dizia que ela ia quebrar exatamente o que ela quisesse, inclusive a mim se eu desse mole. O jogo agora ficou sério. A russa era letal, c***l e abusada. E eu? Eu era o dono da p***a toda, e agora eu tinha a arma mais perigosa do mundo sentada à minha mesa. Eu caminhei até o balcão, peguei uma garrafa que ainda estava inteira e servi dois copos de vodka russa que ela tinha trazido. Bebi o meu num gole só, sentindo a queimação descer. A guerra estava declarada, e eu m*l podia esperar para ver o rastro de corpos que a gente ia deixar para trás. — O pacto está assinado no sangue, Kyra. — Falei, olhando para as câmeras que mostravam o movimento no morro. — Amanhã, o Rio de Janeiro vai acordar com um novo tipo de medo. E Moscou vai descobrir que mandou a pessoa errada para o exílio. Você não veio para se esconder. Você veio para comandar. Ela pegou o copo da minha mão, os dedos roçando nos meus, um toque que era puro desafio. Ela bebeu sem desviar o olhar. No bunker, o silêncio agora era de planejamento, o tipo de silêncio que precede o fim de uma era. Eu sabia que a minha vida nunca mais seria a mesma. Ter a Kyra Volkov ao lado era como segurar uma granada sem pino: emocionante, perigoso e com a certeza de que, quando explodisse, não sobraria pedra sobre pedra. — Prepare os seus homens, Heitor. — Ela disse finalmente, a voz recuperando a frieza habitual. — Porque quando eu começo uma caçada, eu só paro quando o último coração inimigo parar de bater. — Ótimo. — Respondi, sentindo o peso da minha arma na cintura. — Porque eu nunca fui fã de deixar sobreviventes para contar história. Nós dois ficamos ali, no escuro do bunker, iluminados apenas pelo brilho azulado dos monitores. O morro lá fora rugia, alheio ao fato de que o destino da cidade tinha sido decidido entre dois socos e uma promessa de sangue. A Rainha do Gelo e o Rei do Império. O Rio de Janeiro ia descobrir que o inferno era pouco para o que a gente estava preparando. E eu? Eu estava ansioso pelo primeiro tiro.
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