Eu sabia que os traficantes usavam ouro.
Era quase um símbolo.
Cordões grossos no pescoço, pulseiras pesadas, anéis brilhando nos dedos. Desde pequena eu via aquilo no morro. Os homens do movimento sempre exibindo o que tinham.
Mesmo assim…
ver tudo aquilo tão de perto ainda me impressionava.
As malas abertas sobre a mesa estavam cheias de peças. Cordões grossos entrelaçados, pulseiras largas, brincos que brilhavam sob a luz da sala.
Parecia coisa de joalheria cara.
Mas ali estava tudo espalhado como se fosse nada.
O homem da joalheria pegava uma peça de cada vez, mostrando.
— Esse aqui é ouro dezoito — dizia.
— Esse é italiano.
— Esse aqui está saindo bastante.
Barão m*l olhava.
Ele estava encostado na mesa, fumando um cigarro, observando mais a mim do que as joias.
Quando algo chamava a atenção dele, ele apenas apontava com o queixo.
— Esse.
Ou simplesmente pegava na mão.
O homem anotava alguma coisa em um caderno.
— Esse cordão aqui é mais caro — comentou o vendedor.
Barão nem perguntou o preço.
Nem pareceu interessado em saber.
Ele abriu a carteira grossa que estava na mesa.
Não tinha cartão.
Não tinha pergunta.
Só dinheiro.
Notas presas em bolos.
Ele pegou um maço inteiro e jogou sobre a mesa como se fosse nada.
— Tá pago.
O homem contou rapidamente.
Assentiu.
— Tá certo.
Eu fiquei observando aquilo.
Era surreal.
Enquanto muitas pessoas no morro m*l tinham dinheiro para comprar comida no mercado…
Barão comprava ouro como quem comprava pão.
Ele pegou um cordão grosso da mesa.
Virou para mim.
— Vem cá.
Aproximei devagar.
Ele levantou meu cabelo com uma das mãos e colocou o cordão no meu pescoço.
O metal frio encostou na minha pele.
Pesado.
Muito pesado.
Barão se afastou um pouco para olhar.
Os olhos dele passaram por mim lentamente.
— Gostei.
O homem da joalheria sorriu.
— Combina com ela.
Barão não respondeu.
Ele continuava me observando.
Como se estivesse imaginando algo.
— No baile… — disse ele finalmente — vai ficar melhor ainda.
Meu coração bateu mais forte.
Porque naquele momento eu entendi.
Aquilo não era apenas sobre luxo.
Era sobre mostrar.
No baile.
Na frente de todo mundo.
Cristal…
estaria ao lado dele.
E ninguém no morro iria duvidar de quem eu pertencia.