Capítulo 07

1410 Palavras
Bárbara narrando Eu não imaginei que descer o morro fosse tão… vivo. No começo, foi quase mágico. Assim que passei pelo portão da casa, senti aquele vento quente da noite bater no meu rosto e decidi que precisava espairecer. Ficar trancada naquele quarto, numa casa que ainda não parecia minha, com um padrasto que m*l conheço e um enteado que claramente me odeia, não estava ajudando em nada. Então eu desci. E conforme eu ia andando, percebia que ali tudo era animado. As ruas eram estreitas, cheias de luzes improvisadas, música saindo de caixas de som em frente aos bares, gente sentada em cadeiras de plástico nas calçadas. Crianças ainda corriam de um lado pro outro, mesmo já sendo noite. O cheiro de churrasco misturado com perfume barato e cigarro pairava no ar. Todo lugar que eu entrava com o olhar tinha movimento. Tinha comércio pra todo lado. Mercadinho aberto, salão de beleza iluminado, barbearia com três homens rindo alto, lanchonete com chapa estalando. E o mais curioso: as pessoas eram simpáticas. — Boa noite! — É nova por aqui? — Seja bem-vinda! Eu sorria de volta, meio sem jeito, mas respondia. Por onde eu passava, alguém cumprimentava. Aquilo me deu uma falsa sensação de segurança. Como se, apesar de tudo, eu pudesse me encaixar ali. Eu falava com minha vozinha que pedia para ela me proteger lá de cima. Fui descendo. Descendo. Descendo. Sem perceber que o caminho de volta não era tão simples quanto parecia. Quando me dei conta, já não fazia ideia de como voltar para casa. Parei no meio da rua, puxando o celular do bolso. — Preciso achar alguém que me ajude a voltar, porque eu não faço ideia de como ou por onde ir — falei sozinha, olhando pra tela como se o GPS fosse milagrosamente funcionar ali. E o pior de tudo é que funcionava muito bem, mas eu ia colocar o quê? porque eu não fazia ideia de para onde eu tinha que voltar. Ótimo. Continuei andando, tentando reconhecer alguma esquina, algum detalhe. Nada parecia familiar. As ruas se misturavam. Um beco levava a outro. Escadas surgiam do nada. E foi assim que cheguei no que parecia ser uma praça. O som vinha forte antes mesmo de eu virar a esquina. Música alta, grave vibrando no chão. Quando fui me aproximando, percebi que tinha muita gente. Mais do que nas ruas de cima. Era como se todo mundo tivesse decidido se reunir ali. E aí eu senti. Os olhares. Vários. Respirei fundo. Meu coração acelerou na hora, mas tentei não deixar isso transparecer. Endireitei os ombros. Não podia mostrar nervosismo. Não podia me intimidar. Continuei andando. Foi quando vi uma roda com vários homens sentados em volta de uma mesa. Algumas mulheres também estavam ali, rindo alto, copos na mão. E então bati o olho nele. O Lobo. Sentado, postura relaxada, copo na mão, olhar atento como se observasse tudo ao redor mesmo fingindo não ligar pra nada. A única solução era ir até ele. Porque eu realmente não fazia ideia de como voltar pra casa. E ou eu falava com ele… ou ia passar a noite inteira entrando em beco, saindo de beco, rodando em círculo até me desesperar de vez. Meu orgulho ficou de lado. Eu me aproximei. — Oi, Lobo. Estou um pouco perdida. Será que você pode me ajudar a chegar em casa? O silêncio que se formou ao redor me deixou ainda mais consciente de onde eu estava. Senti meus ouvidos esquentarem. Ele pousou o copo devagar. E a resposta veio seca: — Tu não saiu sozinha? Então se vira e volta. Foi como levar um tapa na cara. Algumas mulheres começaram a rir. Eu senti meu estômago afundar. A vergonha veio quente, subindo pelo peito até o rosto. Eu não esperava simpatia, mas também não esperava aquilo. Por um segundo, pensei em simplesmente virar as costas e sair andando. Mesmo sem saber pra onde. Eu já estava me preparando mentalmente pra decidir o que fazer quando o rapaz ao lado dele se levantou. — Tá suave, princesa. Fala onde tu mora que eu levo tu lá. Eu senti um alívio enorme. Quase suspirei. Porque eu já estava começando a ficar preocupada de verdade. Já estava cogitando ligar pra minha mãe e admitir que tinha me perdido no primeiro dia. E eu não queria dar esse gostinho. Expliquei rápido a situação. E então ouvi a voz dele atrás de mim. — Tá achando que é passeio turístico agora? Meu corpo inteiro se enrijeceu. Eu não sei explicar por que ele me intimida tanto. Não é só o jeito grosso. É a energia. Ele ocupa espaço. Mesmo parado. Se eu soubesse que ele ia ser um completo i****a e babaca, eu não teria esperado. Tinha deixado o outro rapaz me levar mesmo. Mas agora ele estava ali. Falando baixo demais. Perto demais. Eu mantive a postura. Não ia recuar. Depois de alguns segundos tensos, ele simplesmente disse: — Vem. Eu levo. E começou a subir o morro sem esperar resposta. Eu fiquei parada por um instante. Mas, sinceramente, achei melhor assim. Porque a gente não é amigo. Não tem i********e. E eu prefiro manter distância. Subir aquele morro não foi nada fácil. Eu não estou acostumada com aquilo. Ele ia na frente, passos largos, como se estivesse andando numa rua plana. Eu vinha atrás, tentando não demonstrar cansaço. O silêncio entre nós era pesado. Quando finalmente vi a casa se aproximando, senti um pequeno alívio. Assim que entrei, fui direto pra cozinha. Peguei um copo de água e bebi quase inteiro de uma vez. Foi então que ouvi um barulho alto vindo do quarto dele. Algo caiu. Logo depois, um "ai" abafado. Eu congelei. Fiquei alguns segundos parada no meio da cozinha, o copo ainda na mão. Eu devia ir? Não devia? Ele tinha deixado bem claro que não queria minha ajuda. E, sinceramente, se tivesse se machucado, era problema dele. Dei de ombros e comecei a andar em direção ao meu quarto. Mas quando passei pelo corredor, percebi que a porta dele estava… aberta. E sem querer — ou talvez querendo mais do que eu admito — eu olhei. Ele estava no chão. Com a testa sangrando. O sangue escorria pela lateral do rosto, misturado com suor. Sem pensar, eu corri até ele. — Você tá bem? — perguntei, me abaixando ao lado dele. Antes que eu pudesse tocar no ombro dele, ele me empurrou. Eu caí sentada no chão. — Sai fora, mina! Não te chamei aqui não! Respirei fundo. Minha paciência já estava no limite. — Deixa de ser i****a, cara! Eu tô tentando te ajudar. Qual é o seu problema, hein? Ele passou a mão na testa, olhando pra mim com aquele olhar pesado. — No momento, o meu problema tá sendo você. Então vaza do meu quarto. Aquilo me acertou em cheio. O calor subiu pelo meu peito. — Ai, quer saber? Vai se f0der. Tô tentando te ajudar, seu escroto. Se vira aí sozinho então. Eu levantei, ajeitando a roupa, sentindo o orgulho arder mais do que qualquer vergonha na praça. Ele não respondeu. Ou eu não esperei pra ouvir. Saí do quarto, batendo a porta com força, e fui direto pro meu. Encostei as costas na porta depois de fechar. Meu coração ainda estava acelerado. Eu não sei o que é pior: ele me tratar como se eu fosse um incômodo… ou eu ainda me preocupar quando ele cai e sangra. Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. Essa casa não é minha. Esse lugar não é meu. E ele deixou claro que eu também não sou bem-vinda. Mas uma coisa eu sei: Eu não vou abaixar a cabeça pra ele. Não importa o quanto ele tente me intimidar. Porque se tem uma coisa que eu aprendi na vida… É que ninguém me faz sentir pequena por muito tempo. Fui para o banheiro tomar um banho porque essa subida me deixou toda suada. depois coloquei um pijama e fui me deitar pensando no i****a do Théo. peguei o celular e comecei a olhar os status de amigos em comuns que a gente tinha que também estavam nessa festa e achei estranho porque ele não apareceu em mais nenhuma foto. bloqueei a tela do celular colocando ele para carregar do lado da mesa de cabeceira e me ajeitei na cama pensando em milhares de coisas ao mesmo tempo, finalmente consegui pegar no sono.
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