Bárbara Narrando
Depois que eu cheguei, minha mãe tentou agir como se o tempo não tivesse passado entre a gente. Como se eu ainda fosse a menina que corria pela casa chamando por ela. Não era. Eu sentia isso em cada passo, em cada palavra atravessada.
Ela me apresentou ao Caveira ainda na entrada da casa. Ele estava parado na porta, postura firme, olhar atento, daquele tipo que parece observar tudo ao mesmo tempo.
— Bárbara, esse é o Caveira — minha mãe disse. — Meu companheiro.
Ele caminhou, e veio até mim com calma e falou num tom surpreendentemente tranquilo:
— Fica à vontade. Pode se sentir em casa. Aqui agora também é a sua casa. Depois você vai conhecer meu filho tá bom?
Eu agradeci com um sorriso meio torto, sem graça. Não tinha i********e nenhuma com ele. Pra falar a verdade, nem com a minha mãe eu tinha mais. Ela era minha mãe, mas parecia uma estranha que eu estava tentando reaprender a conhecer.
— Vou te mostrar onde você vai ficar — ela disse.
Concordei com a cabeça e segui atrás dela. Subimos as escadas e, no meio do caminho, eu já sentia a surpresa crescer. Porque olhando a casa de fora, nunca imaginei que por dentro fosse assim. Era enorme. Bonita. Bem cuidada. Nada a ver com o que eu tinha criado na minha cabeça todos esses anos.
— Esse aqui era o quarto de hóspedes, mas agora vai ser o seu — ela explicou, abrindo a porta. — O do final do corredor é o meu, e o da frente é do filho do Caveira… do Lobo.
Balancei a cabeça concordando, absorvendo cada detalhe.
Entrei no quarto. Não tinha nada a ver com o quarto da casa da minha avó, mas ainda assim era lindo. Claro, organizado, espaçoso. Aos poucos, eu ia conseguir deixar com a minha cara. Ou pelo menos tentar.
— Bom, filha, eu preciso ir pra Lanchonete — ela disse. — Se precisar de alguma coisa, me liga, tudo bem?
— Tá bom, mãe. Obrigada.
Ela me deu um beijo rápido e saiu, me deixando sozinha ali. Sentei na cama e peguei o celular. Tentei ligar pro Théo. Uma, duas, três vezes. Só chamava. Nada.
Nós namoramos há dois anos. A família dele tem dinheiro, tradição, sobrenome. A mãe dele nunca gostou de mim, só me tolera por causa dele. A gente estuda na mesma faculdade. Eu faço Administração. Ele, Direito. Tudo já parecia planejado demais pra ele… menos eu.
Deixei o celular de lado e comecei a guardar minhas roupas no closet. Cada peça dobrada era uma lágrima que escorria. Eu nunca imaginei perder minha avó assim. Nunca imaginei que, em dois dias, minha vida viraria esse caos. Era como se eu tivesse perdido tudo ao mesmo tempo.
Quando terminei, já estava escuro. Tomei banho e escolhi uma roupa simples. Agora tinha mais homens na casa. Não dava mais pra andar de pijama curto como antes. Coloquei um shortinho de pano e uma camiseta comprida, fiz um coque no cabelo e respirei fundo. As lágrimas vieram de novo.
Eu não entendia os planos de Deus. Mas queria acreditar que tudo tinha um motivo. Se Ele precisou da minha avó ao lado d’Ele, eu tinha que aceitar. O que me restava eram as lembranças… e a saudade.
Enquanto terminava de me vestir, o celular tocou. Theo.
— Até que enfim, né? — falei assim que atendi. — Tentei falar com você o dia todo, na verdade desde ontem.
Ele se explicou, disse que estava ocupado, que o carregador tinha dado problema. Perguntou se estava tudo bem.
— A minha avó morreu — eu disse, sentindo a voz falhar.
O silêncio do outro lado doeu.
Contei onde eu estava. No morro. Na casa da minha mãe.
— Você podia ter ido pra minha casa — ele respondeu. — Não precisava ir pra esse lugar.
Respirei fundo. Saí do quarto em busca de alguma coisa pra comer. Foi quando percebi a presença de um homem entrando em casa. Ignorei. Fui direto pra cozinha, sentindo passos atrás de mim enquanto Theo falava sobre uma festa.
— você sabe que organizamos isso, já faz um tempo Baby, não dá pra desmarcar agora, e eu tenho que ir.
— Quer saber? Vai lá e se diverte então — falei, desligando o celular.
Quando me virei, dei de cara com ele.
O tal filho do Caveira.
o Lobo.
— Quem é você? — ele perguntou. — E o que tá fazendo na minha casa?
Na hora que eu ia responder quem eu era, a porta atrás da gente se abriu. Minha mãe entrou primeiro, seguida do Caveira. O clima mudou na hora.
— Tô vendo que vocês dois já se conheceram — Caveira disse, num tom calmo demais pra situação.
O rapaz à minha frente olhou direto pro pai, claramente confuso, como se estivesse tentando entender que cena era aquela. Foi ali que caiu a ficha pra mim: ele não fazia ideia de que eu viria pra cá.
— Quem é ela, pai? — ele perguntou. — E o que que ela tá fazendo aqui?
Meu estômago revirou.
— Essa é a minha filha, Lobo — minha mãe respondeu antes do Caveira. — Ela morava com a mãe do pai dela… agora vai morar aqui com a gente.
O silêncio pesou.
— Ih, qual foi? — ele rebateu, dando um passo pro meu lado, quase como se estivesse me marcando território. — Isso aqui virou pousada agora? É isso mesmo?
— Olha a boca, moleque — Caveira falou firme. — Olha o jeito que você fala. Essa casa agora também é da Bárbara. E eu quero que você trate ela bem, tá me ouvindo?
Ele me olhou de cima a baixo, sem expressão.
— Tanto faz.
E saiu, deixando um rastro de tensão atrás dele.
Eu engoli seco e olhei pra minha mãe, que respirou fundo, claramente desconfortável. Meu coração apertou. Eu não queria ser problema. Já estava cansada de ser jogada de um lugar pro outro.
— Eu não quero trazer confusão — falei, a voz baixa. — Se eu ficar aqui for um problema pra vocês, eu posso ir pra outro lugar.
Caveira balançou a cabeça, negando de imediato.
— Nada disso. Essa casa agora também é sua. E aqui a gente é família. Família se apoia. Mais cedo ou mais tarde, o Lobo vai entender. Fica tranquila.
Assenti, mesmo sem me sentir tranquila coisa nenhuma.
— Eu trouxe um lanche pra você, filha — minha mãe disse, tentando mudar o clima. — Lá da lanchonete.
— Tá bom, mãe. Obrigada.
Criei coragem.
— Caveira… amanhã meu namorado pode vir aqui? Tudo bem pra você?
Ele me olhou atento, avaliando.
— Tudo bem. Só me avisa pra eu liberar lá na barreira. Esse cara é de confiança, né? Não é envolvido com nada?
— Não. Ele é da minha faculdade. A gente namora há dois anos. Filho do Pedro de Alcântara, aquele advogado famoso.
— Tô ligado — ele respondeu, simples. — Amanhã, quando ele chegar, você me dá um salve.
Ele pegou um lanche.
— Agora eu vou comer porque tô cansado.
Saiu, subindo as escadas. Minha mãe veio até mim, beijou o topo da minha cabeça.
— Come, tá bom? Vou tomar um banho. Qualquer coisa, me chama.
Ela subiu logo atrás dele. Fiquei sozinha na cozinha. Me sentei à mesa, larguei o lanche de lado e peguei o celular. Rolei o i********: sem nem prestar atenção em nada.
A casa era grande. Bonita. Mas naquele momento, parecia enorme demais pra mim. E, pela primeira vez, eu tive a sensação de que aquele morro ia mudar minha vida de um jeito que eu ainda não estava pronta pra enfrentar.
Apareceu no meu feed uma foto do Theo ja pronto pra tal festa, e eu bloqueei a tela do celular deixando o celular de lado e voltei a comer.