BÁRBARA NARRANDO
Eu tava terminando de comer quando ouvi barulho na escada. Passo pesado, firme, sem pressa. Nem precisei olhar pra saber quem era. Logo o tal do Lobo apareceu na cozinha.
De bermuda, sem camiseta, o corpo todo marcado por tatuagem, musculo e cicatriz. O cabelo ainda meio bagunçado, como se tivesse acabado de sair do banho. Eu virei o rosto na mesma hora. Não por vergonha exatamente… mas porque olhar pra ele parecia errado. Invadir demais.
Ele abriu a geladeira, pegou o refrigerante. Depois abriu o armário, pegou um copo e sentou bem na minha frente. Como se a mesa fosse território dele e eu só estivesse ocupando temporariamente.
Pegou o lanche que tava dentro da sacola, embrulhado no papel. O cheiro do perfume dele invadiu meu nariz na hora. Não era doce, nem enjoativo. Era forte. Masculino. Misturado com sabonete e alguma coisa que lembrava madeira.
Respirei fundo sem querer.
Eu até pensei em dizer alguma coisa. Queria me desculpar por estar ali, na casa dele, ocupando espaço, respirando o mesmo ar. Mas a verdade é que eu não tenho pra onde ir. Minha avó morreu, eu fui expulsa da casa que sempre morei, e agora eu tô aqui. No meio desse mundo que não é meu.
Levantei, peguei meu prato e o copo que eu tava usando, fui até a pia e lavei. O silêncio entre a gente era quase palpável. Só o barulho da água, do papel do lanche sendo aberto, do gás do refrigerante.
Sequei as mãos no pano de prato e me virei em direção à mesa pra pegar meu celular e subir pro quarto.
Foi aí que aconteceu.
Meu pé enroscou na pørra do tapete.
Eu nem vi direito, só senti o corpo indo pra frente, o chão sumindo, e no segundo seguinte eu tava praticamente caindo em cima do Lobo. Ele me segurou instintivamente, mas o movimento fez o copo virar.
O refrigerante espalhou pela mesa. Molhou o lanche dele. O celular. O rádio.
— Ai meu Deus do céu, me perdoa, Lobo! — eu falei já levantando, pegando o copo que tava rolando.
Ele levantou na hora, o maxilar travado.
— Püta que pariu, garota. Por que tu não presta atenção? Olha a merda que tu fez.
Eu senti o sangue subir.
— Você não viu que foi um acidente? Acha que eu ia me jogar pra cima de você de propósito?
— Vai saber. Como é que tropeça numa pørra de um tapete desse tamanho?
Eu virei pra ele inteira.
— Você acha mesmo que eu ia fazer isso?
Antes que ele respondesse, minha mãe apareceu na cozinha, toda arrumada.
— O que que tá acontecendo aqui, gente?
— Eu caí em cima dele, mãe. Tropecei no tapete e o copo virou. Molhou o lanche, o celular, o rádio… tudo.
Ela me olhou daquele jeito que mistura preocupação com julgamento.
— Garota desastrada. Tem que prestar atenção nas paradas. Se eu não tô aqui numa dessa, tu lasca a cabeça na mesa, e você se machuca.
— Já entendi, cara. Não precisa ficar falando desse jeito não. Desculpa. — falei encarando ele.
Ele nem respondeu. Pegou o rádio, o celular, saiu dali como se eu fosse invisível.
Minha mãe suspirou.
— Tá tudo bem, minha filha. Lobo só tá um pouco nervoso. Ele anda passando por uns problemas. Não fica chateada, tá bom? Ele é uma boa pessoa. Só não tá num bom momento.
Eu ri sem humor.
— Eu não tô num bom momento, mãe. Acabei de perder a minha avó. Ele acha o quê? Que eu ia fazer isso de propósito?
Peguei um pano e comecei a limpar a mesa, ainda tremendo.
— Eu sei, minha filha. Só tô falando pra você não tirar conclusões precipitadas. A gente vai morar juntos agora. Eu não quero que essa primeira impressão prejudique seu julgamento. Ele é uma ótima pessoa.
Claro.
Uma ótima pessoa que fala comigo como se eu fosse um problema.
— Claro, mãe.
Foi quando vi o Caveira vindo lá atrás. Alto, sério, aquele jeito que parece sempre analisar tudo.
Não tenho nada contra o estilo de vida que eles escolheram. Mas me dizer que ele é uma boa pessoa? Minha mãe tá pegando pesado.
— Eu vou precisar sair, tá? Eu e o Caveira vamos pra São Paulo. Ele vai resolver uns assuntos lá e eu vou aproveitar pra ir no Mercadão.
— Tudo bem, mãe. Vão com Deus. Cuidado na estrada.
— Bárbara, eu não esqueci do pedido que você me fez não — Caveira falou. — Vou avisar o Lobo pra liberar a entrada do seu namorado amanhã.
Eu confirmei com a cabeça.
— Boa noite. Vão com Deus.
Minha mãe beijou minha cabeça e saiu com ele.
O silêncio voltou.
Subi pro quarto, liguei o ar condicionado e a televisão só pra ter barulho. Me joguei na cama, me cobri inteira, como se o mundo lá fora não existisse.
Abri o i********:.
Erro.
Status da faculdade. Risadas. Copos. Música alta. A festa que o Theo disse que nem ia ficar muito.
Comecei a olhar sem muito interesse até que uma foto me fez congelar.
Lá no fundo, num canto meio escuro, alguém sentado. Eu aumentei o brilho da tela.
Era ele.
Printei. Fui no perfil dele comparar a roupa. Ou tinha outro garoto naquela festa usando exatamente a mesma roupa que ele… ou era ele.
E tinha uma menina praticamente jogada nos braços dele.
Ela tava sentada do lado, mas o corpo dela tava por cima das pernas dele, quase deitada. i********e demais pra quem namora.
Na hora eu comecei a tremer. Meu peito apertou. A respiração ficou curta.
Enviei a foto pra ele.
—Que pörra é essa? Quem é essa menina? Você tá de s*******m comigo?
As mensagens só davam uma setinha. Nem enviava.
Liguei os dados. Nada.
Mandei mensagem pra Lexi.
Perguntei se ela tava na festa.
— Não, tô em casa estudando.
Enviei o print.
— Você viu isso?
Ela demorou um pouco.
— Você viu a foto que ele postou?
— Que foto?
Ela mandou o print.
Era uma foto dele do lado dessa menina.
Nos melhores amigos.
Eu abri o i********: na mesma hora e fui procurar.
Nada.
Nada.
Nada.
Foi aí que eu entendi.
Eu não estava nos melhores amigos dele.
Senti o estômago virar.
Eu tremia parecendo um pinscher raivoso. Ódio. Humilhação. Tristeza. Tudo misturado.
Esse filho da püta vai me pagar.
Se ele acha que vai me fazer de trouxa, ele tá muito enganado.
Falei pra Lexi deixar pra lá. Que ela podia voltar a estudar. Que amanhã eu resolvia isso.
— Bárbara, mantém a calma.
Calma é o cäralho.
Bloqueei o celular.
Fiquei olhando pro teto.
Nada de sono.
Levantei. Fui até o espelho. Me encarei.
Olhos vermelhos. Nariz levemente inchado.
— Você não vai chorar por causa de macho — falei pra mim mesma.
Troquei de roupa. Coloquei um short jeans, uma blusa preta justa. Prendi o cabelo num r**o alto.
Vou sair. Conhecer esse morro. Porque se eu ficar aqui eu vou surtar.