Capítulo 06

1447 Palavras
LOBO NARRANDO Eu sabia que meu pai não ia facilitar a minha vida. Ele nunca facilitou. Desde moleque, aprendi que comigo era sempre no modo difícil. Enquanto os outros ganhavam conselho, eu ganhava teste. Enquanto os outros recebiam confiança, eu precisava provar. Mas trazer mais uma pessoa pra dentro de casa, assim, do nada? Ainda mais uma estranha? Foi o limite. Eu já tava com a cabeça cheia por causa do posto de fiel. Meu pai vinha pressionando há semanas. Dizia que tava na hora de eu escolher alguém de confiança pra assumir certas responsabilidades. Alguém que fosse meu braço direito. Só que confiança, naquele mundo, não se arruma em esquina. E ele sabia disso. Mesmo assim, continuava me cobrando como se fosse simples. E no meio desse caos, ele resolve anunciar, no jantar, como se estivesse falando da previsão do tempo: — A filha da Jaqueline vai morar com a gente. Simples assim. Eu fiquei parado, mastigando devagar, esperando ele completar. Esperando explicar. Esperando qualquer coisa que justificasse aquilo. Nada. A Jaqueline, parada do lado dele, só abaixou o olhar e mexeu nos dedos. Engraçado que ela nunca mencionou essa tal filha. Nunca ouvi falar. Nem foto na sala, nem história de infância, nem ligação no aniversário. De repente, a menina aparece com mala, olhar atento e ar de quem não pertence — mas mesmo assim entra na minha casa como se fosse direito dela. E eu? Eu que me ajuste. Eu que aceite. Eu que engula seco e diga amém. Só que eu não sou esse tipo de filho. Desde o primeiro segundo que vi a tal Mina, eu soube que aquilo ia dar problema. Não sei explicar direito. Foi o jeito que ela me encarou. Não abaixou o olhar. Não se intimidou. Tinha algo ali — uma mistura de coragem e imprudência. Mandona. Desastrada. E com aquele ar de quem acha que o mundo vai se dobrar. Eu já tava vendo o futuro: conflito. Antes que eu falasse algo que meu pai não fosse gostar, antes que a tensão virasse discussão, eu levantei da mesa e meti o pé de casa. Melhor sair do que explodir ali dentro. Desci o morro sem olhar pra trás. A noite tava quente, abafada. O som já ecoava da praça antes mesmo de eu virar a esquina. Pagofunk rolando solto. A quebrada viva, pulsando, do jeito que eu gosto. Luz colorida piscando, grave batendo no peito, gente rindo alto. Ali eu respiro. Entrei direto na roda dos moleques. Vini já tava lá, com um combo aberto e duas garrafas suando na mesa. — Aí, Lobo! Sumido, carälho! Achei que não fosse vir mais.— ele gritou, batendo na minha mão. Sentei. Peguei uma gelada. Dei o primeiro gole longo, deixando o amargo descer devagar. Aquilo sim fazia sentido. Ali eu sabia meu lugar. Em questão de minutos, a mesa já tava cheia. Mulher encostando ao nosso redor, risada fácil, perfume doce demais misturado com cheiro de maconha. Dinheiro espalhado. Copo batendo. Gente usando droga. Ali tinha de tudo. Eu não curto essas paradas pesadas. Nunca curti. Vejo n**o perder a mente por muito menos. Eu fumo meu beck, tranquilo, pra acalmar o pensamento. Mas pø, bala, essas coisas… não é pra mim. Minha cabeça já é acelerada demais pra eu ainda brincar com fogo. Tava suave. Bebendo. Rindo. Tentando esquecer que tinha uma desconhecida dormindo no quarto do corredor. Já tava até mais pra lá do que pra cá Foi quando o Vini deu um cutucão no meu braço. — Aí, aí… quem é aquela delicinha descendo o morro ali? Todo mundo virou o pescoço. Eu levantei a cabeça sem pressa. E vi. Ela. Descendo o morro como se estivesse perdida, mas tentando fingir que não estava. Roupa simples, cabelo solto dançando com o vento, passo firme demais pra quem não conhece o terreno. O olhar dela varria tudo — atento, curioso. Meu maxilar travou. Ela não devia estar ali. Continuei bebendo, como se não fosse nada comigo. Não dei moral. Mas por dentro, eu já tava sentindo aquela irritação subir. Quando ela passou na frente da praça, os comentários começaram. — Ô morena! — Perdeu o rumo, linda? — Ca.ralho, acho que foi amor a primeira vista. Alguns só olharam. Outros mexeram. Normal. A praça não perdoa quem não conhece as regras. Ela me viu. Mesmo de longe, eu percebi. E ao invés de atravessar a rua ou fingir que não me conhecia… ela veio na minha direção. Sustentei o olhar. Eu não abaixo. Nunca. Ela parou na frente da mesa. O som alto, as risadas, a galera ao redor. E mesmo assim, falou firme: — Oi, Lobo. Estou um pouco perdida. Será que você pode me ajudar a chegar em casa? Silêncio. Até as meninas que estavam sentadas no colo dos caras pararam pra ouvir. Eu deixei o copo encostar devagar na mesa. — Tu não saiu sozinha? Então se vira e volta. Minha voz saiu fria. Sem alteração. Sem emoção. Algumas das garotas começaram a rir. Uma delas cochichou algo no ouvido do cara ao lado, apontando pra Mina. O Vini me olhou com a testa franzida. — Tá suave, princesa. Fala onde tu mora que eu levo tu lá — ele disse, já se levantando. Eu não gostei da forma como ele falou “princesa”. Ela respirou fundo. E foi aí que soltou a bomba. — Eu sou a filha da Jaqueline. Minha mãe é casada com o pai desse i****a aí. Então… eu não sei exatamente onde eu moro. O mundo pareceu desacelerar por um segundo. Os olhares vieram todos pra mim. Idiota. Esse apelido ecoou na minha cabeça como provocação. Vini arregalou os olhos. — Cäralho… sério? Ela deu de ombros. — Pode deixar que eu levo você lá — ele disse, colocando a mão nas costas dela. E aí foi como se alguém tivesse jogado gasolina dentro de mim e riscado o fósforo. Não era ciúmes. Eu não tinha motivo pra isso. Era outra coisa. Ela não sabia onde tava pisando. Não entendia que ali cada passo tinha peso. Que qualquer aproximação podia virar fofoca. Que qualquer gesto podia virar problema. E eu também não queria o meu pai na minha oreia depois. E o Vini também não tinha noção do que tava fazendo. Eu virei o copo todo de uma vez. A cerveja desceu queimando. Levantei devagar, passando a mão na boca. Ri. Mas aquele riso não tinha nada de leve. Fui atrás deles. Eles já estavam quase saindo da praça quando eu alcancei. — Tá achando que é passeio turístico agora? — falei, segurando o braço dela antes que ela desse mais um passo. Ela virou o rosto pra mim. E, de novo, não abaixou o olhar. — Eu só pedi ajuda. — E eu já respondi. Vini levantou as mãos. — Qual foi, Lobo? Tá tratando a mina assim por quê? Eu ignorei ele. — Você não tem noção de onde ta se metendo — falei pra ela, baixo o suficiente pra só ela ouvir. — Isso aqui não é condomínio fechado, que vocêfica desfilandopor aí uma hora dessa. Ela puxou o braço da minha mão. — Eu não sou criança, e já entendi que você é o maior babaca, então vou ficar bem longe de você. Logo vou embora da sua casa, e você volta pra sua vidinha. Aquilo me pegou. Porque não tinha medo na voz dela. Tinha desafio. E desafio sempre foi meu ponto fraco. Aproximei mais um passo. Ficamos perto demais. Eu conseguia sentir o perfume dela misturado com o cheiro da noite quente. — Então aprende rápido — eu disse. — Porque aqui ninguém vai pegar leve contigo só porque você é “a filha da Jaqueline”. Ela engoliu seco. Mas não recuou. Vini olhava de um pra outro, claramente perdido. Eu passei a mão pelo cabelo, respirando fundo. Se eu continuasse ali, ia falar coisa demais. — Vem. Eu levo. Ela arqueou a sobrancelha. — Achei que eu tinha que me virar. — Mudei de ideia. Sem esperar resposta, comecei a subir o morro. Depois de alguns segundos, ouvi os passos dela atrás de mim. O caminho foi em silêncio. Só o som distante do pagofunk ficando pra trás. Eu não sabia o que me irritava mais: o fato dela ter aparecido na minha vida sem aviso… ou o fato de eu já estar preocupado com ela andando sozinha por aí. E isso era o que mais me deixava bolado. Porque perder o controle da situação sempre foi meu maior medo. E aquela garota… Com poucad horas na minha casa… Já tava bagunçando demais o meu mundo caótico.
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