Retrato

1981 Palavras
{P.O.V × Nate River} A recuperação de Mello estava indo bem, a queimadura não doía tanto como nos primeiros dias, e ele estava tendo menos pesadelos com o acontecido. Sobre a nossa relação, ainda estava um pouco fria visto que Mello só dizia apenas o básico para mim, eu ainda não tinha dado continuidade com a investigação e sequer perguntava sobre o acidente. De certa forma, eu me sentia culpado pelo acontecido e não conseguia aceitar a ideia de quase ter perdido ele, logo no meio de uma discussão i****a que acabei por deixar fluir. Mas eu continuava sem falar sobre a briga, a perturbação de não ter resolvido aquilo ainda me tirava o sono, como agora que me encontro deitado na cama ao lado de Mello, sem nenhum resquício de sono. Me lembrava muito bem que quando essas crises de insônia vinham, ele costumava me aninhar em seus braços e logo eu dormia, pois a segurança e a calma que seus braços me traziam, eram surreais. No entanto ele não podia fazer isso por mim agora, pois ele já dormia profundamente por conta dos remédios, e mesmo que ele pudesse eu imagino que ele não faria. Desde o momento em que ele acordou do acidente, eu tenho evitado olhar para seu rosto, pois todas as vezes que olho para as ataduras eu sinto aquela culpa descontrolada em cima de mim, sugando minha energia. Apesar de Lawliet ter chamado Watari para cuidar de Mihael, eu insisti para que ele desse mais atenção a Misa e deixasse que eu cuidasse dele, em uma tentativa de tentar me redimir pelos meus pecados. Matt aparecia no dormitório às vezes para ver como Mello estava, mas a relação entre eles não parecia nada boa também, mesmo depois da pequena confraternização que fizeram. "Não sei por qual motivo, você evita tocar em mim na frente dos outros." Lembrei de suas palavras no dia da festa, a última coisa que eu gostaria era magoá-lo e mesmo assim, com um simples gesto eu parecia ter conseguido. Não me sentia no direito de tocá-lo, o ser humano tem tendência a se torturar e ser muito duro consigo mesmo, e no momento era exatamente o que eu fazia, me punia mesmo não sendo voluntariamente. Logo que a manhã chegou, eu me levantei da cama e depois de me arrumar me dei conta de que eu deveria começar com os interrogatórios, para continuar as investigações. Todos já sabiam o que tinha acontecido, Misa havia sido chantageada uma noite antes do incêndio, o homem disse que deixaria ela em paz se ela desse uma quantia de dinheiro. Por estar próxima de Matsuda naquela mesma semana, a Amane decidiu sair com ele na noite anterior ao acidente, e foi ao banco para pegar uma maleta com dinheiro. Matsuda não avisou a ninguém sobre o dinheiro pois imaginava que aquilo era para as roupas de Misa, visto que a garota costumava comprar muitas e geralmente de marcas caras. Quando ela voltou ao dormitório naquela noite, escondeu a maleta embaixo da cama e esperou até que o assassino mandasse a mensagem a ela, para que então a mesma saísse. Por sorte ou não, Mello que estava na cozinha decidiu seguir a loira até seu destino, sendo golpeado assim que chegou ao local e depois de algum tempo inconsciente ele acordou. Porém, o homem que mandava mensagens para a garota não podia ser rastreado por seu número, pois o endereço de IP dava para um outro país e todos nós sabíamos que ele permanecia no Japão. Nós precisávamos de um rosto, um retrato falado seria um grande impulso para o sucesso da investigação, a única coisa que eu esperava era que pelo menos um deles se lembrasse do homem. — Misa, você consegue se lembrar do homem que a atacou? — Perguntei. Estávamos na sala de investigações, com o desenhista técnico, Light e Lawliet, que esperavam um pouco curiosos sobre o rosto do suposto assassino. — Eu me lembro muito pouco dele, eu estava muito assustada. — Falou, sendo perceptível seu desconforto. — Tente se lembrar, nós precisamos disso. — Pedi. — Ele tinha olhos intensos, amendoados e confiantes, o nariz era fino e os lábios um pouco finos, ele usava um terno preto acompanhado de uma gravata azul marinho, e também usava óculos de armação preta. — Relatou, enquanto o desenhista riscava o papel. — Isso é tudo? — Voltei a perguntar. — Sim, é tudo que me lembro. — Ela disse, abaixando o olhar. — Obrigado, e desculpe por te fazer lembrar. — Falei, e ela acenou com a cabeça. Com o desenho parecendo estar inacabado, subi junto com o desenhista para o dormitório onde se encontrava Mello, que estava sentado junto à mesa comendo chocolate. — Mello, o médico disse para evitar os doces. — Lembrei, ao perceber a barra em sua mão, aquilo atrapalhava a cicatrização. — Mihael, você se lembra do homem que colocou fogo no depósito? — Perguntei, e me sentei junto com o desenhista técnico a mesa, servindo um copo de água para ele. — Sim, eu lembro. — Ele respondeu, olhando para a mesa. — Pode me contar sobre sua aparência? — O desenhista perguntou. — Sim, ele era alto, tinha cabelos escuros e longos que iam até os ombros, os olhos eram escuros, ele possuía um queixo fino e o maxilar marcado, a estrutura do seu corpo era forte, usava óculos e roupa social. — Contou, olhando para a mesa como se o rosto dele estivesse estampado no vidro. — Eu acho que temos o rosto dele completo. — O desenhista disse, virando a folha para vermos. O retrato mostrava nitidamente um rosto do qual eu desconhecia, com detalhes parecendo muito real e Mello olhava para o retrato como se tivesse visto uma assombração. Depois que acabamos com aquilo, pedi para que ele deixasse o retrato comigo e então o desenhista foi embora, ainda sentado na mesa fitava Mihael que parecia desconfortável. — Você está bem? — Perguntei. — Sim. — Ele respondeu simples, mesmo eu sabendo que era mentira. Involuntariamente cheguei mais perto, e quando fui passar a mão em seu rosto eu me lembrei da cena da briga e logo em seguida dele no hospital, hesitei novamente em tocar em seu rosto e ele me olhou por um momento, abaixou a cabeça e a balançou negativamente, como se tivesse decepcionado com algo. — Vou dar uma volta pelo prédio. — Anunciou, e levantou da cadeira indo em direção a porta. Assim que ele saiu eu respirei fundo, já não sabia mais o que fazer sobre aquilo e a distância que isso estava gerando entre nós, me assustava mais que tudo. — Near? — Ouvi uma voz do outro lado porta. — Entra. — Pedi, identificando que a voz era de L. Ele entrou no dormitório e se sentou em uma poltrona que estava na sala, eu me sentei no tapete montando um quebra cabeça em branco. — Você e Mello brigaram novamente? Ele parecia pensativo quando passou por mim. — Não, ele disse que iria dar uma volta pelo prédio. — Respondi, sem olhar para ele. — Vocês se resolveram? — Indagou, olhando diretamente para mim. — Não consigo resolver, não consigo sequer olhar ou encostar nele. — Falei, ainda encaixando as peças. — Por que? — Culpa, me sinto m*l pelo o que eu disse para ele, e pior ainda por vê-lo no hospital, aquelas ataduras me dão agonia quando me lembro do corpo dele caído no dia do incêndio, ele teve alguns pesadelos no começo e eu fico me perguntando sobre os momentos de terror que ele viveu ali. — Desabafei. — Não foi culpa sua, e eu tenho certeza que Mello não está te culpando pela atitude imprudente que ele tomou. — Deduziu L, sentado na posição de sempre. — De qualquer forma, eu não consigo resolver isso, não consigo decifrar o que passa na cabeça dele. — Mello é inseguro sobre você. — Ele disse, me chamando a atenção. — Como assim? — Questionei, fitando L. — Mihael seria o escolhido para ser o meu primeiro sucessor, mas quando você chegou ele acabou por perder este posto, desde então a insegurança dele aumenta. — Explicou, desviando o olhar enquanto falava. — É bobo não é? Mesmo que acontecesse algo a você, Quillsh deixaria que nós dois ficássemos o posto. — Falei, chamando Watari por seu nome. — Faz tempo que não ouço o nome de Watari. — Comentou, e eu apenas afirmei com a cabeça. — Sobre isso, acho que Matt saiba mais do que eu, entretanto, se você não o toca ou evita olhar em seu rosto, ele pode se sentir rejeitado por você. — Concluiu, me fazendo ficar surpreso. Ele sabe… Pensei. O silêncio se fez presente, e Lawliet parecia pensativo e talvez um pouco incomodado com algo, com o olhar fixo na janela atrás de mim e sua cabeça parecia estar dando voltas. — Você também não parece bem. — Observei. — Não é nada demais, eu estou bem. — Mentiu. — Lawli… — Chamei ele por seu apelido. — Você sabe que sempre pode falar comigo, não é? — Continuei. — Não se preocupe, eu sei disso. — Falou calmamente, se levantando e caminhando em direção a porta. — Lawli, desde quando você sabe? — Perguntei, e ele parou a centímetros da porta. — Conheço vocês desde pequeno, foi fácil para mim deduzir o que estava acontecendo e eu fico feliz pelos dois. Converse com ele, vocês precisam continuar a investigação. — Ele disse, ainda de costas e então saiu. Quando a porta se fechou eu sorri, sentindo meu coração aquecer com a aceitação dele por nós dois, e também o alívio era perceptível dentro de mim, me deixando mais tranquilo para conversar com Mello. Algumas horas depois, Mihael chegou ao dormitório indo direto para o quarto, e se deitou na cama parecendo um pouco cansado. — Vou fazer a mesa para jantarmos, e pedir para que Watari troque as ataduras. — Falei, indo até a mesa e colocando os pratos, talheres e copos sobre a mesma, quando retornei ao quarto para chamá-lo, Mello estava tirando as faixas de seu rosto. — Mihael, você não pod… — Tentei falar, subindo na cama, mas não terminei a frase ao ver seu olhar. — Já cicatrizou faz tempo. — Confessou. — Então, por qual motivo você ainda usa as faixas? — Perguntei, olhando para a cicatriz que havia ficado logo abaixo de seu olho direito. Não obtendo resposta, levantei minhas mãos para colocar em seu rosto, mas novamente travei meus braços a centímetros dele, e então ele abaixou o olhar junto com a cabeça. "Mello é inseguro sobre você." Lembrei das palavras de Lawliet, e então coloquei minhas mãos em seu rosto no mesmo momento, passando os dedos levemente por sua pele fazendo ele olhar para mim com certa surpresa no olhar. — Parece um daqueles personagens mafiosos dos filmes que você gosta. — Comentei, olhando para a cicatriz enquanto sorria, ele então sorriu de volta, e me beijou. À medida que o beijo se intensificava eu sentia um grande frio na barriga, não demorou muito para que ele me fizesse sentir arrepios e o calor aumentasse. Mello passou as mãos pelo meu corpo ainda por cima da roupa me fazendo arfar, subi em cima dele tomando o controle do beijo, enquanto suas mãos me puxavam minha cintura para mais perto, ele então me deitou na cama, ficando por cima. — Eu ainda não esqueci do nosso jogo. — Ele disse, ofegante pelo beijo, se referindo ao desafio feito na Wammy's House. — Eu não me importo em ceder. — Falei, desejando mais e mais seus lábios. — Ótimo, pois eu também estou no meu limite. — Confessou e selou nossos lábios novamente, intensificando cada vez mais o beijo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR