— Como desejar, Annabella. Mas lembre-se: o calor que ele oferece é uma prisão de instintos. O meu frio... o meu frio é o único lugar onde você pode ser verdadeiramente livre.
Com um movimento fluido, Luke desapareceu na noite, saltando para a escuridão oposta à de Dylan.
Annabella fica sozinha no quarto, mas a atmosfera mudou para sempre. O cheiro de Luke (sândalo e neve) luta contra o cheiro de Dylan (pinheiro e terra) que subiu pela janela.
O toque de Luke deixou algo nela. Ela sente que a "música" que ele mencionou agora toca nos dois sentidos.
O silêncio que se seguiu à partida de Luke foi quase ensurdecedor. Annabella fechou a trava da janela com as mãos ainda tremendo levemente, sentindo o contraste térmico entre o vidro gelado e o calor febril que o pingente de Dylan emanava contra seu peito. Ela não olhou para baixo; sabia que os olhos âmbar de Dylan ainda estavam fixos em sua silhueta, mas ela não tinha forças para mais um confronto naquela noite.
Ela se jogou na cama, puxando o edredom até o queixo. O cheiro de Luke — aquele perfume de sândalo e neve fresca — ainda pairava no travesseiro, misturando-se à adrenalina que se recusava a baixar. "Amanhã", ela pensou, fechando os olhos com força, "amanhã as leis da física e da faculdade terão que voltar ao normal".
A luz cinzenta da manhã de Silver Falls entrou pela janela, trazendo consigo a realidade implacável de uma terça-feira. Annabella passou o dobro do tempo se arrumando, tentando esconder as olheiras e a confusão mental sob uma camada de café forte e determinação.
Ao chegar ao campus, o ar parecia carregado. Ela caminhou pelos corredores de pedra da faculdade de Direito, sentindo o peso de cada olhar. No pátio central, o grupo de elite dos Foster estava lá, como sempre: Mason, Zoe e os outros, rindo de algo privado, parecendo mais intocáveis do que nunca.
Annabella apertou as alças da mochila, preparando o espírito para um comentário sarcástico ou uma aproximação invasiva de Luke. Ela esperava que ele a cercasse, que mencionasse o beijo ou que usasse a conexão mental para provocá-la.
Luke estava encostado em uma pilastra perto da entrada da sala de aula. Ele vestia um suéter de gola alta cinza que destacava a palidez aristocrática de seu rosto. Quando Annabella se aproximou, o coração dela deu um solavanco, traindo a calma que ela tentava simular.
Annabella parou a um metro dele, sustentando o olhar. Ela estava pronta para a "música" que ele dissera ouvir, pronta para o desafio.
Luke, no entanto, apenas inclinou levemente a cabeça. Não havia o sorriso "engraçadinho" da noite anterior, nem a intensidade predatória do quarto. Seus olhos eram duas esferas de vidro polido, impenetráveis.
— Bom dia, Annabella — ele disse, a voz soando clara, educada e absolutamente neutra, como se estivesse cumprimentando qualquer outra colega de turma.
Sem esperar por uma resposta, ele se afastou e entrou na sala, deixando-a parada no corredor.
Luke sabe que a indiferença machuca mais do que o confronto. Ao agir como se o beijo e a invasão ao quarto não tivessem significado nada, ele força Annabella a duvidar de suas próprias percepções.
Em um ambiente público, ele volta a ser o herdeiro perfeito dos Foster. Ele não vai dar munição para os outros (ou para o Xerife) desconfiarem da ligação deles.
que estava preparada para uma batalha, agora se sente em um vácuo. O "gelo" de Luke voltou a ser uma barreira, e isso a deixa ainda mais intrigada (e irritada).
O ambiente da faculdade de Direito em Silver Falls nunca pareceu tão claustrofóbico. Entre o som das canetas rabiscando o papel e o murmúrio dos estudantes, Annabella sentia o peso de um segredo que queimava mais que o café da manhã.
Na sala de aula, o comportamento de Luke era impecável. Ele estava sentado três fileiras à frente de Annabella, a postura ereta, focado inteiramente na palestra sobre Direito Civil. Ele não virou o rosto, não inclinou a cabeça e, se estava ouvindo a "música" dos pensamentos dela, era um mestre em disfarçar.
Annabella tentava se concentrar nas anotações, mas seus olhos sempre fugiam para a nuca de Luke. O contraste entre o homem que invadiu seu quarto e o estudante brilhante que debatia cláusulas contratuais era desconcertante.
Quando o sino finalmente tocou, ecoando pelos corredores de pedra, o feitiço de silêncio se quebrou.
O refeitório era o coração das divisões sociais da cidade. As mesas eram como fronteiras geográficas que ninguém ousava cruzar sem um convite silencioso.
Annabella sentou-se com Evelyn, Leo e Scarlett. Eles discutiam sobre o próximo seminário, alheios à tensão sobrenatural que saturava o ar.
No canto mais afastado e frio, os Foster dominavam o espaço com sua beleza estática e aterrorizante.
Embora Luke estivesse mantendo a máscara de indiferença, seus instintos eram mais fortes que sua vontade. Entre um gole de água e uma conversa baixa com Liam, ele permitiu que seus olhos deslizassem pela multidão até pararem em Annabella. Foi um segundo apenas — um olhar carregado de uma fome que não era de sangue, mas de algo muito mais complexo.
Zoe não perdeu o movimento. Ela inclinou-se para a frente, o cabelo escuro caindo sobre o ombro como uma cascata de ônix, e sua voz saiu num sussurro perigoso que apenas os ouvidos deles poderiam captar.
— Você está brincando com fogo, Luke — Zoe sibilou, os olhos faiscando de advertência. — Primeiro o clube, depois o quarto dela... você acha que o Conselho não está sentindo a sua distração?
— Ela é apenas uma humana, Luke — Mason acrescentou, a voz como o rolar de pedras pesadas. Ele nem olhou para a mesa de Annabella, mantendo o desdém habitual. — Você não pode se envolver com ela. O sangue dela é doce, mas o problema que ela traz é amargo. Se você continuar com isso, nós seremos obrigados a intervir. E você sabe que eu não tenho a sua... paciência.
Annabella, do outro lado do salão, sentia o pingente de Dylan aquecer levemente, um sinal de que ele estava perdendo a paciência com a proximidade dos Foster.
Ele agora está sob pressão de todos os lados: do grupo dele, que vê Annabella como uma ameaça à discrição da espécie, e de Dylan, que o vê como um predador.
Ela está tentando agir normalmente com Leo e Scarlett, mas a sensação do beijo de ontem à noite ainda parece uma marca invisível em seus lábios.
A ameaça de Mason é real. Ele não se importa com a "música" que Luke ouve; ele só se importa em manter a espécie segura e alimentada.
A atmosfera no refeitório de Silver Falls é uma fachada de normalidade, mas sob a superfície, as placas tectônicas do mundo sobrenatural estão colidindo. Enquanto Annabella tenta manter uma conversa trivial sobre seminários com Leo e Scarlett, a tensão na mesa dos Foster atinge um ponto de ebulição silencioso.
Liam, que costuma ser o mais diplomático e reservado do grupo, inclina-se para a frente. Sua voz é um sussurro gélido que não carrega emoção, apenas uma lógica implacável.