Mason recuou um passo, farejando o ar com nojo.
— Ela cheira a cachorro — ele cuspiu a palavra, olhando para Annabella com desprezo. — Você a levou para a reserva, Luke? Você permitiu que o cheiro daqueles selvagens se misturasse ao nosso?
O silêncio que se seguiu à ordem de Luke foi cortante. Mason e Zoe recuaram, mas os olhares que lançaram a Annabella não eram de respeito, eram de fome adiada. Luke permaneceu parado entre eles e ela, uma barreira de gelo intransponível que parecia emitir uma aura de autoridade absoluta.
Annabella, no entanto, não sentia a gratidão que uma "donzela em perigo" deveria sentir. Seus olhos de estudante de Direito observavam a cena como uma análise de custódia.
Luke se virou para ela. A expressão dele suavizou-se instantaneamente, voltando àquela máscara de polidez aristocrática, mas os olhos ainda guardavam um resquício da frieza que usara com Mason.
Ele estendeu a mão para guiá-la de volta ao reservado, mas Annabella não a pegou imediatamente. Ela olhou para a mão dele — pálida, perfeita e imóvel — e depois para os outros vampiros que ainda a vigiavam das sombras do clube.
— Você está segura agora, Annabella — Luke disse, a voz baixa e melódica. — Eles não ousariam desobedecer a uma ordem direta minha.
— "Segura", Luke? — ela sussurrou, sentindo o calor do pingente de Dylan pulsar contra seu peito, como se o objeto estivesse tentando manter seu coração batendo no ritmo certo. — Você me defendeu como se eu fosse um ser humano... ou como se eu fosse uma propriedade valiosa que você não quer que os outros estraguem?
Luke inclinou a cabeça, um brilho enigmático cruzando seu olhar.
— Em Silver Falls, a linha entre proteção e posse é muito tênue. Eu te trouxe aqui para você ver a verdade. A verdade é que, lá fora, você é apenas uma humana. Aqui dentro, sob a minha sombra, você é intocável.
O contraste não poderia ser mais bizarro. Há poucos minutos, Annabella estava em um covil de mármore e veludo cercada por predadores centenários que a viam como um banquete. Agora, ela está sentada em uma cabine de couro vermelho de uma lanchonete de beira de estrada, com o cheiro de óleo de fritura e o som de uma jukebox velha ao fundo.
Luke, impecável em seu terno escuro, parece uma pintura renascentista deslocada em um cenário de filme dos anos 50. Ele observa Annabella comer com uma curiosidade quase científica, como se o ato de mastigar e sentir o sabor das batatas fritas fosse um fenômeno fascinante que ele já esqueceu como funciona.
Annabella mergulha uma batata no ketchup, tentando processar a adrenalina que ainda corre em suas veias. O pingente de Dylan, antes febril, agora está apenas morno, como se estivesse em "estado de espera.
— Você me tirou de um clube VIP para me trazer a uma lanchonete que serve café em copo de plástico — Annabella diz, quebrando o silêncio. — Por que, Luke?
— Você pediu para sair de lá — ele responde, os braços cruzados sobre a mesa, os dedos longos e imóveis. — E você precisava de sustento. O seu corpo queima energia de uma forma que o meu nunca mais queimará. Ver você comer... é um lembrete de que a vida é feita de urgências simples.
Annabella para com o sanduíche no ar. Ela olha para os olhos dele, que sob a luz fluorescente da lanchonete parecem menos humanos e mais profundos, como lagos congelados à noite.
— Por que eu? — ela pergunta, a voz baixa e direta. — Entre tantas mulheres nesta cidade, entre tantas que implorariam por um segundo da sua atenção na faculdade... por que você escolheu logo a filha do Xerife? A garota que carrega o amuleto dos Cooper no pescoço?
Luke inclina o corpo para a frente. O frio que emana dele faz a fumaça das batatas fritas de Annabella girar para o lado oposto, como se até o vapor tivesse medo de tocá-lo.
— Porque você é a única que não me olha com reverência ou com o desejo de se tornar o que eu sou — ele diz, e há uma nota de sinceridade melancólica em sua voz. — As outras veem os Foster como um bilhete para a eternidade e o poder. Elas veem o ouro, não o isolamento.
Ele estende a mão sobre a mesa, mas não toca na dela, respeitando a barreira invisível que ela impôs.
— Você me olha como se eu fosse um problema jurídico a ser resolvido. Você questiona a minha natureza, desafia o meu controle e, mesmo sabendo que o meu toque poderia congelar o seu coração, você não desviou o olhar lá no mirante. — Ele faz uma pausa, os olhos fixos nos dela. — E tem o Dylan. O fato de você ter encontrado o "fogo" antes de conhecer o "gelo" criou um equilíbrio em você que eu nunca vi em ninguém. Você é o ponto de intersecção, Annabella. Onde você estiver, a guerra de Silver Falls será decidida. Eu não escolhi você apenas pelo que você é... eu escolhi você pelo que você representa para o futuro desta cidade.
Annabella sente um frio na espinha que não tem nada a ver com a temperatura dele.
Luke admite que o interesse dele não é puramente romântico; é estratégico. Ela é o elo entre os Foster e os Cooper, e quem a "conquistar" terá a vantagem no próximo eclipse.
Ele parece genuinamente cansado da bajulação dos outros. Annabella é a única "verdade" em um mundo de mentiras eternas.
O clima na lanchonete, que antes era de uma tensão quase insuportável, subitamente se quebra com o sarcasmo de Annabella. É o tipo de humor que só alguém que estuda as leis e a lógica humana usaria para desarmar um monstro milenar.
Annabella termina de mastigar uma batata frita e olha para o prato intocado à frente de Luke. O contraste é cômico: ela, cercada de guardanapos sujos de gordura e ketchup, e ele, parecendo uma estátua de gelo esculpida para um baile de gala.
— Você não vai comer nada mesmo? — ela pergunta, limpando o canto da boca. — Nem uma batata?
Luke solta um riso soprado, curto e gélido, cruzando os braços sobre a mesa de fórmica.
— Você sabe muito bem o que me alimenta, Annabella. E receio que esta lanchonete não tenha isso no cardápio fixo.
Annabella inclina a cabeça, um brilho travesso surgindo em seus olhos. Ela estende o pulso sobre a mesa, expondo a pele clara onde a pulsação é visível sob a luz fluorescente, e abre um sorriso desafiador.
— O quê? Você quer um pouco do meu sangue, Luke? — ela brinca, o tom carregado de ironia. — Está fresquinho, acabou de ser temperado com sódio e gordura trans.
Luke congela por um milésimo de segundo. Seus olhos escurecem, as pupilas dilatando levemente enquanto o som do coração dela — aquele tambor vivo e acelerado — ecoa nos ouvidos dele com uma nitidez dolorosa. Por um instante, o predador ressurge, mas ele respira fundo (um hábito humano que ele mantém por cortesia) e relaxa os ombros.