Dylan soltou um riso amargo, socando levemente o volante.
— Ordem? Eles chamam o abate sistemático de humanos de "ordem"? Annabella, os Foster não protegem esta cidade; eles a cercaram como se fosse um curral. O meu avô e o seu pai mantêm a paz porque o Jack impede que os mais jovens da nossa espécie ataquem, e o seu pai... o seu pai é o escudo humano que os Foster usam para que ninguém de fora venha investigar os desaparecimentos.
O calor da caminhonete de Dylan ainda parece impregnado na pele de Annabella quando ela fecha a porta de casa. O contraste térmico daquela noite a deixou exausta, oscilando entre o gelo absoluto de Luke e o fogo protetor de Dylan.
— Cheguei, mãe! — Annabella avisou ao passar pela sala, vendo Abigail concentrada em um livro ou organizando algo na estante.
— Está entregue, querida? — Abigail respondeu, com aquele tom de voz que mistura alívio e uma curiosidade silenciosa de mãe. — O jantar está na geladeira se precisar.
— Já comi na cidade, obrigada. Vou subir, o dia foi longo.
Annabella subiu os degraus de madeira, cada estalo do chão ecoando como um lembrete de que ela agora carregava segredos que aquela casa não conseguiria conter.
No banheiro, o vapor do chuveiro começou a embaçar o espelho. Annabella deixou a água quente escorrer, tentando lavar não apenas o cansaço, mas a sensação do toque gélido de Luke no clube e o cheiro de floresta de Dylan que parecia grudado em seu casaco.
Ela se observou no espelho embaçado por um segundo. Passou a mão pelo pescoço, onde o pingente de Dylan repousava. O quartzo estava silencioso agora, mas a pele por baixo dele ainda parecia vibrar.
Vestiu uma roupa de dormir confortável — uma camiseta larga e meias grossas — e se jogou na cama, apagando a luz principal e deixando apenas o abajur iluminar o quarto em tons de âmbar.
O silêncio do quarto permitiu que a mente de Annabella voltasse para a mesa da lanchonete e para o camarote VIP do L’Éternité.
Ela não conseguia tirar da cabeça o modo como Luke a olhava. Não era o olhar de um monstro faminto, mas de alguém que parecia ter encontrado uma resposta em meio a séculos de tédio. "Você é muito engraçadinha", ele dissera. Aquela frase ecoava, fazendo-a sentir que, por trás da frieza, havia uma camada de solidão que ele só permitia que ela visse.
Ela pensou na cena com Mason e Zoe. Luke a defendeu, mas a forma como ele disse que ela era "intocável sob a sombra dele" a incomodava. Era uma segurança que vinha com um preço: pertencer ao mundo dele.
Dylan a alertara sobre a maldade dos Foster, mas Luke a tratara com uma sinceridade desarmante na lanchonete. Ele não escondeu o que era; ele apenas mostrou que sabia se controlar.
Annabella rolou na cama, olhando para o teto. Ela fechou os olhos e, por um instante, pôde sentir novamente o vácuo gelado que Luke deixava no ar. Era assustador, mas era fascinante.
Ela pegou o celular na cabeceira, meio esperando uma mensagem de um ou de outro. O que ela faria amanhã na faculdade quando encontrasse aquele olhar gélido no meio da aula?
A atmosfera no quarto de Annabella muda instantaneamente. A segurança de sua cama, o calor de sua roupa de dormir e a penumbra reconfortante se transformam em um cenário de vulnerabilidade total. O mundo sobrenatural que ela tentava processar acaba de invadir seu refúgio mais pessoal.
Annabella estava deitada, com os olhos fixos no teto, revivendo o brilho enigmático dos olhos de Luke na lanchonete, quando um arrepio súbito e intenso percorreu sua espinha. A temperatura do quarto caiu drasticamente em segundos, fazendo sua respiração formar uma névoa fina diante de seu rosto.
Ela se sentou abruptamente na cama, o coração saltando no peito. Pela janela que ela esquecera aberta, a silhueta de Luke Foster se materializou. Ele não pulou ou escalou; ele simplesmente estava lá, flutuando para dentro do quarto com a suavidade de um floco de neve, pousando silenciosamente no tapete.
Ele vestia a mesma roupa do clube, mas sob a luz fraca do abajur, sua pele parecia ainda mais pálida, quase translúcida.
— Luke! — Annabella exclamou, a voz saindo em um sussurro estrangulado pelo susto. Ela puxou o edredom até o pescoço, uma reação instintiva de defesa. — O que... o que você está fazendo aqui? Como você entrou? É o segundo andar!
Luke não respondeu imediatamente. Ele olhou ao redor do quarto, observando os livros de Direito na estante, as fotos de família, a normalidade da vida dela, com uma curiosidade melancólica. Depois, fixou os olhos nela.
— Por que você estava pensando tanto em mim, Annabella? — ele perguntou. A voz dele não era predatória, era suave, quase... tímida.
Annabella sentiu o rosto queimar, e não era pelo calor do edredom. O pensamento de que ele captara suas reflexões sobre o "charme do perigo" e sua solidão a deixou exposta.
— Eu... eu não estava... — ela tentou negar, mas a mentira morreu em sua garganta diante do olhar dele.
Luke deu um passo em direção à cama. O frio que emanava dele parecia lutar contra o calor que o pingente de Dylan em seu pescoço tentava desesperadamente gerar.
— Eu li seus pensamentos, Annabella — ele confessou, e pela primeira vez, ele parecia meio sem graça, desviando o olhar por um milissegundo antes de sustentá-lo novamente. — É difícil não ouvir quando eles gritam o meu nome com tanta... confusão.
Ele parou ao pé da cama. O sorriso enigmático e "engraçadinho" que ela vira na lanchonete reapareceu, mas agora com uma voltagem diferente, mais íntima.
— E agora — ele continuou, num tom de brincadeira que não conseguia esconder a intensidade de sua presença —, o seu desejo está aqui. O que você vai fazer com ele?
Essa é a atitude perfeita para a Annabella. Como uma futura advogada, ela sabe que a melhor defesa é o ataque, especialmente quando o "adversário" acabou de confessar que invadiu sua mente. Ela decide não ser a vítima acuada sob o edredom; ela vai confrontar o gelo com a sua própria determinação.
Annabella respirou fundo, sentindo o ar gelado que Luke trouxe consigo queimar seus pulmões. Em um movimento decidido, ela afastou o edredom e se levantou. Ela estava descalça, vestindo apenas sua roupa de dormir, mas sua postura era de quem estava prestes a interrogar uma testemunha crucial.
Ela caminhou até parar a centímetros dele. A diferença de temperatura era absurda; era como estar diante de uma geleira eterna. Annabella teve que lutar contra o instinto de tremer, mantendo o queixo erguido para encarar os olhos escuros de Luke.
— Já que você gosta tanto de ler mentes, Luke, deve saber que eu detesto invasão de privacidade — ela disse, a voz baixa, mas firme como aço. — Mas já que você está aqui, e já que sabe que eu não consigo parar de pensar em você... vamos pular os joguinhos.
Ela deu mais um passo, invadindo o espaço gélido dele. O pingente de Dylan em seu peito começou a pulsar com um calor frenético, como se estivesse tentando criar uma bolha de proteção entre os dois.