A HERANÇA - Parte II

939 Palavras
6:45 da manhã. Vesti o uniforme da confeitaria - calça jeans, camiseta vermelha com a logo na frente e tênis branco -, e me apressei a juntar minhas coisas espalhadas pelo quarto. Peguei minha bolsa de ombro preta, ela era larga e muito espaçosa, com detalhes de elástico na frente, dando um ar esportivo, e dentro dela coloquei meus pertences, sempre me certificando de quatro coisas: as chaves (de casa e da pasticceria), meu celular, minha agenda e caneta tinteiro. Enquanto amarrava os cadarços do meu tênis, ouvi meu irmão mais novo me chamar de escada. — Estou indo! - avisei. Me pus de pé e andei até a porta do quarto, fechando-a por trás de mim. Antes de chegar nas escadas, esbarrei como meu irmão, provavelmente me procurando. — Elio! - exclamei com o susto. Agarrei seu queixo quando olhei para o seu rosto. — O que é isso?! — questionei brava. — Por que não tomou sua cápsula? — encarei suas manchas brancas ao redor dos olhos. Ele me encarou surpreso. — Esqueci de tomar. — as pequenas mãos de Elio alisaram as bochechas do seu rosto. — Mamãe levou para mim no quarto e deixou em cima do meu criado… — ele me olhou preocupado. — Então vá pega-lá, nesse exato momento. — ordenei. Ele assentiu e saiu correndo em direção ao seu quarto. Desci as escadas, que está interligada diretamente com a cozinha. Meu pai e minha irmã já estavam sentados à mesa, e o café estava pronto e servido. Dei bom dia a todos no local, cumprimentei meu pai com um beijo na bochecha, e me aproximei da minha mãe, a qual estava de frente para o filtro de água, enchendo seu copo. Cutuquei ela pelo braço e falei baixo. — Mãe, o Elio esqueceu de tomar a cápsula de novo. — De novo? — ela arregalou os olhos, e olhou para a escada. — Eu já mandei ele ir tomar, mas a senhora precisa lembrá-lo. Já é a terceira vez, só este mês. — Enchi um copo de água e o levei à boca. — As manchas dele estão ficando muito aparentes no rosto, não tem como esconder mais… — Semana passada ele quase foi à escola sem tomar a cápsula. — minha mãe suspirou. — Caso eu não o tivesse visto antes sair, não sei o que teria acontecido. — Ele ainda está se acostumando com a condição, faz apenas um ano que os primeiros sinais começaram. — Tentei tranquilizar minha mãe. — Vamos nos esforçar por ele, até por que aos sete anos o senso de responsabilidade ainda está se desenvolvendo. — minha mãe concordou com a cabeça, e apertou meu braço suavemente. Os passos acelerados de Elio ecoaram pela escada, quando o mesmo desceu, seu rosto estava completamente moreno, o que trouxe alívio ao meu coração. Não por que eu não gostava de suas manchas, era apenas a preocupação de algum dia uma tragédia acontecer em minha família. Apenas meu pai estava livre da obrigação de tomar antocianina diariamente, e mesmo assim ele não se ausentava das consequências de esconder uma condição considerada ilegal. Minha irmã do meio, Donatella, era a mais prejudicada. Seu vitiligo ocupava todo o seu corpo, sendo impossível escondê-lo com roupas, maquiagem ou sapatos, e, além disso, nela o efeito da cápsula é curto, cerca de apenas doze horas, diferente do resto de nós que é em média vinte horas. O café da manhã é a refeição do dia que fazemos juntos sem falta, onde aproveito para admirar a família que tenho. Nesse momento, reflito sobre meus medos, inseguranças, e como essas pessoas ao meu redor são tudo o que tenho. Procuro conversar o máximo que posso, comer e saborear o máximo que posso, e amá-los o máximo que posso. Por que se chegar o dia em que eu não mais os terei ao meu lado, não vou querer arrependimentos, desejarei ser grata por ter feito o que pude. O problema deste pensamento é que mentalmente tudo parece mais fácil, porém a realidade é bem mais assustadora. O toque do celular do meu pai me trouxe de volta à mesa. Ele se levantou para pegar, e antes de atender nos disse quem era, seu irmão, o tio Dario. Não fui capaz de ouvir a conversa, e que aliás foi bem curta, mas meu coração acelerou ao ver a expressão do meu pai. Quando desligou o celular, sua face estava pálida, e seu peito ofegante. — O que foi, Enrico? — minha mãe tocou em seu ombro. — Dario disse que o governo está realizando revistas em todo o bairro, e que devemos nos preparar. — a voz do meu pai estava baixa e falha. Meu coração palpitou fortemente. — Mas eles acabaram de fazer uma no início do mês! — Donatella falou. — A norma era apenas uma revisão por mês, o que é isso agora? — Quando eles irão vir? — perguntei, respirando fundo, tentando me acalmar. — A qualquer instante. — meu pai respondeu. — Ah não… — minha mãe colocou a mão na testa. — Eles foram até a casa de Dario, chegaram de surpresa, e então apresentaram o decreto. — meu pai continuou. — Seu tio disse que teve sorte, por que tinha organizado o armazém de antocianina noite passada e todos já haviam tomado suas cápsulas. — Vamos, levantem! — minha mãe se colocou de pé. — Catem qualquer pote que estiver espalhado pela casa, agora! — exclamou. Ninguém perdeu tempo, e então nós nos espalhamos pela casa, à procura de qualquer vestígio que o governo poderia usar contra nossa família.
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