18 de março de 2120.
Cagliari, capital da Sardenha - Itália.
7:16 da manhã.
O som da campainha de casa fez um calafrio me subir a espinha. Mesmo eu estando ciente de que o governo bateria em nossa porta, torci, lá no fundo, para acontecer o mais tarde possível. Olhei para o meu pai, que encarava a porta de entrada, completamente estático.
— Devo abrir? — sussurrei, e o meu pai negou com a cabeça.
— Está tudo bem. — ele disse, caminhando devagar até a porta. — Nós vamos ficar bem.
Quando a mão esquerda do meu pai tocou na maçaneta, pude notar uma gota de suor descer pela lateral de sua testa, ele apertou os olhos e soltou um suspiro baixo. Em um movimento lento, girou a maçaneta e a puxou. Do lado de fora, quatro homens altos, vestidos com roupas e botas pretas, estavam em pé, esperando. Um deles particularmente me chamou a atenção, estava mais à frente, e não foi por beleza, mas sim pelo fato de transparecer um forte autoritarismo, ele me causava medo. Aparentava estar na casa dos trinta anos, seus olhos eram grandes e castanhos, já sua expressão facial… indecifrável. Poderia ser tédio, repulsa, desprezo, ou até indiferença, difícil saber.
— Senhor Enrico Bonatti? — perguntou, sua voz era rouca, como alguém que fuma há muito anos.
— Sim, sou eu. — o nervosismo era notório na voz do meu pai. — Algum problema? — sorriu, claramente tentando disfarçar.
— O parlamento convocou o Centro de Investigação, a fim de realizar inspeções em todos os domicílios. — O homem, que era policial - tive certeza quando vi seu brasão CIH(Centro de Inteligência da HOME), no lado esquerdo de seu peito -, entregou um tablet translúcido para o meu pai. Por causa da distância, não consegui ler com clareza o que dizia nele.
— Por que não nos avisaram sobre essa convocação? — meu pai perguntou, entregando o tablet de volta. O policial deu um passo à frente, e pude ler o nome na etiqueta presa a sua camisa. Ettore.
— O governo não deve explicações. — Seus olhos fitaram meu pai tão intensamente que poderiam atravessá-lo. — Será que… — Ettore sorriu sarcasticamente. — podemos entrar? — Meu pai não hesitou em sair do caminho, permitindo que os quatro policiais entrassem. Ettore e seus companheiros olharam ao redor, vasculhando cada detalhe da casa.
— Onde está sua esposa, Enrico? — Ettore indagou, senti meu coração errar uma batida. — E seus outros filhos? — Cerrei os punhos, sentindo minha respiração ficar acelerada. Ettore encarou meu pai, esperando uma resposta.
— Estamos bem aqui. — ouvi a voz da minha mãe soar nas escadas. Quando olhei, ela descia junto de Donatella e Elio.
— Paloma. — Ettore cumprimentou minha mãe.
Franzi a testa. Não me lembrava da relação entre os dois, até porque eu o conheci há poucos minutos. Elio caminhou até mim e abraçou meu quadril, consegui sentir suas mãos tremerem. Passei a mão em suas costas, a fim de acalmá-lo, e ele olhou para mim em resposta. Donatella ficou em pé no primeiro degrau da escada com seus braços cruzados, encarando o corrimão.
— Ettore. — minha mãe pronunciou séria. — Gostaria de entender o por que da visita inesperada. — percebi que ela tentou não soar rude. O policial soltou uma risada baixa, e caminhou pausadamente em direção a minha mãe. Pude sentir o forte cheiro de cigarro vindo de sua direção, comprovando minha teoria.
— Por acaso conhece uma substância chamada antocianina, Paloma? — aquela pergunta fez toda a circulação sanguínea de meu corpo descer até meus pés. Minha mãe se mostrou indiferente, e continuou mantendo contato visual.
— Não. — ela respondeu. — Por que eu deveria? — questionou.
— O CIH apreendeu civis usando antocianina para acobertar o vitiligo. — Ettore explicou. — E como o uso dessa substância deixa o vitiligo nada identificável, o parlamento decretou uma revista em todos os domicílios, comércios e empresas, para encontrar qualquer presença da d***a. — ele contornou minha mãe, e olhou para o final da escada.
— Antocianina é uma nova d***a? — Donatella indagou, arqueando as sobrancelhas.
— Sim, porém diferente das que estão acostumados. — Ettore a olhou. — Mesmo assim, é tão ilegal quando uma.
— Então você veio até aqui a fim de achar um narcótico? — Minha mãe perguntou, de costas para Ettore.
— Exatamente. — ele confirmou. — Então, nos dê licença. A sua casa não é a única que precisamos visitar ainda hoje. — Ettore levantou o braço, fazendo sinal para os outros policiais, que logo se moveram de suas posições.
— Sejam rápidos. — minha mãe virou-se para Ettore, que estava prestes a subir as escadas. — Meu filho precisa ir à escola. — Arregalei os olhos, refletindo sobre como minha mãe teve coragem para falar daquele jeito com um oficial do CIH. Ettore contorceu o lábio, e subiu as escadas com passos fortes.
Os outros policiais se dividiram entre si, adentrando nos cômodos da casa. Um deles ficou conosco na sala, abrindo as gavetas e portas dos armários. A imagem de um homem estranho mexendo em nossos objetos pessoais nunca será correta para mim, aquilo me revoltava por dentro, e mais ainda por não ser capaz de fazer algo. Até quando minha família precisaria passar por isso? Essa era a pergunta que amanhecia em minha mente e pendurava até eu pegar no sono. Segurei a mão de Elio firmemente e fechei meus olhos, tentando não pensar na situação em que eu me encontrava. Foi por não mais sentir a mão de meu irmão que abri os olhos, para então ver Elio subir as escadas em disparada.
— Elio! — Chamei, indo atrás dele. — Elio, volta aqui! — Chamei ainda mais alto. Assim que pisei no andar de cima, vi o vulto de Elio entrar em seu quarto, e enquanto eu caminhava até lá, pude ouvir um diálogo nada amigável.
— Você está bagunçando meus brinquedos! — Elio exclamou. — Vai quebrar todos eles! — comecei a ouvir baques no chão. Ao entrar no quarto, a cena era de caos. Ettore estava abaixado em frente ao baú de brinquedos do Elio, tirando-os de dentro e lançando-os ao chão. — Para com isso! — Elio avançou no braço do oficial, que o jogou para longe com força, fazendo ele cair deitado no chão.
— Ei! — gritei e fui em direção a Elio, o qual tinha uma expressão atordoada no rosto. — Você está bem? — o perguntei, e ele assentiu. Naquele momento, Ettore se levantou e caminhou em direção a porta, mas antes de sair do quarto, parou ao meu lado. Reuni fôlego para confrontá-lo, porém ele se pronunciou primeiro.
— Contenha seu irmão. — disse seco. — Devo lembrar a vocês que é proibido interromper inspeções? — Ettore elevou a voz.
— Ele não é um cachorro para ser contido. — falei em tom ríspido.
— Todos vocês são cães! — Ettore exclamou. — Pertencem ao governo. — disse em firme. — Esse será o primeiro e último aviso, não infrinja mais nenhuma regra. — se virou para a porta. — Cães teimosos devem ser sacrificados. — Ettore saiu do quarto, deixando-me com as mãos balançando de ódio. Elio se sentou, e me observou com ternura, tentando entender o que eu estava sentindo.