CAMINHÃO VERDE - Parte II

1114 Palavras
— Giu… — chamou baixo. Me mantive em silêncio, até ter certeza de que Ettore estava longe o suficiente. Estiquei o braço e fechei a porta do quarto, sem me mover do lugar que eu estava. — No que estava pensando? — perguntei baixo, com os olhos fechados, tentando controlar minha raiva. — Por que fez aquilo? — Meus brinquedos… — Elio se pronunciou, encolhendo os ombros. — Que se exploda os brinquedos! — me esforcei para não falar alto. — Pense no que poderia ter acontecido com você. Com a gente! — segurei em seus braços. — A família vem em primeiro lugar, Elio. Não interessa se seus brinquedos podem quebrar ou não, nossas vidas estão jogo. — olhei no fundo de seus olhos. — Você precisa parar de agir com irresponsabilidade, ou vai acabar nos prejudicando. — Você não entende… — os olhos de Elio começaram a lacrimejar, reconheci que tinha sido dura demais. — Eu escondi meu pote de cápsulas dentro do meu caminhão. — lágrimas rolaram pelo rosto do menino, e segundo depois soluços vieram. Minhas mãos afrouxaram em seus braços, e ergui meu olhar em direção aos brinquedos no chão. — Qual caminhão? — perguntei baixo. — O verde. — Elio disse entre os soluços. Coloquei-me de pé e caminhei entre o mar de brinquedos, até que meus olhos pararam em um caminhão verde, todo de plástico, ao pegá-lo nas mãos, reconheci que o brinquedo era um modelo de um caminhão pipa. No compartimento posterior havia uma tampa, e quando a puxei, vi o que pote de cápsulas estava lá dentro, como Elio dissera. Ele não estava preocupado com o bem estar dos brinquedos, mas sim em descobrirem onde escondeu suas cápsulas. Mesmo que o local escolhido por ele não foi dos melhores, Elio teve uma boa e pura intenção, sendo corajoso o suficiente para enfrentar um grande perigo. Ele pensou na família. Eu estava errada… Voltei minha atenção para meu irmão novamente, que ainda respirava pesado, devido ao choro. A culpa entrou violentamente em meu coração, e em segundos me vi abraçada a Elio. — Me desculpa. — o apertei contra mim. — Me desculpa por falar essas coisas. — respirei fundo. Senti o queixo de Elio roçar em meu ombro, indicando que ele aceitava meu pedido. — Tudo bem… — a sensação de seus braços me envolvendo foi aliviadora. — Eu deveria ter avisado antes… — fungou. — Mas eles chegaram logo depois. — Não tem problema, pelo menos não mais. — interrompi o abraço, e sequei o rosto de Elio com as mãos. — Deixei a emoção subir a cabeça… — sorri e ele retribuiu. Nosso momento foi quebrado com a voz da minha mãe me chamando. Peguei Elio pela mão, e juntos descemos ao andar de baixo. Chegando lá, apenas meu pai, mãe e Donatella estavam. Olhei ao redor, e realmente estávamos sozinhos. — Eles já foram. — Donatella confirmou. — Qual o próximo passo? — perguntei. — Agora eles sabem sobre as cápsulas, será uma questão de tempo até que finalmente descubram. — Essa não é a maior preocupação. — Meu pai disse, ele aparentava estar tão abatido que seus olhos estavam caídos. — Como assim? — retruquei, com dúvida. Meu pai demorou alguns segundos para me responder. — O capitão Ettore disse que o governo passará a realizar testes de DNA em todos os cidadãos, para confirmar ou não a presença de vitiligo. — ele esclareceu. — E quem for pego pelo teste, por usar as cápsulas e esconder seu vitiligo… — o ar pareceu lhe faltar. — Será preso, com risco de morte. — O que? — perdi a voz. Nós havíamos conseguido passar despercebidos durante a primeira onda de testes clínicos, mas dessa vez não acho que seria possível. — Quando? — Em cinco dias. — minha mãe respondeu. Ela estava sentada à mesa, com a cabeça apoiada nas duas mãos. — Já falaram com o tio Dario? Talvez ele tenha alguma ideia sobre o que fazer… — opinei, já sentindo o desespero tomar conta do ambiente. — Não tem o que fazer, Giuliana. — Donatella disse, seus lábios tremiam. — Fugir de novo não vai adiantar, por que dessa vez estamos registrados no HOME. Se não passarmos pelos testes, eles irão saber e certamente virão atrás de nós. — uma lágrima caiu de seu olho direito. — Não seremos desaparecidos, seremos fugitivos, criminosos… — tampou a boca, virando de costas para mim. — Liguem para o tio Dario, pode ter outro jeito. — supliquei. — Por que vocês já estão desistindo? — questionei aflita, ao ver que ninguém movia um dedo. — Não podemos perder as esperanças agora! — esbravejei. — Filha. — minha mãe cortou. — Chega. Não poderia ser o fim. Não, não poderia… Eu sempre me preparei para o pior, mas não poderia ocorrer agora. A minha família não pode ser entregue assim. Do que adiantou a nossa sobrevivência até o momento? Do que adiantou todo o nosso esforço? Para no fim perdemos? Que sentido há nisso? Minha garganta começou a fechar, e meus olhos aos poucos perderam o foco devido às lágrimas acumuladas. Meu tronco enrijeceu involuntariamente, juntei forças para engolir o choro preso entre os dentes. Quanto mais eu buscava por uma solução, mais escura a minha mente ficava. A minha alma tremia de pavor e agonia, era uma sensação assombrosa. O pouco controle que eu tinha sobre minhas pernas, usei para sair de casa. De imediato, não pensei em um local para ir, mas meu corpo me conduziu para o lugar certo. Após caminhar por aproximadamente quinze minutos, parei e apoiei minhas mãos nas coxas, para recuperar o fôlego perdido durante o trajeto. Mas eu simplesmente não o encontrei, e o choro retraído finalmente encontrou escape. Desci ao chão, sentindo meus joelhos tocarem o piso de pedra, e soluços vieram intensamente, sendo difícil controlá-los. Apoiei minha mão esquerda no chão, porque meu corpo havia perdido suas forças. Ergui o olhar, procurando ajuda, mas não havia ninguém, e como sempre, eu me encontrava sozinha quando mais precisava de alguém. Entre as lágrimas de aflição, observei onde eu estava, e reconheci por ser o Bastião de Saint Remy. As duas aberturas semiovais, as paredes e o piso feitos de pedra, além do cheiro de poeira. Sem intenção alguma, fui ao lugar que havia visitado apenas uma vez, e mesmo eu não lembrando o caminho, de alguma forma cheguei ali. Pensei em levantar e voltar para casa, mas a tristeza profunda consumia o meu interior, sugando o domínio que eu tinha sobre meu corpo, e, nas profundezas do meu pensamento, eu realmente desejava ficar onde eu estava.
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