— É para o seu bem, Zafira. Ele responde friamente. — Não pertencemos mais ao mesmo mundo. Agora sou vice-diretor do Grupo Ferragotti. Você... você é apenas uma dona de casa. Consegui este cargo graças aos contatos da Vivian. Casar com ela faz parte do meu destino. Me desculpe.
— Destino... A palavra me atinge como uma adaga. Ele nem tem coragem de admitir o que está fazendo. Um caminho foi traçado para ele, e ele o segue como um cão bem treinado.
— Se você assinar os papéis e for embora sem causar problemas, eu te dou um milhão a mais do que o estipulado. Dois milhões. Você pode reconstruir a sua vida em outro país, se quiser.
Não acredito nisso. O meu mundo simplesmente desmoronou diante de mim... E a solução dele é me dar dinheiro como se fosse apenas mais uma transação? Dois milhões pelos anos que dediquei a ele? Pelo amor, pela lealdade, pelos sonhos que sacrifiquei?
— Não acredito... A minha garganta estala, lágrimas embaçando minha visão. — Então é isso que eu valho para você... Dois milhões?
Eu olho para cima e o encaro.
— Diga-me, Mateus... olhe para mim! Grito desesperadamente. Por um momento, os nossos olhares se encontram. — É isso mesmo que você quer?
— Sim, Zafira. Ele responde, secamente, sem hesitar.
Eu sei que ele está mentindo. Eu sei que por trás daquela máscara está um homem manipulado por sua mãe, por sua ambição. Mas eu não me importo mais. Não vou mais implorar. Eu sou Zafira Ferragotti. Eu não nasci para implorar a ninguém, muito menos para uma covarde sem vontade própria.
— Muito bem. Se é isso que você quer...
Caminho com firmeza até a mesa. Pego a caneta e assino. Assim, encerro três anos de casamento. Três anos de devoção. Três anos que ele simplesmente pisoteou.
Então olho para ele, uma última vez, e com a voz mais calma que já ouvi, digo: escute com atenção, Mateus Torres... você vai se arrepender disso o resto da sua vida.
Com a pouca energia que me resta, os meus olhos marejados de lágrimas e a voz de Mateus ainda ecoando atrás de mim, pego o meu celular e saio daquela casa. Não pretendo voltar nunca mais.
Não acredito... Ainda estou em choque. Sinto-me humilhada, pisoteada, vazia. As minhas pernas m*al me sustentam enquanto caminho sem rumo. Finalmente, chego a uma praça e me jogo em um dos bancos. Não tenho para onde ir. Não tenho dinheiro. É tarde demais para ligar para o meu pai e contar o que aconteceu. Hoje à noite tenho que me virar sozinha. Amanhã vou falar com ele... e, sem dúvida, farei com que Mateus se arrependa do que fez comigo. Não só vou me divorciar dele, como vou retirar todo o meu apoio como herdeira do grupo Ferragutti. Farei todo o possível para impedir que ele ou a sua família alcancem a posição que tanto cobiçam.
Meu Deus... me sinto tão estúpi*da. Onde está a forte Zafira, aquela que não deixava ninguém intimidá-la? A poderosa herdeira dos Ferragutti? Sem dúvida, ela foi deixada dormindo e pisoteada pela família Torres. Mas eles vão se arrepender, eu juro. Cada humilhação, cada desrespeito, cada golpe... eles vão pagar por tudo.
Pego o meu telefone e disco um número. Preciso falar com alguém. A única pessoa em quem ainda confio.
Depois de vários toques, ele finalmente atende. Do outro lado da linha, há música alta, risos e barulho. Ele está claramente numa festa. E eu o estou interrompendo...
— Minha querida Zafira? É você? Espere, vou para o jardim; não consigo te ouvir bem.
Segundos depois, a sua voz fica mais clara. É Edgard, meu melhor amigo e ex-consultor de imagem.
— Zafira, querida... você não fala comigo há mais de um mês. Como vai?
— Desculpe, Edgard... você está em uma festa e eu estou te incomodando. Conversaremos depois...
Estou prestes a desligar, mas ele me interrompe imediatamente.
— Espere! Pelo menos me diga o que está acontecendo. Você está bem?
O seu tom preocupado é o que me destrói. As poucas forças que me restam desaparecem e eu começo a chorar desesperadamente.
— Preciso que você venha me buscar, Edgard... por favor. Você é o único que pode me ajudar.
— Meu Deus... Estou indo agora mesmo. Me mande a sua localização e fique onde está. Não se mova. E tome cuidado, ok?
— Eu vou tomar. Só venha... Eu preciso de você.
Eu sempre soube que podia confiar em Edgard. Meu confidente, meu cúmplice, meu melhor amigo... Aquele que eu não via há mais de três anos. E agora, quando ele me vir novamente, sem dúvida ficará horrorizado com o que eu sou. Pelo que me tornei.
Quinze minutos depois, uma Lamborghini modelo antigo para em frente à praça. Edgard sai do veículo e corre na minha direção. Ele me envolve num abraço caloroso, acaricia os meus cabelos como se eu fosse uma criança perdida e enxuga as minhas lágrimas com um dos seus lenços de seda de grife. Ele sempre dizia que só as minhas lágrimas mereciam tocar algo tão exclusivo.
— Minha Zafira... não posso te ver assim. Me diga o que fizeram com você. Juro por tudo o que é sagrado que vou fazê-los pagar por cada uma das suas lágrimas.
— Ele me disse... que eu não era boa o suficiente para ele. Ele me fez assinar o divórcio. E me disse que vai se casar com Vivian Morales.
— Disseram que você não era o suficiente? Meu Deus! Essas pessoas são loucas? Você é Zafira Ferragutti! A herdeira do grupo empresarial mais poderoso do país. E olha só! Eles não destruíram apenas a sua autoestima... eles a maltrataram. Você tem o poder de destruí-los, e vai conseguir.
— Eu vou. Eu juro. Mas primeiro... preciso desaparecer por alguns dias. Me recuperar. Voltar a ser eu mesma. Voltar a ser Zafira Ferragutti. Só então estarei pronta para me vingar. Um por um.
— É isso minha amiga! Ele exclama, entusiasmado. — Mas antes de nos vingarmos, precisamos dar um jeito nesse olhar... Diz ele, olhando-me de cima a baixo. Não de forma irônica, mas com aquele amor sincero que sempre teve por mim. Edgard seria o homem ideal... se não fosse gay. Como os homens são sortudos.
— O que você vai fazer comigo?
— Vamos para o meu apartamento. Tomaremos uns drinques. Você vai trocar de roupa. E depois veremos.
— Mas você... você estava numa festa. Eu te tirei de lá. Fique com seus amigos. Vou me arrumar.
— Claro que vou voltar para os meus amigos. Mas você... você vem comigo.
— Você é louco, eu não... Começo a dizer, mas Edgard já agarra o meu braço e me arrasta para o carro dele.
— Você é uma mulher divorciada. Solteira de novo. Está oficialmente de volta ao mercado! O que você precisa é de uma boa dose de diversão.