O Dia de Descobertas e Contradições (parte 2)

1163 Palavras
A sopa fumegava nas tigelas, espalhando um cheiro simples, mas acolhedor. A mesa de madeira rangia sob o peso das panelas, das colheres e das mãos inquietas das crianças. Pietro e Ayla disputavam quem pegaria mais pedaços de batata, enquanto Helena, a filha mais velha, revirava os olhos para os dois. — Ei, menos confusão na mesa — Helena (a mãe) chamou atenção, firme. — A sopa é pra todos. — Mas mamãe, o Pietro sempre pega os pedaços maiores! — Ayla reclamou, cruzando os braços. — É porque eu sou mais rápido. — Pietro sorriu, vitorioso. — Quem manda você ser lenta? — Eu não sou lenta! — Ayla retrucou, batendo o pé no chão. Ricardo, cansado, riu baixinho, tentando aliviar o clima: — Calma, campeões. Se continuar assim, vou dividir eu mesmo a sopa, e cada um vai ficar com exatamente o mesmo tanto. — Melhor — resmungou Ayla. — Aí o Pietro não rouba. Todos riram, menos Pietro, que fez uma careta, embora estivesse escondendo o riso. --- ## Conversas que pesam Enquanto as crianças comiam, Helena (a mãe) olhava discretamente para o marido. Ricardo tinha os ombros caídos, o olhar baixo, como se carregasse não só o cansaço físico, mas também uma preocupação silenciosa. — Ricardo — ela começou, num tom baixo, quase um sussurro —, as contas de água e luz já estão atrasadas. O dono da casa passou aqui à tarde, pediu pra você falar com ele. Ricardo suspirou fundo, apoiando os cotovelos na mesa. — Eu sei… Vou dar um jeito. Talvez consiga mais um trabalho no sábado. — Mas você já está exausto — ela retrucou, preocupada. — Não pode se m***r desse jeito. — E o que você quer que eu faça, Helena? — ele levantou um pouco a voz, chamando a atenção das crianças. — Que eu fique de braços cruzados, vendo as coisas se acumularem? O silêncio tomou conta da mesa por alguns segundos. Pietro parou de mastigar, Helena (a filha) abaixou os olhos, e Ayla apenas observava, confusa. — Papai? — a pequena perguntou com doçura. — Vocês estão brigando? — Não, meu amor. — Ricardo respirou fundo, forçando um sorriso. — Só estamos conversando. — Mas parece briga. — Ela inclinou a cabeça. — Quando vocês falam alto, dói aqui ó… — apontou para o peito. Helena (a mãe) acariciou os cabelos da filha, tentando suavizar a tensão. — Não é briga, querida. É só preocupação de gente grande. Você não precisa se preocupar com isso. --- ## Brincadeiras que viram briga Depois do jantar, as crianças foram para o pequeno quintal da casa, onde a luz fraca do poste da rua iluminava o espaço. Pietro levou uma bola, Ayla correu atrás dele, e Helena ficou observando, ainda com os cadernos da escola nas mãos. — Vem brincar também, Helena! — Ayla chamou, animada. — Não posso, Ayla. Tenho que terminar a lição. — Sempre lição, sempre livro… — Pietro zombou. — Aposto que você nem sabe brincar mais. — Sei sim! Só não quero perder tempo com vocês dois. — Helena retrucou, provocando. — Ah, é? Então vem ver se não é divertido. — Pietro chutou a bola, que bateu na perna dela. Helena soltou um grito de dor e encarou o irmão com raiva. — Seu i****a! Tá vendo? Eu falei que não queria brincar! — Foi sem querer! — Pietro defendeu-se, mas já rindo. — Foi de propósito! — Helena acusou, cruzando os braços. Ayla, tentando mediar, correu até a irmã e abraçou sua perna. — Não fica brava, Helena. O Pietro só sabe brincar assim, meio bruto. Helena suspirou, mas seu rosto ainda estava vermelho de raiva. — Um dia você vai machucar alguém de verdade, Pietro. O garoto abaixou os olhos, envergonhado, mas não admitiria tão facilmente. — Eu só tava brincando… --- ## Romance inocente e segredos Enquanto a briga esfriava, Mariana apareceu no portão, chamando por Helena. — Ei, Helena! Vem cá, preciso te contar uma coisa. A menina correu até a amiga, ainda emburrada. Mariana cochichou algo em seu ouvido, e logo Helena abriu um sorriso tímido. Ayla, curiosa, puxou o vestido da irmã. — O que ela falou? Conta pra mim! — Nada que você precise saber, curiosinha. — Helena respondeu, rindo. — Aposto que é sobre aquele menino, o Gustavo! — Pietro provocou, voltando a sorrir. — Eu vi você conversando com ele hoje. — Cala a boca, Pietro! — Helena ficou vermelha, empurrando o irmão. — Eu sabia! Você gosta dele! — Pietro correu, rindo, enquanto Helena tentava alcançá-lo. Ayla corria atrás dos dois, sem entender direito, mas repetia, gargalhando: — Helena gosta do Gustavo! Helena gosta do Gustavo! A correria terminou quando Ricardo surgiu na porta, com expressão cansada. — Chega, criançada. Já está tarde. Hora de entrar. --- ## Reflexões antes de dormir Dentro do quarto apertado, as crianças se ajeitaram como podiam. Helena (a filha) ficou virada para a parede, emburrada. Pietro deitou-se de lado, ainda rindo baixo das provocações. Ayla, no meio dos dois, puxava o cobertor remendado. — Helena, você tá com raiva de mim? — Ayla perguntou baixinho. — Não, Ayla… — a irmã respondeu, suspirando. — Só tô cansada. — Então tá bom. Eu só queria que todo mundo fosse feliz. — A pequena fechou os olhos, com a pureza que só uma criança poderia ter. Na sala, Helena (a mãe) e Ricardo permaneciam acordados, conversando em sussurros sobre as dificuldades. A luz da lamparina tremeluzia, refletindo a dureza e, ao mesmo tempo, o amor que os mantinha firmes. A lamparina tremeluzia sobre a mesa da sala, projetando sombras nas paredes descascadas. Ricardo mantinha-se sentado na cadeira, os cotovelos apoiados, esfregando o rosto com as mãos calejadas. Helena (a mãe) costurava uma meia furada, tentando se concentrar na agulha, mas não conseguia evitar os olhares de preocupação para o marido. — Você não pode continuar desse jeito, Ricardo — ela disse, quebrando o silêncio. — Tá se matando de trabalhar e mesmo assim parece que nunca é suficiente. — E se eu não trabalhar, Helena? O que sobra pra eles? — Ele apontou na direção do quarto, onde os três filhos dormiam. — Eu prefiro me cansar até o osso a ver eles passando fome. — Eu sei… — ela suspirou. — Mas às vezes eu tenho medo. Medo de você adoecer. Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos. O peso da responsabilidade era como uma pedra em suas costas. — Você acha que eu não tenho medo também? — Ele levantou os olhos, marejados. — Eu penso nisso todo dia. Mas se eu parar, quem vai cuidar deles? Quem vai colocar comida nessa mesa? Helena deixou a meia de lado, levantou-se e segurou a mão do marido. — Nós vamos dar um jeito. Juntos. Você não tá sozinho. Por um instante, os dois se olharam em silêncio, a chama da lamparina refletindo nos olhos cansados, mas cheios de amor. ---
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