O Dia de Descobertas e Contradições (parte 3)

1248 Palavras
O cochicho das crianças No quarto, entretanto, o silêncio não reinava completamente. Pietro e Helena (a filha) ainda estavam acordados, cada um de costas para o outro. Ayla, de olhos arregalados, cochichava entre eles. — Vocês tão acordados, né? — ela sussurrou. — Dorme, Ayla — resmungou Helena. — Não consigo. — A pequena se mexeu, inquieta. — Fiquei pensando… vocês acham que papai e mamãe tão brigando de novo? — Não — respondeu Pietro, rápido demais. — Eles só tão conversando. — Você acha mesmo? — Ayla insistiu. — Claro! — Pietro virou-se para o outro lado, mas a verdade é que ele também tinha ouvido os sussurros dos pais e estava preocupado. Helena bufou, mas logo suavizou o tom: — Ayla, às vezes os adultos falam mais alto porque estão preocupados, não porque querem brigar. — Mas eu não gosto… — a pequena disse, encolhendo-se no cobertor. — Parece que o coração fica apertado. Pietro, apesar de fingir indiferença, esticou a mão e deu um tapinha leve na cabeça da irmã. — Relaxa, bobinha. Tá tudo bem. Helena, então, completou: — É… a gente sempre dá um jeito. Mamãe e papai sempre dão um jeito. --- ## Ciúmes e provocações Ayla sorriu, aliviada, mas logo mudou de assunto: — Helena, é verdade que você gosta do Gustavo? A menina arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar. — Ayla! Para de inventar coisa. — Não tô inventando. O Pietro falou! — Ayla riu baixinho. — Ei, não me coloca no meio! — Pietro protestou. — Eu só falei porque vi você toda vermelha perto dele. — Cala a boca, Pietro! — Helena lançou-lhe um travesseiro. O travesseiro bateu no rosto do irmão, que riu alto. — Acertei! — Pietro zombou. — Helena tá apaixonada! — Se você falar isso na escola, eu juro que nunca mais olho na sua cara! — a irmã ameaçou. — Ai, que medo… — Pietro debochou, mas Ayla interveio, rindo tanto que m*l conseguia falar: — Helena gosta do Gustavo! Helena gosta do Gustavo! Helena se jogou debaixo do cobertor, escondendo o rosto, enquanto Pietro e Ayla gargalhavam. A zoeira durou vários minutos, até a mãe bater levemente na porta: — Crianças! Já é hora de dormir! Quero silêncio! Eles se calaram na hora, mas logo começaram a rir baixinho de novo. --- ## Um momento de ternura Depois das risadas, o quarto foi ficando silencioso. Pietro ainda se mexia, mas Helena já parecia mais calma. Ayla, com seus olhos quase fechando, suspirou: — Mesmo quando vocês brigam… eu gosto de vocês. Porque no fim a gente sempre ri. As palavras simples da irmãzinha tocaram os dois. Pietro puxou o cobertor até o ombro dela e sussurrou: — Eu também gosto de você, pestinha. Helena, ainda debaixo do cobertor, murmurou: — Boa noite, Ayla. Boa noite, Pietro. E, pela primeira vez naquela noite, um silêncio confortável envolveu o quarto. Na sala, Ricardo e Helena também se recolheram, exaustos, mas com a sensação de que, apesar de tudo, ainda tinham um ao outro e a família. O relógio de parede marcava quase 22h quando o último som de risadas infantis desapareceu no pequeno corredor da casa. As crianças estavam finalmente recolhidas em seus quartos, mas a noite ainda não estava completamente silenciosa. Pelo contrário, ainda havia ecos de discussões, cochichos e pequenas revelações que só acontecem quando a família está a sós. --- ## Diálogos e Confissões Ayla, ainda curiosa, sentou-se na beira da cama de Pietro, observando o irmão maior se enrolar nas cobertas. — Pietro… — sussurrou ela. — Você não vai dormir? — Vou, mas… — Pietro respondeu, olhando para o teto e torcendo o cobertor em seus dedos —… às vezes fico pensando em tanta coisa que aconteceu hoje. — Tipo o que? — Ayla inclinou a cabeça. — Tipo… sei lá… o Gustavo, Helena, a briga da mesa de jantar, papai preocupado com as contas… — Pietro suspirou. — Parece que tem sempre algo pesado no ar, sabe? Ayla pegou a mão dele, delicada, com aquele toque infantil que transmitia confiança e carinho. — Mas a gente tá junto. Sempre. Não é isso que importa? — Você tem razão, pequena — Pietro sorriu, sentindo-se mais leve. — Se eu tivesse você e Helena, nada mais importa. Helena, do quarto ao lado, espiava a cena sem que eles percebessem, sentindo uma pontada de ciúmes, mas também alívio ao ver a pequena Ayla aproximando os irmãos com tanto amor. --- ## Pequenas brigas, grandes sentimentos No quarto, Helena começou a falar sozinha, como se fosse um monólogo. — Gustavo… por que ele não olha pra mim? — murmurou, cruzando os braços. — Por que tudo parece tão complicado? Ayla, curiosa, entrou no quarto sem bater, abrindo os olhos com inocência. — Helena… você tá triste? — Não… só pensando, Ayla. — Helena forçou um sorriso, mas Ayla percebeu. A pequena se aproximou, abraçando a irmã mais velha. — Eu sei que você gosta dele. Mas ele pode gostar de você um dia. Quem sabe… Helena riu, meio sem jeito, meio emocionada. — Você sempre sabe o que dizer pra fazer a gente se sentir melhor, não é, Ayla? — É que eu gosto de vocês… e quero ver todo mundo feliz. --- ## Brincadeiras noturnas No quarto de Pietro, ele começou a brincar com uma pequena bola de pano, arremessando-a para o teto. — Aposto que consigo pegar antes que caia! — disse ele, rindo. — Não consegue não! — Ayla respondeu, tentando agarrar a bola também. A brincadeira se transformou em uma pequena competição, cheia de gargalhadas e tropeços, até que Pietro derrubou acidentalmente uma pequena caixa de música que estava na prateleira. Ela caiu no chão, tocando uma melodia suave. — Ai… — Pietro reclamou, olhando a caixa. — Que música bonita — Ayla disse, fascinada. — Parece que ela tá contando uma história… O quarto ficou silencioso por alguns segundos, apenas com a música de fundo e a respiração das crianças. Era um momento de paz em meio ao caos que aquela família sempre enfrentava. --- ## Os pais em diálogo sério Enquanto isso, na sala, Helena e Ricardo ainda conversavam. A lamparina lançava sombras longas nas paredes, e cada gesto parecia carregado de significado. — Ricardo… — Helena começou, com voz baixa —… e se a gente não conseguir dar conta de tudo? — Eu sei, Helena. Eu também tenho pensado nisso — ele respondeu, suspirando. — Mas vamos conseguir. Sempre conseguimos, não é? — Talvez… mas às vezes fico com medo de perder o controle, de não ser suficiente… — Helena abaixou o olhar, sentindo o peso da responsabilidade. Ricardo se aproximou, segurando as mãos dela com firmeza. — Você é suficiente. Nós somos suficientes. Não podemos desistir agora, não quando temos tanto pra cuidar… e pra proteger. A noite parecia mais leve, mas ainda carregava a tensão de dias difíceis, contas atrasadas, trabalho e responsabilidades. --- ## Reflexões de Ayla No quarto, Ayla deitou-se entre Pietro e Helena, abraçando seu ursinho de pelúcia. Ela pensava nas palavras do pai, nas discussões da mãe, nas pequenas brigas com os irmãos e nos momentos de alegria que ainda surgiam mesmo em meio a tudo isso. — Crescer é complicado… — murmurou para si mesma. — Mas… eu sei que a gente precisa tentar. Ela fechou os olhos, respirando fundo, sentindo-se protegida pelo calor da família, mesmo quando o mundo lá fora parecia pesado demais.
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