Entrei no apartamento e fechei a porta devagar.
Deixei a arma no móvel da entrada e encostei a testa na parede.
O silêncio da casa me sufocava.
Porque o barulho do riso de Arthur…
o perfume do cabelo da Bruna na minha camiseta…
eram tudo o que eu queria ouvir e sentir.
Parei na porta, os olhos fixos em nada.
Ela era tudo pra mim.
E agora, eu sabia:
Ou eu acabava com Canário de vez…
ou ele acabava com o que me restava de paz.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Respirei fundo.
E quando abri de novo, me obriguei a sair daquele lugar escuro dentro da cabeça e caminhei devagar pela casa, tentando buscar alguma distração.
Mas bastou passar pela porta do quarto, e tudo escureceu de novo.
Ela estava lá.
Dançando de frente pro espelho.
Calcinha rendada.
Com meu nome estampado.
Me provocando sem saber que eu já tava assistindo.
A poŕra da visão do inferno…
E do céu.
Ao mesmo tempo.
Ela sabia me deixar louco.
Cäralho.
Sério mesmo.
Meu nome naquele räbo gostoso?
Aquilo foi de outro mundo.
Comer ela de quatro, com “Delegado Ávila” me encarando de volta, estampado na renda fina…
foi do cäralho.
Literalmente.
Mas depois daquele primeiro round, de ter ela toda minha, da forma mais suja e mais linda possível…
eu sabia que precisava conversar com ela.
Falar sobre a nossa mudança.
Sobre o que vem pela frente.
Mas não… tudo.
Não ainda.
Nem ela aguentaria.
Nem eu.
Me aproximei devagar, e ela virou pra mim com aquele sorrisinho no canto da boca, como quem sabia que tinha vencido.
- Vai me olhar assim toda vez que eu vestir isso? - ela provocou.
Dei um meio sorriso, cansado, mas com o coração latejando por ela.
- Não.
Tem dias que vou te f***r tão forte que você nem vai lembrar o nome que tá escrito.
Ela riu, mas veio até mim e tocou meu rosto.
Aquela mão pequena…
me deu mais paz que qualquer colete.
Qualquer arma.
Qualquer patente.
- Tá tudo bem? - ela perguntou, com aqueles olhos que liam minha alma.
- Ainda não.
Mas vai ficar.
E ali, por alguns segundos…
o tempo parou.
A missão ficou de lado.
A guerra ficou em pausa.
Porque ela…
era o meu abrigo.
Mas eu sabia.
Logo mais, o sistema viria cobrar a conta.
E nessa mesa…eu posso perder tudo.
Só não ela.
Por ela, eu jogo sujo se for preciso.
Ela ainda estava ali, colada no meu peito, com o cheiro do creme corporal misturado ao calor do nosso sexo ainda grudado na pele.
Mas meu corpo, que estava calmo… já não estava mais.
Minha cabeça fervia.
Ela passou os dedos no meu ombro, devagar, como se percebesse que algo em mim havia mudado.
- Você tá estranho.
Suspirei.
- Tô cansado.
- Só cansado?
Demorei pra responder.
Porque não era só cansaço.
Era medo.
Era raiva.
Era o instinto de proteger alguém que não sabia se queria ou podia ser protegida.
- Bruna… - falei baixo, passando a mão pelos fios do cabelo dela - A gente vai precisar mudar algumas coisas.
Ela me olhou desconfiada.
- Como assim?
— *“Vamos nos mudar desse apartamento não só por conforto.
Mas por segurança.
Por estratégia.
Ela se afastou um pouco.
Não fisicamente, mas com o olhar.
Já tava armando os escudos.
- Você está me escondendo algo?
- Sóproteção. Tem diferença.
Silêncio.
- Arnaldo, meu chefe, e praticamente meu segundo pai, autorizou dois homens de confiança pra fazerem a segurança de vocês. Eles estão sempre por perto.
Discretos. Mas estão. E pra manter essa guarda sem em alerta, sugeriu que nos mudassemos para meu apartamento na Glória.
Ela franziu a testa.
- Você acha que eu tô em perigo?
Olhei bem dentro dos olhos dela.
- Eu acho que você é ex mulher de um homem perigoso.
E agora…
tá se envolvendo com outro mais perigoso ainda.
Ela olhou assustada, mas não saiu de perto de mim.
Então continuei.
- A gente vai precisar ser cuidadoso.
O Arthur não pode ser exposto.
Nem você.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
- E você, Marcelo?
Vai se proteger também?
Respirei fundo.
Abracei ela de novo, como se aquilo fosse me impedir de desmoronar.
- Agora que tenho vocês dois…
eu tenho pelo que lutar.
Mas eu não sei se sei lutar sem me machucar.
Ela me apertou forte.
E ficamos por alguns instante assim grudados.
Fui pro banho.
A água quente sempre foi meu jeito de me calar.
De lavar o sangue, o suor e os pensamentos que me quebravam aos poucos.
Ela ficou parada na porta do quarto por alguns segundos.
Vi nos olhos dela a vontade de perguntar…
Sobre minha mão, sobre o dia, sobre o peso nos meus ombros.
Mas eu desviei.
Não queria.
Não hoje.
Não ia contar sobre a briga.
Nem sobre Canário.
Nem sobre a poŕra da proposta nojenta que ele cuspiu com aquela voz suja de chantagem.
Entrei no box e enfiei a cabeça debaixo da água.
Fiquei lá.
Em silêncio.
Afogado nos meus próprios demônios.
Fechei os olhos.
E as cenas vieram como tapa.
Canário me provocando.
Eu perdendo o controle.
O olhar dele quando falou o nome dela.
A poŕra da raiva, do ciúme, da impotência.
Respirei fundo.
Forte.
Como se desse pra empurrar tudo aquilo pelo ralo.
Quando saí do banho, a casa estava em silêncio… mas com cheiro de lar.
Aquele cheiro que eu nunca soube nomear, mas agora reconhecia:
era ela.
Vi Bruna na cozinha, mexendo em alguma panela.
Cabelos soltos, corpo relaxado…
e aquele sorriso.
Aquele sorriso que eu capoto facilmente.
Ela olhou por cima do ombro, e sorriu.
- Tá pronto já, só mais um minutinho…
- Tá ótimo. - respondi, rouco, cruzando os braços enquanto a observava.
Não tocaria mais naquele assunto hoje.
Só por essa madrugada…
Eu ia tentar relaxar.
Fingir que o mundo não estava desabando lá fora.
Fingir que aquele apartamento era só nosso.
E que ela estava ali porque escolheu estar.
Porque o sorriso dela me dava algo que o distintivo nunca deu:
paz.