Cicatrizes da Alma

3245 Palavras
Aklon e Elora saíram a caminhar pelo campo de treinamento enquanto conversavam sobre últimos acontecimentos. Os dois percorreram a maior parte do caminho em silêncio, devido aos últimos acontecimentos, o jovem príncipe não falava muito. — Você sente falta dela? — perguntou Elora apanhando uma flor. — Não há uma manhã sequer que eu não desperte sem chamar seu nome. Lembro-me quando ela foi curada da febre verda naquela manhã de outono, no entanto, tão pouco ficou comigo depois do ocorrido — respondeu o príncipe com tristeza no olhar. — Mas o que me deixou mais perplexo foi o fato dele ter se casado menos de um ano depois de sua morte e em seguida ter outro filho! Elora olhou para Aklon e fez indagações típicas de uma criança de sua idade. — Existem certas coisas que nós queremos compreender, mas de certa forma, os adultos não nos revelam por acharem que somos jovens demais. Só que há coisas que eu queria muito saber, alteza — respondeu Elora olhando para Aklon. — Infelizmente, minha estrela, para os adultos não passamos de meros pedaços de gente que não possuem a capacidade de pensarem por si só! Isso me irrita às vezes, e faz com que eu me sinta um inútil — respondeu o príncipe. — Então você não gosta dele? Do Regen? — ela perguntou, mas ao mesmo tempo pensou se não havia sido ousada demais, já pergunta de Elora fez com que Aklon ficasse em silêncio por quase um minuto. — Disse algo que possa ter soado como ofensa, meu senhor? Minha pergunta soou para ti como um desrespeito? — indagou a menina. — Nada disso — Aklon quebra o silêncio. — Na realidade ele traz alegria ao meu coração, pois os deuses me propiciaram o prazer de ter um irmão. Embora eu não tenha mais a minha mãe por perto, Regen preenche o vazio que ela deixou! E também ele é bem mais parecido com o meu pai do que eu — concluiu Aklon com um singelo sorriso. — Regen tem os cabelos e os olhos de seu pai, mas o senhor é puramente a princesa Lídia, que os deuses a tenham no paraíso! — disse a menina com um sorriso sereno. — Sim! Nisso você tem razão! Regen tem os olhos e os cabelos do meu pai, sem dúvida será tão forte quanto ele. Mas não gosto da maneira com que meu pai o trata, é rígido e às vezes um poço c***l! Felizmente nós dois temos um ao outro, assim podemos obter apoio mútuo! — mais uma vez o príncipe sorri segurando na mão delicada, porém forte de Elora. Regen foi fruto do segundo casamento de Lars com uma jovem nobre da cidade de Clessis chamada Denisia. Após a morte de Lídia, que fora causada por uma queda de seu cavalo, o príncipe não passou muito tempo sozinho, um depois ele se casou e meses depois nascia o primeiro fruto dessa união, o jovem príncipe Regen Andros Alderis. Mas o destino fora um tanto c***l ara com o príncipe, pois ao completar um ano de casado ele perdeu a segunda esposa para a picada de um animal venenoso. O Príncipe Aklon e Elora se despedem, pois, a garota diz que já está na hora de sua aula de leitura. O príncipe concorda dizendo que quer que sua estrela, além de forte, também se torne uma mulher sábia. Antes de ir para junto de Magnus, onde estava naquele período estudando astronomia, Aklon decidiu ir até seu pai para se certificar de que estava tudo bem com ele. Ao chegar ao seu gabinete, Aklon o vê gritando com o pequeno Regen de forma c***l. — Faça com que esse menino pare de chorar e tire-o daqui mulher! — esbravejou Lars ordenando a sua serva. — Eu já não suporto mais toda essa tensão, essa pressão sobre os meus ombros! Lars olha para a porta e vê Aklon parado olhando diretamente para ele. O príncipe sorri para seu filho como se estivesse aliviado em vê-lo. A serva sai depressa carregando o pequeno Regen de apenas três anos em seus braços e Aklon apenas observa, mas nada diz. Então ele aproxima-se de seu pai e não perde tempo em criticar suas atitudes com seu irmão mais novo. — Por que o trata assim? — perguntou o jovem príncipe. — Por que age com ele como se fosse culpado por suas dores? Ele não tem culpa de nada, não pediu para nascer! — Ninguém nasce ou deixa de nascer sem a permissão dos deuses, meu filho! E muitas vezes, alguns nascem exatamente para essa finalidade, serem culpados do sofrimento dos outros — respondeu Lars batendo seu punho na escrivaninha. — Ele não tem culpa da morte dela, sabia? — disse Aklon chamando a atenção de seu pai que olha para ele fúria. — Ele não tem culpa da morte de nenhuma das duas! Foram os deuses, os mesmos deuses a quem todos tanto veneram que determinaram isso! Eu não sei qual o propósito deles para mim, mas eu não vou culpar ninguém pelas mazelas impostas a nós por eles e nem você deveria fazer isso! Lars fecha uma de suas mãos e por instante pensa em agredir seu filho, mas algo nos olhos de Aklon o fez mudar de ideia. Ele então lhe dá as costas, mas em seguida olha para o menino e sorri. — Eu não consigo sentir nenhum desprezo por você, meu filho! Além de ser muito parecido com sua mãe, vejo em você o brilho dos deuses! Embora eu não os ame como antes, eles sempre acabam regendo as nossas vidas como bem entendem! — Lars responde ao mesmo tempo em que enche uma taça com vinho. — Por que não se senta aqui comigo enquanto fazemos umas brincadeiras de pai e filho? — Não! Eu vou ver como está o meu irmão e logo em seguida devo estar com Magnus, ele está me instruindo para compreender os mistérios da astronomia! — respondeu Aklon com certo desprezo pelo pai. —Agora me dê licença, pois eu preciso ir. E veja se aprenda a ser mais amoroso com Regen, pois um dia, assim como aconteceu com minha mãe e com Denisia, você também irá partir e depende de você qual lembrança que Regen terá a seu respeito! Aklon saiu da presença de seu pai, deixando o príncipe pensativo e triste, pois ele sabia que um forte sentimento unia Aklon a Regen e que na verdade, ao maltratar um, ele maltratava os dois. Aklon caminhou pelo corredor do palácio em direção aos aposentos de seu irmão quando se depara com Timo montado em um cavalo feito de madeira. O menino ao ver seu primo mais velho, largou o brinquedo e correu em sua direção dando-lhe um caloroso abraço. Aklon apenas sorriu e Timo deixa o primo para retornar à sua brincadeira. O jovem de cabelos negros segue seu caminho pensando no porquê de tudo parecer tão perfeito no início da vida, mas com o passar dos anos as coisas se tornam cada vez mais complicadas, bem, ele já teria mais uma de suas perguntas difíceis para questionar seu mestre. ♥♥♥ Depois de ter assinado todos os tratados daquele dia e ter ouvido os questionamentos dos chefes das cidades vizinhas, Angus finalmente pôde ir para seus aposentos e conversar com sua esposa com mais tranquilidade. Ele também aproveitou para brincar um pouco com seu filho, já que seu tempo com eles era bastante limitado e também por que logo mais à noite seria celebrado o quinto aniversário do herdeiro do trono. Pensando nisso os reis decidiram promover uma festa dentro do palácio apenas para convidados ilustres e alguns da alta nobreza. Chegando ao seu quarto, o rei ficou admirado com a beleza de sua esposa. Ele a abraça e a beija nos lábios elogiando-a. — Como pode você se tornar mais linda a cada dia, minha rainha? Não há um só dia em que eu não agradeço aos deuses por ter você ao meu lado — disse o rei sorrindo e expressando a intensidade de seu amor. — Eu também agradeço todos os dias por você ter me escolhido, meu senhor e rei e, também por terem me dado à graça de poder lhe dar um filho, aquele que terá sobre sua cabeça a poderosa coroa de Slat! — a rainha respondeu caminhando em direção à penteadeira. — Timo me disse mais cedo que encontrou Aklon nos corredores do palácio, ele o abraçou e disse que adora o primo, pois sempre que o vê é como se uma luz brilhasse sobre ele — disse o rei sorrindo. — Mas o que me intriga é o meu irmão. Como Lars aguenta tanto sofrimento assim? Perder duas esposas em um período de cinco anos! Por que os deuses lhe imputaram tamanho sofrimento? — essa foi a indagação do rei que o fez olhando a esmo. A rainha olhou de volta para o seu marido como se não tivesse entendido sua pergunta. Ela volta-se para ele novamente e decide expressar com palavras tudo que havia em seu coração. — Eu já penso que os deuses sabem o que fazem! Não temos como saber se o que aconteceu com Lars seja injusto — a rainha respondeu voltando-se novamente para o espelho. — Do que você está falando, Neres? Por acaso insinua que meu irmão é uma pessoa r**m? Não entendi essa sua posição! — perguntou o rei aproximando-se de sua esposa. A rainha levantou-se e apresentou suas razões ao marido. — Eu falo de Aklon e da forma com que ele está sendo criado. Mesmo que Lídia esteja morta, eu sempre soube que ela tinha inveja de nosso filho, não se conformava por eu ter dado um herdeiro a meu senhor. No fundo ela sonhava que Aklon se tornasse rei, mas os deuses decidiram algo diferente e isso a irritava! — Neres respondeu sem hesitar. — E aonde você quer chegar com essa insinuação, Neres? Por que diz isso somente agora?! — o soberano perguntou sem saber o motivo de Neres está agindo daquela forma. — O que eu quero dizer é que Lars partilha dos mesmos sentimentos que a primeira esposa! Ele também deseja que Aklon e não Timo seja o rei de Slat, você me entende, Angus? Ele sabe que seu filho é adorado por toda Slat, aclamado por todos sendo o rei perfeito para qualquer país! Forte, sábio, poderoso! — Angus ouvia a esposa sem nada dizer. — Você deve ter percebido a diferença entre o amor do povo por Aklon e pelo nosso filho, veja nos aniversários dos dois! Toda Slat vem festejar suas primaveras enquanto a Timo somente uma pequena parcela o fazem, mas não por amor a ele e sim por causa da coroa! Se Aklon estralar os dedos, ele tira a coroa de Timo e o pior de tudo é que seria com o apoio da população! — E o que você sugere que eu faça? Por acaso quer que eu os expulse de Kels? Do lar que também é deles por direito? — refutou o rei esmurrando a parede. A rainha fica em silêncio e se aproxima de seu marido devagar. Ela caminha em sua direção a passos lentos e o abraça por trás apoiando a cabeça em suas costas largas e fortes. — Você sendo o rei, poderia fazer isso sem se preocupar com a opinião dos outros, meu amor, pois o país é seu! Porém estamos falando de Aklon — disse a rainha, mas dessa vez mais calma. — E o que uma criança de doze anos seria capaz fazer contra nós? Que perigo ele representaria? — Angus indagou a esposa, que se virando de frente para ela. — Agora ele não representa perigo algum, mas sendo influenciado pelo pai do jeito que está, no futuro pode sim representar um grande perigo — ela responde acariciando os cabelos dourados do rei. — E o que você sugere que eu faça? — mais uma vez o rei perguntou. — Torne a ser para ele o que você era antes do nascimento de Timo! Volte a influenciar em sua educação para que você tenha controle sobre ele. Antes você o educava, estava com planos de que um dia ele tornasse o rei, mas depois que nosso filho nasceu você o abandonou e esse pode ter sido seu maior erro! — a rainha encarou o rei de frente — tome novamente as rédeas da situação, Aklon é filho de Lars, mas você é o rei dos dois! — a jovem rainha aconselhando seu marido. Segundo ela, a persuasão era a única arma a disposição de Angus. — Então você quer que eu passe a dar mais atenção a Aklon, é isso?! — Sim — ela respondeu abrindo um largo sorriso — mesmo que para isso você tenha de dar menos atenção a seu filho, mas pensa que será para proteger o futuro dele! É o melhor a se fazer e quando Aklon estiver na idade de se casar, você encontra uma princesa para ele e o envie para bem longe daqui, assim Lars realiza seu sonho de ser pai de um rei e nosso Timo estará livre dessa ameaça e será amado pelo povo de Slat! — ela falou como se não fosse à mesma de antes. — E tem mais, tome cuidado com Remo! O rei olha espantado para Neres achando que sua esposa já está indo longe demais em suas insinuações. — Remo? Mas que tipo de cuidado eu deveria ter para com meu oficial de maior confiança? Ele jurou lealdade a mim e ao reino! —retrucou Angus discordando de Neres. — Se existe uma pessoa a qual Remo é leal, essa pessoa é Aklon! Ele veio para cá por ele, o adora, o idolatra! Remo não hesitaria em m***r até mesmo você para defender os ideais do príncipe Fated! — ela respondeu com uma expressão em seu rosto como quem sentia algum tipo de inveja ao se referir a Aklon. O rei Angus deu as costas à esposa e caminha em direção à porta, mas antes de sair ele a responde de forma um tanto descrente. — Eu não posso dizer que acredito em tudo o que você me disse, mas também não posso dizer que seja invenção de sua cabeça. Porém prometo pensar em tudo e também observar as coisas! Vou fazer o que você me disse e dar mais atenção ao nosso sobrinho! Te vejo logo mais na festa e não demore com nosso menino! Neres ficou feliz em ver que sua semente foi bem aceita no coração de seu marido. Ela temia que um dia Aklon pudesse roubar o posto que pertencesse a seu filho por direito, então, depois da conversa com o rei, ela seguiu sorridente e satisfeita, mas decidiu não pensar mais naquilo e foi se preparar para as comemorações do aniversário de seu amado filho.             ♥♥♥ Poucas horas depois todos estavam reunidos na sala do trono para as festividades daquela noite. Poucas pessoas de fora do país compareceram, mas tudo estava muito luxuoso. Elora e Aklon não paravam de se olharem e as crianças dos nobres brincavam enquanto os adultos comiam, bebiam e dançavam alegremente. ♥♥♥ Naquela mesma noite em Askhalon, a rainha Zaila recebe a visita de Frei depois de alguns anos. Isso porque ela havia sido desposada pelo rei Itrhy de Ulfhild, uma ilha que ficava a sudoeste de Vinyah. Itrhy era muito poderoso, porém, acometido pela febre verda, ele acabou não resistindo e veio a falecer. Por conta do casamento de Zaila, Frei decidiu se afastar retornando apenas três anos depois. — O tempo passou, mas você continua bela, grande rainha! — disse Frei surgindo por entre as sombras. — Você nunca perde essa mania de entrar em meus aposentos de forma sorrateira, não é mesmo? Mas me diga uma coisa, por que demorou tanto em vir me ver, se meu falecido marido morreu há dois nós? — perguntou a rainha que continuou sentada em sua cama. — É! É difícil levar um chute no traseiro e fazer de contas que nada aconteceu, não é mesmo? Ademais, você deixou bem claro em nosso último encontro que nunca mais queria olhar na minha cara de novo, aliás, eu nem sei o que estou fazendo aqui! — Frei respondeu caminhando devagar em direção da porta, mas Zaila levanta-se da cama puxando-o de volta. — Não, Frei! Por favor, não vá! Fique aqui comigo, eu estou precisando de você! — a rainha implorou enquanto o abraçava. — Se me lembro bem, você disse que não precisava mais de mim, estou errado? E ainda mais agora que está mais rica e poderosa, já que além de ter herdado toda a fortuna do rei de Ulfhild… a propósito, como ele está? O herdeiro de dois tronos, seu filho? Zaila olhou para Frei e sorri serenamente. Os dois sentados na cama se olham tentando encontrar um no outro as pessoas que um dia ambos foram. Mas no fundo sabiam que jamais os encontrariam novamente. Zaila aproxima-se de Frei e dá um beijo em seus lábios, mas ele não esboçou qualquer reação, o que chamou a atenção da rainha. — Você também não mudou nada por fora! Continua bonito, charmoso, mas por dentro mudou bastante! — questionou a rainha afastando-se de Frei. — Não fui eu quem mudou Zaila! Você me mudou, você disse que não precisava mais de mim e que eu poderia desaparecer da sua vida e foi isso o que eu fiz, mas uma coisa não mudou, meu amor por você! Zaila falou com os olhos marejados, Frei ficou apenas observando-a. —Mesmo que você nunca tenha dado valor a isso — o caçador prosseguiu — eu tenho e sinto um grande carinho por você, só que eu estou procurando um meio de enterrar isso dentro de mim, e foi por esse motivo eu vim aqui! — ele respondeu levantando-se da cama. Zaila olhou para Frei e começou a chorar discretamente. Ele volta e se assenta ao seu lado e mesmo tentado resistir, acaricia seus cabelos suavemente. — Você não sabe as dificuldades que tive de enfrentar durante os três anos que esteve longe. A perda de meu marido foi o menor dos meus problemas. As últimas colheitas foram um fracasso e meu povo começou a passar fome. Eu tive que me casar com Itrhy, caso contrário meu reino cairia e eu fiquei na iminência de ver tudo o que meus antepassados construíram com tanto esforço desabar diante de mim! — ela respondeu se jogando na cama de bruços. Frei a observou, mesmo com as lágrimas de Zaila, o caçador não se comoveu. Para ele aquilo não passava de lágrimas de crocodilo.  — Quando Kiryan nasceu, eu pensei que finalmente as coisas haviam se ajeitado, mas logo depois aquela maldita febre veio e levou meu marido — Zaila prosseguiu. — Você não sabe quanta falta me fez ter você ao meu lado, Frei! Minha salvação foi meu filho, ele me manteve viva! Mesmo tendo apenas dois anos de vida, ele salvou a minha! Frei tocou o rosto da bela rainha e depois de acaricia-la, ele a beijou com paixão. Os dois então se entregaram ao desejo que ardia em seus corações desde o momento em que se conheceram. Frei fez explodir em forma de desejo o amor não correspondido que sentia por Zaila.  
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