O Jovem cavaleiro Astreas permaneceu prostrado diante da rainha Zaila, enquanto ela dava as devidas instruções a aquele que seria o substituto de Gaspar como o regente de Ulfhild. As perguntas de Zaila ao cavaleiro demonstrava a força daquela valente e imprevisível mulher.
— E como andam as investigações a respeito dos desvios de recursos do qual Gaspar é suspeito, Rogon?! — perguntou a rainha com tom de desconfiança— eu sei que aquele velho repugnante vem desviando o ouro que Estakhr tem enviado para suprir Ulfhild!
— Infelizmente suas suspeitas estão corretas, minha rainha. — respondeu o cavaleiro. — Há temos desconfio que Gaspar houvesse desviado de tudo o que Estakhr envia para Ulfhild, cerca de quarenta por cento do total e a minha suspeita foi confirmada. Infelizmente Gaspar é um corrupto.
Zaila levanta-se seu trono e começa a andar de um lado para o outro bufando de raiva e indignação.
— Miserável! — disse ela enquanto respirava fundo. — Como ele ousa a roubar a mim e a Estakhr dessa maneira? E ainda por cima, incitar o povo de Ulfhild contra mim!
Enquanto a rainha falava, Astreas e Rogon permaneciam calados apenas ouvindo o que a rainha dizia. Então ela se volta para os dois e lhes deu as devidas ordens.
— A partir de hoje, Rogon, eu o condecoro como conselheiro real e representante de Askhalon em Floyen — disse a rainha deixando Rogon espantado.
— Isso me deixa muito honrado, majestade. — O cavaleiro responde aceitando sua promoção com satisfação — prometo fazer o possível, dar a minha vida se necessário for, para horar a coroa de Estakhr.
A rainha aproximou-se do cavaleiro e tocando seu queixo ela diz olhando-o de forma imponente.
— E é exatamente isso que eu espero de você, Rogon, que sejas leal à coroa e Estakhr, levando aquele corrupto do Gaspar à condenação que ele merece. Aquele verme verá o quão caro custa enganar a rainha dessa maneira. E quanto a você, rapaz — Astreas levanta a cabeça com certo espanto — você mesmo — a rainha se aproxima do jovem, que novamente abaixou a cabeça — eu o condecorarei como capitão da guarda de Estakhr, desde que você siga os passos de seu mestre. Agora, Rogon — disse ela retornando para o trono. — Aproxime-se e torne-se o que o destino escreveu para que se tornasse.
Zaila toma a espada do rei e erguendo-a, consagra o cavaleiro como seu braço direito e representante oficial da coroa de Estakhr em Ulfhild. Astreas apenas observou tudo e demonstrou estar feliz pela promoção de seu, além de amigo, mestre e mentor.
— A partir de hoje — disse a rainha erguendo sua espada — você será conhecido como Rogon, o Leão de Estakhr!
Frei, que assistia tudo próximo a uma coluna da sala do trono, olhava para Astreas e via nos olhos do jovem, um fogo que só havia visto antes no olhar dos poderosos guerreiros de Zuhluh, um reino com grandes homens de pele morena situado nas terras de além-mar. “Zaila, deve tomar cuidado com esse jovem”, dizia o amante da rainha, expressando ter tido um mau presságio, “acho que ela está olhando para o leão errado”, Frei conclui, deixando a sala do trono logo em seguida.
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Algum tempo depois, no palácio de Kels, todos estavam empenhados para a festa de décimo segundo aniversário do príncipe Aklon, agora o terceiro na linha de sucessão. Todos corriam de um lado para o outro e Lars não estava muito conformado pela aproximação súbita de seu irmão com seu filho. Lars sempre procurava Remo para reclamar que de todos do palácio, o que menos tinha contato com Aklon era exatamente ele, seu pai.
— Alteza — disse Remo sorrindo — o senhor não acha que pode estar com ciúmes do príncipe?
— Ciúmes? Não se trata de ciúmes, Remo — Lars responde levantando-se repentinamente — ele quase não tem tempo para mim. Na vida do meu filho, do meu primogênito, só existem Magnus, Angus, o templo dos deuses. E eu? Onde eu fico nessa história? E o irmão dele? Eu quero ser o pai dele, Remo, eu quero ser pelo menos o pai dele, mesmo que eu não seja seu educador, nem seu mentor, eu só queria ao menos ser o pai!
Lars sentou-se novamente e começou a chorar. Mas o que os dois não sabiam era que o rei Angus ouviu toda a conversa atrás das plantas mais densas do jardim. O rei fechou os olhos, demonstrando sentir remorso por estar afastando um filho de seu pai, mas o temor de que Aklon pudesse vir a se tornar um homem poderoso a ponto de ameaçar o trono que um dia seria de seu filho, ele decide fazer vista grossa e retorna para a sala do trono, onde mais tarde receberia o sobrinho mais velho para uma audiência requerida pelo jovem.
Lars continuou conversando com Remo e o chefe da guarda real procurava dar um alento ao Duque com palavras amigáveis. Pouco tempo depois, ele já parecia mais calmo.
—Logo tudo isso vai passar, meu senhor, pois Aklon sabe quem é o seu pai — disse o cavaleiro tocando o ombro do duque de forma amistosa. Lars respondeu com um sorriso e os dois seguem para os estábulos.
Na sala do trono, Aklon apresentou-se diante de seu tio para a audiência requerida por ele mesmo. No olhar do rei podia-se notar grande alegria ao olhar no rosto do sobrinho, deixando a rainha Neres sem entender a expressão de seu marido.
— O que o traz até mim, meu amado sobrinho? Sendo que hoje é o dia de seu aniversário e por tanto, tudo o que pedir lhe será concedido. — disse o rei com um largo sorriso.
— Não me tente, meu tio — respondeu Aklon com um sorriso, retribuindo a gentileza — pode ser que eu caia e peça aquilo que talvez esteja fora de seu alcance.
Angus e Neres se entre olharam e voltaram seus olhares para o príncipe. Aklon soltou uma gargalhada, mas logo depois se recompôs. Então ele foi logo ao ponto dizendo o que de fato o levou ali.
— Agora, meu tio — disse ele — eu gostaria muito que Elora, filha de Remo, fosse treinada como guerreira de Slat!
— Mas por que isso agora, Aklon? — perguntou a rainha depois de um silêncio súbito tomar conta do local — que eu saiba certamente Jensen não iria querer e não irá permitir que sua única filha seja treinada para ser uma guerreira. Elora merece um destino muito melhor.
— De certo, minha tia — Aklon responde com um olhar frio que deixou Neres arrepiada. — Mas devo lembra-los de que um dia, Elora foi dada a mim como um presente, isso faz de mim alguém que pode decidir o futuro dela e não sua mãe!
Angus olhou de um lado para o outro passando a mão na cabeça e sem ter o que responder, enquanto Neres insistia em obter argumentos que inferiorizassem o pedido de Aklon e a discussão foi só aumentando.
— E quem você pensa que é para tirar os direitos de uma mãe, Aklon? — perguntou a rainha em tom de arrogância.
O rei temendo que a situação fugisse ao seu controle tomou à palavra, encerrando pôr fim a discussão.
— Já chega Neres! — exclamou o rei, que em seguida voltou-se para seu sobrinho — e quanto a você, Aklon, por que decidiu isso agora? Qual seria o seu interesse em fazer de Elora uma guerreira? Por acaso ela não lhe seria mais útil como futura esposa? — o rei pergunta e em seguida sorri moderadamente.
A rainha balançou a cabeça de forma negativa, ela m*l podia acreditar que o rei havia dado a razão para Aklon.
—Eu sei quem ficará com a razão, senhor meu marido por isso eu peço permissão para me retirar! — o rei assentiu e fez uma expressão como quem não gostou da atitude da rainha. Aklon reverenciou sua tia, porém nada disse então ele e o rei voltaram a conversar.
— Eu sinto que um dia, meu tio, Elora irá elevar esse reino a um patamar de força jamais imaginado nem mesmo pelo grande Aklon, o Justo, que encerrou a guerra continental há cem anos. Eu vejo nela, na minha estrela, uma aura de força que nem mesmo o homem mais forte atualmente consegue superar. — disse o jovem príncipe em um tom que inspirava confiança.
O rei Angus levantou-se de seu tono e caminha devagar na direção do sobrinho e com a mão no queixo, ele dá sua opinião diante da visão de Aklon.
— Eu sei que você é especial, que até mesmo esteve entre os deuses, mesmo que em sonhos. Eles falaram com você, não sabemos o que, mas você é especial para eles. Agora me responda uma coisa, foram eles quem lhe disse isso? Que Elora se tornará uma guerreira? — perguntou o rei.
— Não! — respondeu o jovem — esse destino sou eu quem estou traçando para ela, por ver seu potencial, sua capacidade de surpreender a todos, até mesmo a mim em força. Agora, terei meu pedido atendido? — o jovem perguntou esboçando um lindo sorriso.
O rei retorna para seu trono e após fazer caras e bocas, ele responde ao sobrinho.
— Por mim tudo bem, mas você sabe que nesse caso não depende só de mim. Remo e Jensen são os pais de Elora e pelas leis de nosso país, os pais são os detentores absolutos da vida de seus filhos enquanto eles ainda são crianças — o rei respondeu e em seguida abriu um riso de canto de boca.
Angus não percebeu que Lars estava atrás de uma das colunas de sustentação do palácio e ouvia a conversa do rei como o seu filho. Surpreendendo aos dois, o Duque se revela de uma vez fazendo cobranças ao irmão mais velho.
— Então por que você não cumpre as leis que diz tanto defender e me devolva o direito de educar meu filho, irmão? — Angus e Aklon olham para trás e vêm Lars entrando na presença do rei que ficou bastante desconcertado diante da cobrança do Duque de Bremen.
— E quem disse que estou lhe tirando seu direito de pai, meu irmão? — o rei perguntou caminhando meio desconcertado olhando na direção de Lars, mas ele também se sentia péssimo ao olhar para Aklon e ver nos olhos do menino a mesma indagação de seu pai.
— Eu apenas procuro me aproximar de meu sobrinho mais velho, já que ele tem um significado importante não só para a família real, mas para todo o povo de Slat. — O soberano prosseguiu. — Eles o adoram, irmão e querem vê-lo sempre ao lado do rei, mas ele é seu filho e isso eu não posso mudar, esse direito eu não posso tirar de você!
Lars olhou nos olhos de seu irmão e sem esboçar reação, ele apenas responde a suas colocações.
— É bom que você nunca se esqueça de que Aklon é meu filho, que foi gerado por mim e por tanto, é o meu sangue que corre em suas veias! — o Duque respondeu entredentes.
Lars segura na mão de seu filho e o chama para ir com ele até seus aposentos a fim de prepara-lo para a festa de logo mais. Mas antes de sair da presença do rei, Aklon profere palavras que deixaram tanto o rei quanto seu pai, atônitos.
— Agradeço por conceder-me o que pedi meu rei. — disse ele reverenciando-o — quanto à lady Jensen, que ela não se esqueça de que Elora é minha, seu marido a deu a mim e por tanto, eu decido seu presente e seu futuro.
Lars sentiu seu corpo estremecer, mas não deixou transparecer seus sentimentos, igualmente, Angus apenas assentiu e continuou assentado em seu trono. Aklon seguiu com seu pai e logo a noite caiu, dando início à tão esperada festa.
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Tudo ocorreu conforme o planejado e o soberano de Kelonnia fez questão de comparecer, já que o maior sábio daquela terra gostaria de conhecer o tão famoso príncipe, o menino prodígio que era bastante conhecido entre os mais sábios do continente.
— Mas ele ainda é uma criança — dizia Lars com orgulho de seu filho.
— Ele pode não ser conhecido dentre todos, mas na esfera dos magos seu nome já é grande. Ele esteve com os deuses e isso é privilégio de poucos. — Zahir, o homem mais sábio de Kelonnia, falou elevando ainda mais a fama de Aklon.
A conversa fluía e então o rei decidiu chamar Remo para um local mais reservado e contar a ele a respeito do pedido de Aklon com relação à sua filha. O chefe da guarda ouviu tudo atentamente e como já era esperado por Angus, Remo não se opôs ao pedido do jovem príncipe confirmando que Elora lhe fora dada como um presente e sendo assim, eles, os pais, perderam o direito sobre ela.
A festa durou toda a noite e quando o dia já estava amanhecendo, os convidados começaram a deixar o palácio, exceto o rei de Kelonnia, que iria descansar ali mesmo, antes de retornar para sua terra natal. Aklon caminhou até à porta do palácio e após descer apenas um degrau, ele olhou fixamente para o nascer do sol, o que chamou a atenção de Magnus e foi ter com ele. O sábio via que o jovem olhava atentamente para o sol que nascia e era como se ele estivesse em transe. Então, Aklon olhou para Magnus e o que ele diria a seguir, deixaria o mago perplexo.
— Veja Magnus, como sobe o Sol vermelho! Sangue será derramado em breve sobre chão de Slat! — ele falou como quem recitava um poema sombrio.
Magnus olhou para o príncipe e assustado ele lhe faz a seguinte indagação.
— Como o senhor esteve com os deuses, por acaso esse seria um sinal dos mesmos para vossa alteza?
— Os deuses podem até nos alertar do que está por vir, Magnus, mas cabe a nós o desfecho de tais acontecimentos, uma vez que o desenrolar dos caminhos que nossa vida percorre, não depende especificamente dos deuses e sim de nós mesmos. — respondeu o pequeno sábio olhando friamente para o velho e com firmeza.
— Então, o senhor não atribui aos deuses os acontecimentos de nossas vidas, senhor? — Magnus perguntou bastante tenso, pois nunca havia visto tamanha frieza e falta de temor de um ser humano para com os deuses.
— Os deuses não possuem esse poder, Magnus. Eu sei de suas capacidades, mas também conheço os seus limites e afirmo. — Aklon olha para Magnus com olhar sereno. — Foi pelo fato tê-los conhecido, que não confio meu destino a eles. Agora, peço que comece imediatamente a selecionar jovens capacitados e apresse a construção da Academia de Ciências de Kels, pois ela será de grande valia para nós quando os dias negros vierem.
Aklon desce a escadaria da entrada do palácio e segue em direção ao templo de Janus. Magnus apenas observa a postura daquele jovem obstinado e que a cada dia demonstrava uma inteligência inimaginável. O mago retorna para o palácio e procura providenciar o mais depressa possível o que seu príncipe o havia pedido.
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Na casa de Remo, o chefe da guarda real procurou sua esposa para falar a respeito do pedido de Aklon ao rei. Mas antes, ele leva Elora para o quarto e a coloca em sua cama, pois a garota havia passado a noite inteira acordada conversando com os príncipes. Ao chegar à sala, ele sorriu para sua mulher e foi logo ao que interessava, mas a reação de Jensen não poderia ser diferente.
— Nunca! — ela exclamou — não foi para isso que tive a minha filha.
— Jensen, nós demos nossa filha ao Aklon como um presente. Você precisa entender isso! — dizia Remo tentando apaziguar a mente da esposa.
— Você deu nossa filha como se fosse um objeto a um m****o da sagrada família real. — prosseguiu Jensen com a voz bastante alterada. — Você não pediu a minha opinião, simplesmente a levou e a entregou ao príncipe, mas, agora ele quer usar o presente, transformando nossa filha, a minha filha em um de seus soldados! — Ela conclui com lágrimas nos olhos.
Remo leva as duas mãos à cabeça e tenta convencer a esposa, mas ela não queria ouvi-lo.
— Nada do que você me disser, me fará mudar de ideia! Eu sabia que isso um dia aconteceria que ele iria requerer Elora para satisfazer algum de seus caprichos de príncipe mimado e tudo por sua culpa! Você colocou a sua condição de bajulador acima de sua condição de pai! — Jensen falou chorando. — Mas eu sou a mãe e Elora só se tornará uma guerreira depois que eu morrer, antes não!
Jensen deixou o marido sozinho na sala e foi para o seu quarto. Momentos depois, Remo a seguiu, porém, os dois não trocaram mais nenhuma palavra durante todo o dia e assim seguiu até à noite, bem como na manhã do dia seguinte, quando Remo retornou aos seus afazeres no palácio.
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No dia seguinte, Jensen saiu com Elora para o campo, onde os camponeses colhiam as primeiras maçãs da estação. As duas sorriam e brincavam sobre a relva, enquanto observavam os trabalhadores cantando fazendo a colheita. Coincidentemente, o rei também havia decidido visitar a plantação e de longe, Jensen e Elora observou o monarca e sua guarda, a qual era comandada pelo seu marido e pai. Elas apenas acenaram para eles, mas temendo que Aklon estivesse na comitiva, Jensen decidiu levar a filha de volta para casa, alegando estar com dor de cabeça.
— Por que a gente precisa ir tão rápido, mamãe? Eu queria poder falar com o papai primeiro! — a menina exclamou sem entender a atitude de sua mãe.
— Não discuta comigo, Elora! — Jensen sendo um tanto ríspida. — É a minha decisão e ponto final. E ainda, eu tenho que preparar algo para o seu pai comer, pois certamente ele vai querer passar lá em casa antes de seguir com o rei. Assim você poderá falar com ele.
Jensen segurou a mão de Elora, sem dar chance a ela. A menina ficou o tempo todo olhando para trás, mas obedece a sua mãe. As duas retornaram e passaram o resto da manhã juntas.