.Capítulo — Mariana
Narrado por Mariana
O dia já tinha rendido mais do que o normal.
Eu tinha acordado cedo, como sempre. Academia antes das sete, treino focado, fone no ouvido, mente tentando ficar vazia enquanto o corpo se movia no automático. Era o meu jeito de manter tudo sob controle. Quando o corpo cansa, a cabeça silencia um pouco. E eu precisava desse silêncio.
Voltei pra casa suada, cabelo preso num coque alto, aquela sensação boa de dever cumprido. Tomei banho demorado, água quente batendo nas costas, como se lavasse não só o suor, mas também os pensamentos que insistiam em voltar desde a noite anterior.
Vitinho.
O nome surgiu na minha cabeça sem aviso, e eu fechei os olhos com força, como se isso fosse suficiente pra expulsá-lo.
Ridículo.
Preparei um café simples, sentei à mesa com o notebook aberto, respondi e-mails, revisei relatórios, enviei tudo dentro do prazo. Trabalho de home office sempre foi uma bênção pra mim. Me dava autonomia, conforto, segurança. Eu gostava da rotina previsível. Do controle. Da estabilidade.
E mesmo assim… algo tava fora do lugar.
Era quase meio-dia quando fechei o notebook. A casa tava silenciosa. Grande demais pra uma pessoa só. Às vezes o silêncio me acolhia. Outras vezes, me engolia.
Peguei o celular pra ver a hora quando ele tocou.
Juninho.
Meu coração deu um salto leve, automático. Atendi sorrindo, mesmo sabendo que ele não podia ver.
— Fala, irmão.
— Tá ocupada? — a voz dele veio tranquila, familiar.
— Agora não. Já treinei, já trabalhei… tô de boa.
Ele ficou em silêncio por um segundo. Eu conhecia aquele silêncio. Era quando ele tava organizando as palavras.
— Então — começou — tava pensando numa coisa.
Me encostei melhor no sofá.
— O que foi?
— Você já pisou no morro — ele disse. — Já conheceu um pouco. Acho que talvez esteja na hora de conhecer o baile também.
Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo de eu responder. Um frio subiu pela barriga, não exatamente de medo, mas de alerta.
— Juninho… — falei devagar. — Eu não sei se isso é uma boa ideia.
— Eu sei — respondeu rápido. — Por isso não tô te pressionando. Só tô te falando pra pensar.
Passei a mão pelo cabelo solto, respirei fundo.
— Baile não é só festa — continuei. — É exposição. É outro ambiente.
— Eu sei melhor do que ninguém — ele disse, sério. — Mas você não ia sozinha. Eu ia tá com você o tempo todo.
Fechei os olhos.
— Quando é isso?
— Amanhã.
Abri os olhos de novo, surpresa.
— Amanhã?
— É — ele respondeu. — Por isso te liguei hoje. Pra não ser coisa jogada em cima da hora.
Olhei em volta da casa, como se ela pudesse me dar alguma resposta. Tudo ali era tão… seguro. Conhecido. Previsível.
— Juninho, eu realmente não sei — falei. — Deixa eu pensar?
— Claro — ele respondeu. — Pensa com calma. Me dá uma resposta mais tarde.
— Tá.
— Seja qual for, tá tudo certo.
Sorri com carinho.
— Obrigada.
— Te ligo mais tarde então — ele disse.
— Tá bom.
Desliguei.
E fiquei ali, parada, celular na mão, olhando pro nada.
Baile.
A palavra ecoou na minha cabeça com imagens que eu nunca tinha visto de perto, mas sempre ouvi falar. Música alta, gente demais, olhares curiosos, julgamento silencioso. Eu sabia que não passaria despercebida. Nunca passava.
Me levantei, fui até a janela, olhei a rua calma da Zona Sul. Tudo tão distante do que eu tinha visto no morro. Dois mundos que não deveriam se tocar.
E ainda assim… estavam se aproximando.
Passei a tarde inquieta. Tentei assistir uma série, mas não prestei atenção. Abri um livro, fechei na mesma página três vezes. Fui pra cozinha, fiz um lanche que m*l comi.
O pensamento voltava sempre pro mesmo ponto.
Vitinho.
O jeito como ele tinha me olhado. Não como homem acostumado a olhar mulheres. Mas como alguém tentando entender algo que não se encaixa.
Aquilo tinha mexido comigo mais do que eu queria admitir.
No começo da noite, tomei banho de novo, coloquei um pijama confortável, sentei na cama com o celular na mão. Abri a conversa com Juninho, reli mensagens antigas, fotos nossas de quando éramos mais novos.
Ele sempre foi meu porto seguro. Mesmo distante. Mesmo vivendo uma vida que eu nunca escolhi.
E se ele achava que eu estaria segura… talvez estivesse.
Talvez o medo fosse só meu.
O celular vibrou na minha mão antes que eu tomasse coragem.
Juninho de novo.
Respirei fundo antes de atender.
— Pensou? — ele perguntou.
— Pensei — respondi.
— E…?
Fechei os olhos.
— Eu vou.
Do outro lado da linha, eu ouvi o sorriso dele antes mesmo da resposta.
— Sério?
— Sério — confirmei. — Mas com uma condição.
— Qual?
— Você não me larga um segundo.
— Nem se você mandar — ele respondeu na hora.
Sorri.
— Então tá.
— Amanhã eu te busco umas três da tarde — ele disse animado. — Você se arruma lá em casa.
— Lá?
— É — respondeu. — Mais tranquilo. Depois do baile, você dorme lá também. Evita ir e voltar tarde.
Pensei por um segundo.
— Tá bom.
— Fechado então.
— Fechado.
— Fico muito feliz, Mari — ele disse, mais baixo. — De verdade.
Meu peito aqueceu.
— Eu confio em você.
— E eu não vou deixar nada te acontecer.
Desligamos.
Coloquei o celular de lado e me joguei na cama, olhando pro teto. Um misto de ansiedade e expectativa tomou conta de mim. Amanhã não seria só mais um dia.
Seria o dia em que eu pisaria, de verdade, num mundo que sempre existiu ao lado do meu… mas que eu nunca tive coragem de entrar.
E no fundo, bem no fundo, eu sabia:
Nada seria igual depois do baile.
Nem eu.