Capítulo — Juninho
Narrado por Juninho
Sexta-feira à noite sempre teve um peso diferente no morro.
O dia tinha sido corrido, dinheiro contado, boca funcionando, vapor indo e vindo, rádio estalando sem parar. Mas agora a noite já tinha caído, e o movimento começava a mudar de ritmo. Sexta era dia de expectativa. Todo mundo já pensando no baile de amanhã, nas roupas, nas músicas, nas histórias que iam nascer ali.
Eu tava feliz.
Não aquele tipo de felicidade escancarada, de riso fácil. Era uma felicidade quieta, guardada no peito, daquelas que a gente protege como se fosse segredo.
Mariana vinha.
Só essa frase já era suficiente pra deixar minha cabeça fora do lugar.
Encostei no carro por um tempo antes de entrar, olhando as luzes do morro se espalhando como um céu invertido. Criança correndo ainda na rua, música vazando de algumas casas, cheiro de comida misturado com fumaça. Tudo igual a sempre. E ao mesmo tempo, tudo diferente.
Porque agora ela fazia parte disso.
Mesmo sem saber.
Desde que desliguei o telefone com ela, mais cedo, eu não consegui tirar aquele “eu vou” da cabeça. A forma como ela falou, meio receosa, mas firme. Confiando em mim.
Só em mim.
Ela não tinha mais pai. Não tinha mais mãe. Não tinha amigas de verdade por perto. Tinha a vida dela, organizada, limpa, certinha… e tinha a mim, do lado de cá.
E eu sentia o peso disso.
Mariana sempre foi diferente de tudo que eu conhecia no morro. Sempre foi luz demais pra um lugar que ensina a gente a endurecer cedo. Quando a gente era mais novo, mesmo sem morar juntos por tanto tempo, ela já tinha aquele jeito… delicado, mas forte. Educada, mas não boba. Sempre me olhou como irmão, e eu sempre respeitei isso.
Sempre.
Mas agora…. Era vontade de manter perto. De proteger. De ser o ponto fixo dela num mundo que eu sabia que podia engolir quem não estivesse preparado.
Ela agora era só ela.
E eu era tudo que ela tinha.
Foi por isso que eu decidi: ninguém ia saber.
Ninguém precisava saber que Mariana ia ao baile.
Nem os vapores. Nem os cria. Muito menos o Vitinho.
Vitinho era meu irmão de vida, mas eu conhecia aquele olhar. Conhecia o jeito como ele analisava tudo, como nada passava despercebido. E depois daquele encontro na lanchonete… alguma coisa tinha ficado no ar.
Eu não queria aquilo.
Não agora. Não com ela.
Mariana não era curiosidade. Não era atração passageira. Não era mulher de baile. Ela era minha irmã. Minha responsabilidade.
E eu não ia expor ela a nada que eu não pudesse controlar.
Entrei em casa, fechei a porta atrás de mim. O silêncio me recebeu. A casa tava arrumada, do jeito que sempre deixo. Nada luxuoso, mas tudo no lugar. Tirei o tênis, joguei a chave sobre a mesa, fui direto pra cozinha.
Abri a geladeira, peguei uma água, bebi direto da garrafa. O corpo cansado, mas a mente ligada demais pra descansar.
Sentei no sofá e deixei a cabeça cair pra trás, encarando o teto.
Amanhã.
Amanhã tudo mudava.
Eu pensava em como ia buscar ela às três da tarde. Já imaginava Mariana saindo de casa, provavelmente com aquela bolsa grande, organizada, cara de quem ainda não tinha certeza se tava fazendo a coisa certa. Eu já imaginava ela entrando no carro, olhando em volta, tentando esconder o nervosismo.
E eu ia estar ali.
Pra qualquer coisa.
Pra qualquer olhar atravessado. Pra qualquer comentário fora de lugar. Pra qualquer situação que fugisse do controle.
Ela ia se arrumar lá em casa. Dormir lá depois. Ia ser tudo pensado pra que ela não precisasse se expor mais do que o necessário.
Levantei do sofá e fui pro quarto. Abri o guarda-roupa, peguei uma camiseta limpa, me troquei. Deitei na cama, mas o sono não veio.
Minha cabeça rodava.
Eu lembrava da forma como ela ficou meio sem jeito quando falou do Vitinho, mesmo sem falar o nome dele. Ela tinha percebido. Claro que tinha. Mariana sempre percebeu demais.
E eu tinha percebido também.
Vitinho nunca olhou daquele jeito pra ninguém.
Aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir.
Não por ciúmes. Não desse tipo. Era proteção. Era alerta. Era instinto.
Vitinho vivia num mundo onde sentimentos eram fraqueza. Onde tudo tinha um preço. Onde mulher, muitas vezes, era distração. E Mariana não era nada disso.
Ela não sabia jogar aquele jogo.
E eu não ia deixar ela virar peça de nada.
Virei de lado na cama, respirei fundo. A noite tava quente, abafada. Lá fora, o morro não dormia. Nunca dorme. Sempre tem um som distante, uma risada, um motor passando, um rádio chiando.
Fechei os olhos e fiz uma promessa silenciosa.
Enquanto Mariana estivesse do meu lado, nada ia tocar nela.
Nem o caos do morro.
Nem o brilho falso do baile.
Nem os olhares errados.
Nem mesmo os sentimentos que eu não entendia direito ainda.
Ela vinha.
E eu estaria ali.
Como sempre estive.
Como sempre vou estar.
Amanhã, quando o sol nascer, o mundo vai continuar o mesmo pra muita gente.
Mas pra mim…
pra mim, a sexta-feira à noite já tinha mudado tudo.
E eu ainda não sabia se tava preparado pro que vinha depois.