Capítulo — Vitinho
Narrado por Vitinho
O dia amanheceu quente, do tipo que gruda na pele antes mesmo do sol subir direito. Eu já tava acordado fazia tempo. Dormir pouco sempre foi parte do jogo. Quem dorme demais perde o controle das coisas.
Levantei antes das seis, lavei o rosto na pia do banheiro, encarei meu reflexo no espelho. Olhar sério, mandíbula travada, tatuagens subindo pelo pescoço. O mesmo homem de sempre. Ou pelo menos era isso que eu dizia pra mim mesmo.
Coloquei uma camiseta preta, calça larga, tênis limpo. Peguei o rádio e o celular. Antes de sair, conferi a pistola no criado-mudo. Tudo no lugar. Do jeito que eu gosto.
Desci as escadas já no automático, cumprimentando quem cruzava comigo com um aceno curto de cabeça. Respeito aqui não se pede, se impõe. E eu nunca precisei repetir ordem.
A boca já tava acordada. Vapor indo e vindo, sacola passando de mão em mão, dinheiro trocando rápido. O cheiro de café forte misturado com fumaça e pólvora antiga. Meu território.
Encostei na mesa grande de madeira, bati a mão aberta uma vez só. O barulho seco foi suficiente pra calar as conversas paralelas.
— Bora — falei firme. — Quero tudo organizado hoje.
Os meninos se alinharam rápido. Cada um sabia o que fazer, mas em dia de baile não existe “já sei”. Existe conferência. Tudo é detalhe. Tudo pode dar errado se alguém vacilar.
Peguei os maços de dinheiro e comecei a contar, nota por nota. Olho rápido, mente afiada. Enquanto as mãos trabalhavam, a cabeça rodava.
Segurança do baile.
Entrada e saída.
Som.
Bebida.
Lista VIP.
Equipe armada.
Posto de observação.
— Quem tá na segurança externa hoje? — perguntei sem levantar o olhar.
— Pk e Biel — responderam.
— Troca. Quero o Léo e o Samurai lá fora. Pk fica no acesso de cima. Biel no beco da escola.
Anotaram sem questionar.
Baile grande exige pulso firme. Não é festa, é vitrine. É quando todo mundo olha pra cima pra ver quem manda. E eu não admito erro em noite de vitrine.
Terminei de contar o dinheiro, empurrei os maços separados.
— Isso aqui vai pro fornecedor. Isso aqui segura caixa pro baile. Isso aqui fica de reserva.
Olhei em volta, um por um.
— Qualquer movimentação estranha, eu quero saber antes de virar problema. Sem heroísmo. Sem improviso.
Saí da boca e comecei a subir o morro a pé, observando tudo. Cada esquina, cada grupo, cada carro estranho. O baile já começava muito antes da música tocar.
Passei pelo local onde o som ia ser montado. Os caras ainda descarregavam equipamentos.
— Quero teste de som às três — avisei. — Se falhar depois, eu não quero desculpa.
O responsável assentiu, nervoso.
— Bebida? — perguntei.
— Chega tudo até meio-dia.
— Confere duas vezes. Se faltar, a bronca é sua.
Continuei andando. O rádio chiava sem parar, informações cruzadas, pedidos pequenos, ajustes. Eu respondia tudo curto, direto. Chefe não se explica.
No fundo, eu sentia aquela tensão boa. Aquela que antecede coisa grande. Baile não é só diversão. É poder circulando, alianças sendo feitas, respeito sendo testado. Quem organiza, manda.
Voltei pra boca perto do meio-dia. Sentei de novo à mesa, puxei outro copo de café. O calor aumentava, o movimento também.
— Quero saber quem tá autorizado a circular na área VIP — falei.
Me passaram a lista. Analisei nome por nome.
— Essa aqui não entra. Essa também não. Essa pode. Essa só se vier com escolta.
Risquei alguns nomes sem explicar. Intuição de chefe vale mais que qualquer justificativa.
Peguei o celular, mandei mensagens rápidas. Cobranças, confirmações, avisos. Tudo sob controle.
Ou quase tudo.
Encostei na cadeira, respirei fundo por um segundo. Não era cansaço. Era aquela sensação estranha de alerta que não vinha de fora. Como se alguma coisa estivesse se reorganizando sem pedir permissão.
Ignorei.
Chefe não se dá ao luxo de divagar.
Levantei de novo, caminhei até a janela improvisada da boca. Olhei o morro de cima. Era ali que tudo começava e terminava. Ali que eu tinha construído meu nome, minha fama, meu medo.
Baile ia ser grande. Do jeito que eu gosto. Do jeito que o morro espera.
Peguei o rádio mais uma vez.
— Atenção geral — falei com voz firme. — Hoje ninguém vacila. Quero todo mundo no eixo. Baile é pra mostrar força, não pra dar problema.
As respostas vieram em sequência.
— Certo, chefe.
— Pode deixar.
— Tudo sob controle.
Desliguei o rádio e fiquei ali, parado, olhando o movimento.
Hoje à noite, o morro inteiro ia pulsar no mesmo ritmo.
E eu estaria no centro disso tudo.
No comando.
Sem espaço pra distração.
Sem espaço pra erro.
Sem espaço pra sentimento.
Hoje eu era só o que sempre fui.
O dono do morro.