2 _ PARTE TRÊS

2499 Palavras
Ao redor, a mobília escura e antiga, cortinas pesadas e a iluminação dourada e profunda que mostrava e escondia detalhes do quarto e do homem. Trish sentiu-se tragada para o epicentro de algum novo acontecimento, podia culpar o teor altíssimo de álcool na sua corrente sanguínea ou o silêncio expectante dos minutos suspensos na atmosfera densa. Resolveu quebrar o instante: – Você vem sempre aqui? – imediatamente, corou. Não era bem isso que queria falar. Tentou consertar: – Não é uma cantada. Eu nem gosto muito de homens... – riu-se nervosa e emendou: – mas sou hétero, viu? Claro, é mais fácil ser hétero... Nunca me interessei por mulheres... Já beijei a minha prima na boca, mas isso todo mundo faz, todo mundo tem uma prima sacana, não? – constatou que sua língua estava grossa, pesada e arrastava as palavras para um som parecido com os que as vítimas de AVC produziam. Esperou alguma reação por parte dele. Observou, balançando levemente o corpo como se estivesse de pé numa jangada, que ele vestia preto e as pálpebras estavam inchadas. O rosto permanecia sério sem esboço algum de emoção, fosse irritação ou empatia.  Atrás do homem, a cama de casal bagunçada, o que levava a crer que estava deitado nela antes de Trish invadir o quarto. O homem voltou à cama e sentou-se na beirada dela. Afastou as pernas, escorando os antebraços sobre elas a fim de sustentar a cabeça. Parecia que chorava, mas não era isso. Era talvez exaustão, percebeu Trish, aproximando-se dele e tocando o seu ombro. – Precisa de uma bebida... Ela voltou ao corredor, juntou a vodca do chão e, ao entrar novamente, bateu o ombro contra o batente da porta. Gemeu baixinho. Sentou-se ao lado dele e entregou-lhe a garrafa, que foi depositada sobre o criado-mudo. Diante da sua atitude, Trish achou melhor retirar-se. Antes de sair, verificou que sobre o criado-mudo havia uma garrafa de vinho, aberta e pela metade, um cálice vazio e um frasco de remédio. Endereçou sua atenção para ele, ainda encurvado, voltado para dentro como um girassol em dias nublados. – Você é um suicida? – disse, com receio de saber a verdade. Depois pensou na m***a que havia falado. Se ele fosse um suicida já estaria morto. – Quero dizer, está tentando se livrar da sua vida? Pensou que fosse ignorá-la. Por isso, insistiu: – A existência não é grande coisa e, em boa parte dela, estamos preocupados em como viver. Quando enfim descobrirmos um jeito legal, morremos. Não há justiça ou amor perfeito. O corpo envelhece, a b***a cai e as bochechas murcham. Mas ainda temos a arte para aliviar a decadência... Bem, viver é uma d***a, algo cansativo e banal que não leva a outro lugar que não seja a uma cova aberta... Não é como nos jogos de vídeo game, não existem níveis para se subir. Você faz tudo certo, joga de acordo com as regras, tenta ser uma boa pessoa, diz com profundidade a fala de uma barata e, bem, o que ganha no fim de tudo? É elevada ao nível onde se tem as armas mais poderosas e o cabelo mais sedoso? Claro que não. Depois de tanta luta, frustração e sonhos interrompidos, você ganha é um punhado de terra sobre o corpo, isso sim.  Pronto, agora o homem se matava de vez, pensou, envergonhada das próprias palavras. Era complicado viver dentro de uma mente imprevisível. Uma mão pegou a dela e a fez sentar-se novamente na cama. Sem olhá-la, ele disse: – É para enxaqueca. Ela sorriu e apertou a mão dele amistosamente: – Ah, que bom, enxaqueca é melhor que depressão. – em seguida, entrelaçando seus dedos nos dele, comentou: – Esquece o que te disse antes. A vida é bonita e misteriosa. Vale a pena viver cada dia, por que não sabemos como será, quero dizer, dentro da rotina de sempre... – parou de falar, mordendo o lábio inferior. Ele assentiu levemente e desvencilhou-se da mão dela, dizendo devagar e secamente, como se sentisse obrigado a dizer sem ter a necessidade de explicar nada além: – Meu irmão morreu. – m***a. – gemeu ela, automaticamente, lançando um olhar ao redor, tentando juntar as peças e entender por fim porque tudo ali era escuro e triste. – Faz dois meses. – falou baixinho, espichando o braço e enchendo o cálice com o vinho. – Você está no lugar errado. – afirmou ela, aceitando beber um gole do vinho dele. – Isso não é uma festa, esse pessoal está sempre por aqui. – Ah... é a sua casa? – perguntou, intrigada. Ele assentiu terminando de beber o vinho e depositando o cálice de volta no mesmo lugar, entre o frasco de Sibellium e o porta-retrato com a fotografia de dois homens iguais. – Minha e do meu irmão. – respondeu, baixinho. Trish fitou o tapete retangular debaixo dos pés e disse quase num tom desolado: – Não sei o que dizer. Perdi muitas pessoas para a vida, nisso eu sou graduada. Mas perder para a morte é outro departamento, não é medíocre como uma rejeição, um divórcio ou uma briga de família, por exemplo...  – Perdas são perdas. Todas nos matam um pouco. – ergueu-se e aproximou-se da janela aberta para fumar. Ela digeriu lentamente as palavras dele. Resumiam boa parte do que já lhe havia acontecido. – Por isso temos de ter uma saída de emergência. – falou baixinho com a naturalidade de quem pensa alto e sozinho. Ele tragou fundo o cigarro, observando-a com os olhos sérios, um sulco profundo entre as sobrancelhas. Exalou a fumaça pelas narinas, ganhando tempo, tentando decifrar o código. A luz da lua incidia por sobre uma parte do rosto entalhado com dureza e refletia em cores suaves e matizes prateados o nariz, as sobrancelhas grossas, os cílios espessos, os lábios cheios e o queixo másculo. Era um homem bonito, mais que Michel, pois o tempo havia-lhe desenhado linhas ao redor das pálpebras e da testa, roubado o frescor da expressão juvenil para dar-lhe mais masculinidade. Não era um menino ou um jovem homem. Era um homem. A barba e o bigode ralos ofereciam-lhe o aspecto viril que contrastava e, paradoxalmente, combinava com a sofisticação das roupas, da calça social escura, da camisa de gola alta sem botões e dos pés descalços. Ele era um homem, com todas as implicações que isso o imprimia. Viu-se pensando no número de mulheres com as quais dormira. Olhou diretamente para os lábios nascidos para beijar e serem beijados. Era uma boca pretensiosa e sedutora. Lembrou então do sorriso jovial de Michel. Tornou a concentrar-se nos maxilares que se uniam ao queixo másculo, de alguém obstinado. Abaixo, o pescoço liso protegido pela roupa. Queria enveredar por baixo da roupa dele. Refletiu, examinando-o sem disfarçar e ele, ali, à janela, fumando e permitindo-se ser revirado do avesso pelos olhos da mulher. – É bom de cama? – viu-se perguntando. Ele a encarou por um minuto ou dois e disse sério: – Não falo sobre s**o. – Sua religião não permite? Ele sorriu levemente, esmagou a bagana no cinzeiro e encaminhou-se até a porta, estendendo-lhe a mão: – De teorias e teóricos o mundo está cheio, ma amie. Agora, volte para quem quer que a tenha trazido. Preciso dormir um pouco. Ela nem se mexeu. – Gostaria de conversar com você quando estivesse sóbria, mas, agora... –indicou-lhe novamente a porta. – Já pensou em ter uma saída de emergência? Automaticamente, ele olhou para a janela e sorriu: – Qual o seu nome? – Marie. – em seguida, antes que ele se identificasse, disparou de forma abrupta: – O seu é j**k, eu sei. – j**k? – alçou a sobrancelha intrigado e emendou: – Não, é Ma...  – Não quero saber! – exclamou, erguendo a mão para que ele se contivesse. –É j**k! j**k! – Agora, sim, está na hora de você ir. – declarou, incisivo. – Quer ser meu amante? – foi direto ao ponto. – Estou procurando alguém para essa função. Ele afastou-se da porta e se encaminhou até ela, não havia nada de bom na sua feição fechada. – Preciso dormir, mademoiselle. Pegou-a pelo antebraço e praticamente a arrastou até a saída. Trish voltou-se para ele, tentando explicar-se: – Espera! Acho que estou me apaixonando por um cara e não quero sofrer de novo... Mas, por outro lado, não quero me afastar dele, então, pensei em ter um amante, um objeto s****l, sabe? – riu-se e continuou: – Céus!, estou lhe oferecendo o que qualquer homem aceitaria de pronto: s**o casual. A gente se encontra só para f********o, sem trocas e vínculos afetivos. Por isso não quero saber o seu nome. Nada. A liberdade total para os sentidos, as sensações, e isso somente é possível quando neutralizamos os sentimentos. Você é bonito e sexy, e eu sou atraente quando quero. A gente pode t*****r muito e muito, sem drama, sem futuro, sem promessas. Não quero saber nada sobre você, nem signo nem passado ou se é comprometido, nada! Não parece divertido? É o paraíso para os homens, e a liberdade para as mulheres. Ninguém engana ninguém. – Ninguém é de ninguém? – indagou, secamente. Trish sorriu satisfeita. Sim, ele compreendera o propósito e seria um bom j**k. – Sim, j**k, isso mesmo. Puxou-a pelo braço e a empurrou para fora do quarto. Antes de fechar a porta, disse: – Je suis desolé. – não parecia lamentar e emendou sarcástico: – Lá, embaixo, deve ter pelo menos uns trinta Jacks.   ***   Trish desceu os degraus da escada segurando-se no corrimão. Na sala ampla, dividida em três ambientes separados por arcos de pedras rústicas, as pessoas, jogadas pelos tapetes, almofadas, pufes e sofás, fumavam, bebiam, beijavam-se e conversavam alto sobre tudo e nada ao mesmo tempo, imersos na química perfeita da falta de sentido. Em dado instante, um dos descolados teve a brilhante ideia de chamar o pessoal para um banho de piscina. Como um estouro de boiada, correram despindo-se pelo caminho. Trish preferiu o sofá. Acordou com a estranha sensação de ter retornado de uma longa viagem. Ouviu portas sendo trancadas com energia o suficiente para demonstrar rispidez no ato e para abafar as exclamações do outro lado. Trish abriu apenas um olho e verificou que não havia ninguém naquele andar e a música era o barulho dos saltos na piscina e a gritaria alegre ao redor dela. Fechou novamente os olhos e abraçou-se na almofada para voltar a dormir. Pela manhã, voltaria para casa de metrô. Agora, só lhe restava dormir. Quando alcançou a saída do labirinto, um inseto gigantesco pulou em seu rosto. Com o susto, seu corpo estremeceu e ela acordou. Apoiou-se nos antebraços e olhou ao redor. Afastou os cabelos que lhe caíam sobre a face. Duas pessoas conversavam a poucos metros dali. Identificou uma das vozes, era a de j**k, firme e severa: – Não me importo que chame seus amigos, Vincent, Fabien também gostava de ter a casa cheia, mas não quero esses vândalos aqui novamente. – É que um convida outro que convida outro, pardon, sei que passei dos limites. Colocarei tudo no lugar, mon ami. – a outra voz parecia mesmo de um homem encrencado tentando limpar a barra. – E a adega de Fabien? – Acho que... é provável que tudo tenha se ido... – lamentou. – Vocês atacaram a adega do meu irmão? Só peço um pouco de respeito, um pouco. Que tipo de amigo você é? E esse pessoal na piscina... comemoram o quê? Estão felizes com a morte de Fabien, é isso? – Ao contrário de você, seu irmão era uma pessoa feliz e sociável. Ele pediu para que ninguém chorasse a sua partida. Sei que está sofrendo, mas a vida continua, cara. – Para um poeta, você é um cretino. – Merci, vê-se que aos poucos você volta à forma. – ele riu e cogitou: – Imagino que tenha rompido com Aline... Silêncio. – Ontem. – a voz grave e seca de j**k. – Pobre garota, não tem culpa de você estar rompendo os laços com o mundo – depois, num tom mais baixo mas plenamente audível para Trish, completou: –Rainha morta, rainha posta? – O que fala? – j**k parecia confuso. As vozes aproximavam-se até ela. Os dois retornavam à sala. – É sua? Alguém se sentou ao seu lado no sofá e tocou o tornozelo dela. Imaginou que fossem as mãos de j**k, já que em seguida ouviu a sua voz: – Ela está sozinha? – Acho que veio com o grego e uma loira gostosa. – informou. – Quer que chame um táxi para ela? – Que grego? – j**k quis saber enquanto traçava círculos com o polegar sobre a pele do tornozelo dela. – Stefanos alguma-coisa, um camarada inconveniente e metido a mecenas, só que quem banca mesmo algumas exposições é o pai dele. Por isso temos de aturá-lo. – O que ele é dela? Trish teve a impressão de sentir um dedo apontado em sua direção. – Sei que namora uma executiva da SBO, que pode muito bem ser a loira gostosa. Essa aí deve ser irmã dele, pelo menos são parecidos. – disse de má vontade. – Certo. Agora, mande aquela gente para suas casas, senão a polícia aparecerá por aqui outra vez. – mandou, pacientemente. – Chamo um táxi para a bela adormecida também? Mais uma pausa. j**k parecia digerir a questão. Por fim, ela ouviu-o dizer: – Me diz uma coisa, Vincent, se você estivesse dirigindo sozinho por uma estrada deserta, e do nada surgisse como um fantasma, alguém que fizesse um sinal para parar... – Não pararia, podia ser minha avó morta. – interrompeu-o num tom de troça. – Espere, – disse j**k, parando de acariciar o tornozelo de Trish. – mas você pararia sim, nem que fosse por uma curiosidade mórbida. E então essa pessoa, essa mulher, lhe estenderia a mão convidando-o a segui-la no escuro, sem bússola ou mapa, guiando-se tão-somente pelos instintos. Essa mulher, que você conheceu há cinco minutos e pretende se intrometer no seu caminho e tirá-lo da estrada previsível... – ele parou, e Trish quase sentia o calor de seu olhar sobre si – não oferece quase nada de si e, ao mesmo tempo, revela tudo, expõe tudo, a verdade, a hipocrisia e se mostra imperfeita e risível não para conquistá-lo, mas para torná-lo cúmplice de seu destino... – O que aconteceria se, por acaso, eu resolvesse seguir a estrada conhecida e ignorasse a facilidade de uma mão estendida? – perguntou Vincent, desafiando o outro. – Nada. – murmurou j**k. – E se eu aceitasse? – cogitou, como se levasse o outro a responder por si mesmo a questão. – Não sei, não sei. – disse, pensativo. Vincent suspirou fundo e disse: – Bien, mon ami, não sei você, mas eu ainda prefiro um “não sei” a um “nada”.  
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