Sofia
Itália
Sete anos depois…
Corri o mais rápido que pude no meu conversível, despistando os seguranças. Sorri internamente ao ver o desespero deles ao bater o carro no acostamento, não que fosse legal provocar um acidente, mas não aguentava mais viver com seguranças na minha cola. Eu só queria ter um momento de paz e tranquilidade, aproveitar minha recém-tirada carteira de motorista e fazer coisas normais com os meus amigos, sem a super proteção dos meus pais.
Sabia que meus pais me amavam, me amavam tanto que me colaram rédeas, mas eu não era uma garota que lidava bem com regras e superproteção.
Meu telefone tocou com diversas ligações da minha mãe, seguidas de várias mensagens. Abri uma mensagem e li:
Mãe: você quase matou os seguranças, Sofia. Você passou de todos os limites agora, eu e seu pai estamos furiosos. VOLTE PARA CASA AGORA!
Minha mãe adorava gritar até por mensagem.
Sofia: Estou bem, mãe. Vou sair com a Giulia. Volto logo. Eu te amo. Tome um rivotril.
Ela continuou mandando mensagens e ignorei, mas consegui ver os xingamentos subindo nas notificações. Sabia que estava encrencada, que ela não iria me deixar sair de casa e tudo mais, por isso teria que aproveitar o agora. E, além disso, eu já tenho dezenove anos e eles não me dariam um carro se não queriam que eu tivesse a liberdade para dirigir por aí.
Liguei para minha amiga Giulia:
— Oi, Soso.
— Amiga, me envia a localização.
— É sério que seus pais deixaram você vir?
— Não exatamente, mas sempre dou o meu jeitinho.
— Vou enviar a localização. — ela desligou.
O sinal estava amarelo, mas a estrada estava livre e não vi motivo para esperar, então avancei com o carro. Um carro veio de repente do cruzamento e tentei desviar para evitar a batida. Meu carro girou algumas voltas até sair estrada e bater forte em uma árvore. Vidros voaram para todo lado e airbag abriu de repente, protegendo o meu rosto.
Minha cabeça girava e senti que estava perdendo os sentidos, quando vi alguém se aproximar da lateral do meu carro. Ele bateu no vidro, mas meu corpo doía e meu tornozelo parecia preso em algo. Tentei abrir o carro, mas estava tão tonta, que apenas relaxei no banco e perdi os sentidos.
*****
Tudo estava escuro e em silêncio. Sentia meu corpo balançar lentamente e uma dor do meu tornozelo. Fui recobrando a consciência aos poucos e me dei conta que estava em um carro, sendo levada para algum lugar. Me sentei no banco, minha cabeça queimando de dor, meu braço também estava ferido, acho que pelos estilhaços do vidro do carro.
Olhei para o banco da frente e um homem estava me olhando pelo retrovisor. Só consegui ver seus olhos negros, me observando. Olhei para estrada e estávamos sozinhos no meio do nada.
— PARA ONDE VOCÊ ESTÁ ME LEVANDO? QUEM É VOCÊ? — gritei e tentei abrir a porta do carro. – PARE O CARRO! ME DEIXE SAIR!
— Ei! Se acalme! Eu estou tentando…
— PARE O CARRO! – bati no banco do carro e avancei para cima dele. – PARE! ME DEIXE SAIR! — bati em seu e peito e empurrei sua mão no volante.
— Ei! Você está maluca? Vamos bater!
— PARE! ME DEIXE SAIR!. — tentei segurar o volante e o carro saiu da estrada. O homem freou abruptamente e eu bati no banco de trás. – ABRA! – tentei abrir, mas não conseguir.
— Você quer se acalmar? – Ele se virou para mim, me olhando furioso. – Pronto abri, pode sair.
Abri a porta do carro, mas assim que coloquei o pé para fora, senti o meu tornozelo doer. Mesmo assim, tentei correr. Corri pela estrada o mais rápido que pude com um pé machucado.
— SOCORRO! – gritei.
— GAROTA! — olhei para trás e o homem estava parado ao lado do carro, gritando por mim.
Continuei correndo, até que sentir uma dor terrível no tornozelo e me sentei no chão. Não consegui mais colocar meu pé no chão corretamente, estava doendo muito. Minha respiração começou a falhar e as lágrimas invadiram o meu rosto. O homem veio até mim e me segurou.
— Me solta! – me deitei no chão e comecei a me debater.
— Para, garota! Não faz isso! – Ele gritou e prendeu os meus braços no chão. — Você pode se acalmar? Estou tentando te ajudar aqui.
Parei e olhei para ele, seus olhos negros brilhavam em fúria. Ele era um homem jovem e de boa aparência. Cabelos negros, barba bem feita e as roupas bem alinhadas. Só não entendia porque ele estava me sequestrando.
— Me solta! Para onde vai me levar? Por que você está me sequestrando? – Ele me olhou, confuso.
— Por que eu iria sequestrar você? Eu estava te levando para um hospital, você bateu com o carro, lembra? Só estou tentando te ajudar, sua garota maluca.
— Mentira, não tinha ninguém na estrada e você apareceu do nada, batendo no meu carro.
— Você está maluca, garota. Eu nem te conheço. — ele falou, irritado.
— Mentira! — tentei me levantar. – Ai!
— Você está bem? – Ele segurou o meu braço.
— Me solta!
— Está bem! – Ele levantou os braços. — Eu não vou insistir em te ajudar. Você já me causou muitos problema e me atrasou.
— Se você não tivesse tentado me sequestrar, você não teria se atrasado.
— Eu já disse que não tentei de sequestrar! – Ele gritou. – Olha, você está machucada. Se você se acalmar, eu posso te levar para o hospital. Já que perdi algumas horas, o que é o resto do dia. Não é mesmo?
— Eu não preciso da sua ajuda, você pode ir embora.
— E te deixar no meio da estrada? Você sabe o que pode acontecer com uma garota sozinha no meio da estrada?
— Se você for embora eu vou ficar bem.
— Eu acho que você não está entendendo o que está acontecendo aqui. Você só está bem graças a mim. Eu te salvei.
— Me salvou para depois me sequestrar? Grande homem você é!
— Eu não sei porque você está repetindo que eu te sequestrei. Qual é o seu problema? Eu tenho cara de sequestrador por acaso? – Ele parou na minha frente e ficou me olhando. – Olha o estado que você está, eu vou te levar para o hospital.
— Não! Você não precisa me levar para o hospital, só me leve até o meu carro.
— O seu carro já era. Agora sua chance, sou eu ou morrer na estrada. — olhei em volta. Não passava um carro sequer, aquele ponto da Itália não era muito movimentado.
— Você pode me deixar em qualquer lugar que tenha um ponto de ônibus, está bem? – Ele me analisou por alguns instantes e depois estendeu a mão para mim.
— Você pode se levantar? – tentei levantar, mas gritei de dor. – Mas que droga! – Ele se abaixou e me tomou em seus braços.
— Ei, o que você está fazendo? Me coloca no chão! – me debati.
— Já chega! – Ele gritou e me sacudiu. — Eu estou tentando te ajudar e você não é tão leve, então fica quieta aí. — Ele me olhou feio e eu me encolhi em seus braços.
Ele era um homem grande e mais alto do que eu, mas com o corpo bem em forma e rosto bem desenhado e limpo. Olhando por aquele ângulo, parecia que o conhecia de algum lugar.
— Eu acho que o conheço de algum lugar. — ele apenas me olhou, com sua expressão irritada.
Era um homem bonito, com a aparência de homem rico. Não fazia sentido um homem rico bater no meu carro e me sequestrar. Talvez seja mesmo verdade que ele só queria me ajudar.
O homem me colocou no banco do carro e pegou no meu tornozelo, machucado, me contorci de dor.
— Está doendo muito? — questionou.
— Um pouco.
— Não parece quebrado. Acho que você vai poder andar em alguns dias. Se formos para o hospital...
— Não!
— Você é uma garota teimosa.
— Eu estou bem, não preciso de hospital. Eu posso me cuidar em casa. Será que você poderia me levar até minha casa? Ou você pode me deixar perto. — ele me analisou por um instante.
— Sente-se! — ordenou.
Fiquei o olhando ir para o outro lado do carro e sentar no volante. Ele se inclinou sobre mim, me puxando para me alinhar o banco e colocou o meu cinto. Me afastei um pouco pelo contato, que me causava arrepios.
O homem tirou o carro da estrada e voltou a dirigir tranquilidade. Observei ele pegando a estrada de volta para minha casa, mesmo sem eu falar onde morava.
— Você não vai me perguntar onde moro? — ele me olhou e deu um meio sorriso.
— Eu sei onde você mora.
— Como? Eu sabia que você me conhecia. Eu já te vi em algum lugar. Quem é você e de onde você me conhece?
— Você quer parar? — ele bateu forte o braço no volante. — Eu parei a minha vida para te ajudar. Você acha que eu não tenho o que fazer? Você acha que quero ficar aqui sentado, enquanto você fala sem parar? Eu estou te levando para casa, então cala essa boca e me deixa fazer o meu trabalho. — ele falou, ríspido.
Senti a raiva me dominar, se ele não estivesse me ajudando, eu iria gritar com ele de voltar e esbravejar todo a minha raiva. Ninguém gritava comigo daquele jeito, exceto os meus pais.
Ele continuou dirigindo como se já soubesse o caminho exato. Não precisei falar uma palavra sequer, em alguns minutos já estávamos na rua da mansão dos meus pais.
— Pode parar aqui. Você não precisa me levar até em casa. – Ele me olhou e sorriu.
— O que está fazendo? Pare o carro! Se você entrar lá dentro, meus pais vão enlouquecer, vão fazer perguntas. Me deixe aqui. — ele continuou com aquele meio sorriso nos lábios. Estava se divertindo com a minha desgraça.
Ele parou na frente da casa dos meus pais e segurança veio andando até o carro. Como o carro era estanho, eles não iriam autorizar a entrada sem saber quem era.
– Abra a porta desse carro e me deixe sair aqui. — tentei abrir a porta do carro e sair, mas estava trancada. — Você não entende que se meus pais me verem chegando com um homem, eles vão enlouquecer? Por favor. — choraminguei, mas ele parecia mais se divertir com o meu desespero.
O segurança bateu no vidro do carro e ele abriu. O segurança olhou de mim para o homem.
— Damon Ferrari. — o segurança sorriu para o homem, que acabei de descobrir que se chamava Damon, depois simplesmente abriu o portão, como se o conhecesse.
— Quem é você finalmente? — ele me olhou e sorriu. O miserável era bonito como o inferno.
— Eu sou Damon, Sofia! — ele sabia o meu nome.