O relógio digital no painel da minha BMW cravou exato meio-dia quando joguei a chave na mão trêmula do manobrista, na porta monumental do Le Max, na Barra da Tijuca. Eu passei as últimas quatro horas da minha manhã devorando laudos, assinando despachos e triturando promotores no tribunal na base da técnica e da canetada, mas a minha mente não desapegou um único segundo daquele convite patético e perigoso. O restaurante era o puro suco da hipocrisia carioca: lustres de cristal que custam mais que um apartamento na zona norte, cheiro de perfume francês se fundindo ao aroma de lavagem de dinheiro, e um bando de figurões engravatados comendo lagosta às custas do erário. Era, de fato, o cenário perfeito para uma crocodilagem de altíssimo nível. Ajeitei a gola da minha blusa de seda chumbo. Erg

