NARRAÇÃO: DELEGADO CARVALHO Eu bati a porta do meu carro descaracterizado com tanta força que o retrovisor tremeu, estalando contra a lataria. Joguei o corpo pesado contra o banco de couro sintético, tencionando cada músculo do meu tronco largo, apertado dentro do colete tático preto que cobria a minha camisa polo da corporação. O meu reflexo no retrovisor interno me deu nojo puro: o rosto ensopado de suor frio, a barba por fazer há dois dias, os olhos estourados e injetados de sangue, e a mandíbula travada de ódio puro. Eu sou o delegado titular da 9ª DP. Eu mando naquele distrito, eu decido quem entra e quem sai da carceragem fétida, eu controlo o fluxo do arrego e a biqueira dos comédias. Mas naquela noite, a minha própria irmã, uma advogada de meia-pataca de salto alto, tinha me piso

