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873 Palavras
Luiz Miserável, desgraçado, enviado do demônio. É isso que aquele desgraçado é. Mas ele vai me pagar por isso. Eu tive que entregar minha filha para aquele maldito para ele não me matar, mas isso não vai ficar assim. Se ele pensa que eu perdi essa guerra, ele está muito enganado. Ele deveria ter dado um tiro na minha cabeça, porque agora sou eu que vou acabar com a vida dele. Jussara: Você entregou a nossa filha para aquele demônio e você não está com remorso?! Você tem noção das coisas horríveis que ele vai fazer com ela, Luiz?! É verdade que você entregou aquela carga? É verdade que você fez tudo que ele tá te acusando? É verdade que você tem um caso com a Dona Lourdes? Luiz: Jussara, não é o momento da gente conversar agora. Eu tô com a cabeça cheia, tentando dar uma solução pra minha vida. Você não viu aquele filho do cão falando que vai me matar? Você acha mesmo que eu ia te trair? Ele está sendo enviado pelo cão, Jussara. Jussara: Você colocou nossa filha nas mãos dele. Você tem noção do que você fez? Luiz: A nossa filha nunca foi uma serva do Senhor convicta, né? É por isso que ela vai passar por essa prova. E ela vai saber se virar. Daqui a pouco ele tá devolvendo ela, porque aquela garota tem um gênio horrível também. Jussara: Mesmo assim, você não tinha que acabar com a vida dela. Eu vi a sua foto no inferninho com as marmitas. Que tipo de pastor é você, no meio daquelas Jezabeis? Luiz: Cala a boca. Se você prestasse pra alguma coisa, a gente não estaria nessa situação. Agora eu tenho que pensar no que eu vou fazer, então por favor, me deixe em paz. Jussara: Eu vou me separar de você, seu enfiado! – ela gritou, e eu dei um tapa na cara dela que fez ela cair no chão. Luiz: Cala a sua boca! Você é minha mulher e não existe separação. O que Deus uniu, o homem não vai separar. E não vai ser você que vai infernizar a minha vida, entendeu? Eu te fiz um favor tirando aquela garota das suas costas, ela perturbava toda hora. Você viu ela falando que era pra ele me matar, não viu? Foi só ele ameaçar levar ela que ela falou que ele podia me matar. Você acha que isso é normal? Cadê os filhos honrando pai e mãe? Ela não me honrou, ela queria me jogar nas mãos daquele maldito! Jussara: Talvez fosse melhor você ter morrido. Mesmo assim, eu estaria com a minha filha agora... Eu me levantei de onde eu tava sentado e, mesmo quando eu dei uma surra nela, ela começou a gritar, e eu falei que estava punindo ela porque ela foi uma esposa desobediente. E a mulher tem que ser submissa ao homem, e ela sabe disso. E eu não vou aceitar que ela grite comigo dentro dessa casa. Depois que eu deixei ela no chão toda quebrada, eu saí do morro e vim tomar uma 51 no bar da esquina. Eu tava andando de um lado pro outro, pensando no que eu ia fazer pra pagar essa dívida. E foi aí que eu pensei na minha filha novamente. Ela é uma mulher bonita, ela é uma mulher inteligente. E se o Urso quis ficar com ela, pode ser que outro traficante também queira. E eu conheço um traficante. Quando eu não tenho dinheiro pra comprar aqui na favela, eu vou comprar lá. A minha dívida lá também tá alta, mas talvez eu consiga um dinheirinho pela minha filha. Peguei o ônibus e vim pra favela do Coelho. Cheguei na barreira e os caras nem me pararam porque eles me conheciam como “viciadinho pastor” ou “o pastor viciado”, sei lá. Subi direto pra boca, mas ao invés de comprar drogas, eu falei que precisava falar com o Coelho. Depois de alguns minutos, ele me deixou entrar. Ele ficou me analisando de cima a baixo, e eu falei: Luiz: Tudo bem com ele? Boa tarde. Eu vim aqui pra poder te fazer uma proposta. Eu me chamo Luiz, eu sou o pastor da igreja da Cidade Alta. Eu sei que você é rival da favela, mas eu tenho uma proposta muito boa pra você. Coelho: Qual é a sua proposta? Orar o Salmo 91 entre uma troca e outra de plantão? Porque se for, pode meter o pé, porque vagabundo aqui já sabe que vai pro inferno. Então você nem precisa se preocupar com essa merda não. A gente tem mais o que fazer. Mete o pé, pastor. Luiz: Na verdade, eu quero te mostrar uma coisa – peguei meu celular e mostrei uma foto da minha filha pra ele. Ele olhou pra foto e depois me encarou sério. Coelho: Bonita... Não vai me dizer que é sua amante, porque se for, tu tá gastando dinheiro pra c*****o, né? Pra poder comer essa novinha aí, tem que bancar... Luiz: Não, ela não é minha amante. Ela é minha filha. E é justamente sobre isso que eu quero falar com você. Eu quero te vender a minha filha.
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