Lorrana
Eu vim batendo neles, eu vim gritando no meio da rua. Todo mundo ficou olhando, mas ninguém nesse morro fez nada. Bando de gente safada, de hipócrita, que fica concordando com as coisas que esses traficantes fazem. Eles me arrastaram bem pra cima do morro e, quando nós chegamos em frente à casa dele, era enorme, talvez não seja tão r**m assim morar aqui. Lá em casa, eu tenho que ficar de joelho no milho pra poder me redimir dos meus pecados. Se aqui tiver empregado, eu não vou ter que fazer nada. Que isso, não vou mais fugir. Vou ficar aqui tranquilona, que se lasque com meu pai, até porque ele me vendeu, né? Então maluco por maluco, eu vou me fazer de maluca também.
Quando eu entrei na casa, um dos vapores veio andando comigo. Ele falou que o nome dele era Sapinho. Ele começou a me mostrar a casa. Eu tava tranquilona, me acostumando com a minha vida de rica, e foi aí que eu vi a imagem gigante de um homem com chapéu branco. Eu olhei pro vapor que olhou pra mim. Eu olhei pro vapor que olhou pra mim e eu saí correndo, mas ele me segurou pelo braço e falou:
Sapinho: Vai pra onde, doidona?
Lorrana: Com todo respeito, eu até queria ficar aqui porque a casa é gigante, mas eu tenho medo dessas coisas.
Sapinho: De que coisa?
Lorrana: Você não viu o bonequinho de chapéu branco?
Sapinho: Ah, vai se acostumando, porque tem alguns aqui na casa, tá?
Lorrana: Meu Deus, socorro. Moço, pelo amor de Deus, manda ele matar meu pai!
Urso: Cuidado — ele falou se aproximando.
Lorrana: Cuidado com o quê?
Urso: Com o Seu Zé. Ele fica um pouco irritado com pessoas que nem você, que ficam repreendendo tudo em nome de Jesus. Se você continuar nisso, ele vai puxar sua perna de madrugada.
Lorrana: Meu Deus do céu, onde eu vim parar? Pelo amor de Deus, mata meu pai, minha mãe, meu cachorro, mas me deixa lá na minha casinha de joelhos no milho!
Urso: Agora você me pertence, e eu acho bom você se comportar, porque se você não se comportar, eu vou mandar ele te visitar no sonho — e você não vai gostar da visita.
Lorrana: Tá repreen...
Urso: Tem certeza que quer falar isso na frente dele? Ele pode ficar revoltado, e eu não posso controlar ele.
Lorrana: Juro que eu fui uma menina boa. Eu juro que eu fiz as coisas direitinho. Pelo amor de Deus, o que custava você matar o meu pai? É natural da vida, os velhos morrem primeiro pra os jovens sobreviverem. Os pais têm que ir antes dos filhos. Pelo amor de Deus, me devolve pra minha mãe matar meu pai. Tá tudo bem, eu não vou nem te julgar se você matar ele. Eu juro, eu juro, eu juro pela minha felicidade que se você matar ele, que eu não vou ficar com mágoa de você.
Urso: Vamos conhecer seu quarto. Tem outros… como você chamou?
Lorrana: Bonequinhos?
Urso: Imagens. Na casa, eles não são bonequinhos, eles estão vivos e eles escutam o que você fala pra poder me contar depois.
Lorrana: Isso é mentira.
Urso: Aí, Seu Zé, me chamando de mentiroso.
Lorrana: Menino, pelo amor de Deus, me tira daqui! Ele é maluco, ele tá falando com um bonequinho como se ele pudesse escutar. Pelo amor de Deus, me leva de volta pra minha casa e eu vou ficar de joelho no milho. Eu vou jejuar, eu vou juntar dinheiro pro meu pai poder pagar ele, mas pelo amor de Deus, me leva de volta pra minha casa. Eu não tenho estrutura mental pra poder passar por isso, por favor, me leva de volta pra minha casinha!
Urso: Ialá, tá desmerecendo os cara. Vou falar pra eles que tu tá desmerecendo eles, papo reto. Não tô gostando muito disso não, e ele também não deve estar gostando não, hein.
Lorrana: Não, Seu… qual é o nome mesmo?
Urso: Zé.
Lorrana: Não, Seu Zé, nada contra o senhor. Eu jamais ia te desrespeitar. Que isso! Eu sou só uma pessoa seguindo a fé em Cristo, eu jamais ia desrespeitar ninguém. Pelo amor de Deus — falei quase chorando, e eles ficaram rindo da minha cara.
Urso: Ele falou que vai deixar passar batido dessa vez, mas que não é pra tu ficar repreendendo ninguém aqui dentro não, porque ele tá de olho em você. E ele vai me contar tudo que tá acontecendo aqui. E se você ficar de marola, ele vai te fazer tropeçar na rua e cair de cara no chão.
Lorrana: Que isso! Pra que tanta agressividade com uma serva do Senhor?
Urso: Hahaha! Relaxa, ele tá de bem com a vida hoje. Vamos lá conhecer seu quarto. E eu já falei: tem outras imagens na casa. É só você não olhar pra eles não puxarem o seu pé de madrugada ele falou, e eu dei um pulo, me agarrei no braço dele e nós entramos. Eu vim de olhos fechados, porque eu não quero ninguém puxando meu pé de madrugada.