Capítulo 15

1354 Palavras
O céu já começava a escurecer quando a degustação finalmente tomou forma. As mesas estavam organizadas, os pratos sendo finalizados, e o ambiente ganhava vida aos poucos com conversas, risadas e o som sutil de talheres sendo ajustados. Tudo estava exatamente como deveria, mas nada dentro de mim estava no lugar. Eu já sabia que ela estaria ali, já tinha visto, já tinha ouvido sua voz, já tinha sentido o impacto. Mas de alguma forma, estar no mesmo espaço que Maya, depois de tudo, ainda parecia errado. Como se o universo tivesse cometido um erro ou talvez estivesse cobrando algo que eu evitei por tempo demais. Meus olhos a encontraram quase sem esforço. Ela estava próxima da mesa principal, conversando com Naomi e Diana. O corpo levemente inclinado na direção delas, mas o olhar distraído, distante. Como se parte dela não estivesse realmente ali. E talvez não estivesse. Phillip dizia algo animado ao lado, completamente envolvido com os detalhes do evento. Ele sorria, gesticulava, opinava. Tudo parecia leve para ele, e por um segundo, eu me perguntei como aquilo era possível. Como ele conseguia não perceber ou se era eu que estava enxergando demais. Ally se aproximou discretamente ao meu lado. — Você tá bem? A pergunta veio baixa, quase no mesmo tom da noite anterior. Respirei fundo antes de responder. — Tô. Mas não convenci nem a mim mesma. Ela não insistiu, mas também não se afastou. E de alguma forma aquilo me mantinha no lugar. A degustação começou oficialmente. Pratos sendo apresentados, sugestões sendo discutidas, pequenos ajustes sendo feitos. Naomi e Diana participaram ativamente, opinando sobre sabores, rindo entre si, criando um clima leve — quase suficiente para disfarçar o que estava por trás de tudo. Quase. Porque vez ou outra eu sentia o olhar dela, e quando eu olhava de volta Maya desviava sempre um segundo antes. Como se ainda não estivesse pronta ou como se estivesse tentando evitar exatamente o que sabia que ia acontecer. Depois de algum tempo — tempo suficiente para o ambiente ficar sufocante demais — eu me afastei. Caminhei em direção à parte externa do Azure, onde o som do mar se misturava com o vento da noite. O mesmo lugar de anos atrás, as mesmas sensações. Mas um peso completamente diferente. Encostei levemente no corrimão de madeira, fechando os olhos por um instante. Respirei fundo tentando acalmar algo que claramente não queria se acalmar. — Você sempre foge. A voz veio atrás de mim. Abri os olhos devagar e me virei. Maya estava ali, a poucos passos de distância. Os olhos fixos nos meus. Sem desviar, sem hesitar, e dessa vez sem espaço pra fuga. O ar entre nós estava pesado. Não era mais silêncio, era pressão. — Você vai continuar fingindo que tá tudo bem? — Maya perguntou, com a voz baixa, mas firme. Fechei os olhos por um segundo. — Eu não estou fingindo nada. — Tá sim — ela respondeu rápido. — Você sempre faz isso. Respirei fundo, tentando manter o controle. — Maya... — Não — ela me interrompeu. — Hoje você vai me ouvir. O tom dela não era alto, mas era definitivo. E isso me paralisou. Ela deu um passo à frente. Os olhos dela não tinham mais dúvida nem hesitação. Só tudo o que ficou guardado por anos. — Eu tentei ser forte — ela começou, a voz falhando só um pouco. — Eu juro que tentei. Engoli seco. — Maya… — Eu fingia que estava tudo bem — ela continuou. — Enquanto por dentro… tudo em mim estava desmoronando. O silêncio ao redor parecia aumentar a cada palavra. — Você não faz ideia do que é ter o coração quebrado daquele jeito — ela disse, me encarando. — Até alguém quebrar o seu. Aquilo me atingiu direto. — E aí vem o depois — ela continuou, andando de um lado pro outro, inquieta. — Primeiro dói e você tenta fingir que não. Depois você sente raiva, fica se perguntando onde foi que tudo deu errado. Eu não conseguia me mexer. — E no final… você só se convence de que não sente mais nada — ela riu, sem humor. — Repete isso tantas vezes que quase acredita. Minha garganta travou. — Mas não passa — ela disse, mais baixo agora. — Nunca passa. Os olhos dela estavam brilhando, mas ela não chorava. — Você sabe como foram esses anos pra mim? — ela perguntou. — Porque você não estava lá. Cada palavra era um corte. — Você não estava lá na noite em que eu desmoronei sozinha no meu quarto — a voz dela falhou agora, de verdade. — Não estava quando eu não aguentava mais segurar tudo isso. Meu peito apertou. — Eu tive que fingir que estava bem — ela continuou. — Sorrir. Ficar quieta. Engolir tudo enquanto por dentro parecia que eu estava gritando o tempo todo. Fechei os olhos mas não adiantava. A voz dela continuava ali. — E você ainda acha que foi só você que sofreu? — ela perguntou, mais dura. — Que foi difícil só pra você ir embora? Balancei a cabeça, em negação. — Eu nunca achei isso. — Então por que você foi embora daquele jeito covarde? — ela disparou. Silêncio. Eu não tinha resposta. Ou talvez tivesse, mas nenhuma que resolvesse. — Eu tentei juntar os pedaços, Elena — ela disse, agora mais baixa. — Sozinha. Aquilo quebrou alguma coisa dentro de mim. — Mesmo depois de tanto tempo… — ela continuou — ainda tinha coisa sua em mim que eu não conseguia arrancar. O mundo parecia pequeno demais pra caber aquilo tudo. — E você simplesmente… foi embora — ela sussurrou. Dessa vez, o silêncio não era pressão, era queda. — Eu precisei aprender a viver com isso — ela disse. — Com o que você deixou. Minhas mãos estavam frias, minha respiração descompassada. — Você não estava lá — ela repetiu, mais uma vez. — Quando eu mais precisei. Aquilo foi o golpe final. O silêncio se instalou entre nós. Eu não conseguia falar. Nenhuma palavra parecia suficiente, nenhuma explicação parecia válida. — Eu… — tentei. Mas minha voz falhou. Engoli seco. — Eu não sabia — consegui dizer, quase em um sussurro. Ela soltou uma risada baixa, amarga. — Claro que não sabia. Dei um passo à frente. — Se eu soubesse... — Você teria ficado? — ela cortou. Aquilo me travou. Porque eu não sabia, e ela percebeu. Sempre percebia. — Foi o que eu pensei — ela disse, desviando o olhar. O silêncio voltou, mas agora diferente, mais cansado, mais dolorido . Respirei fundo, sentindo o peito apertar de um jeito que eu não sentia há anos. — Eu não fui embora porque não me importava — falei. Ela não respondeu. — Eu fui embora porque… — parei. Porque o quê? Porque amava? Porque doía? Porque não sabia como consertar? Levantei o olhar pra ela. — Eu não sabia como ficar sem destruir a gente. As palavras finalmente saíram. Maya fechou os olhos por um segundo e pela primeira vez desde que tudo começou ela não parecia com raiva, só cansada. E aquilo doeu ainda mais. O vento passou entre nós, carregando o som distante das ondas e das vozes vindas lá de dentro. Mas ali fora parecia que só existíamos nós duas, e tudo o que nunca foi resolvido. — E agora? — ela perguntou baixo. — Você sabe ficar? O mundo pareceu diminuir. Minha respiração falhou por um segundo, porque aquela pergunta era tudo. E pela primeira vez eu não tive coragem de mentir. O silêncio respondeu por mim e ela entendeu. Claro que entendeu, sempre entendeu. Maya assentiu de leve, como se já esperasse. Como se, no fundo, nada tivesse mudado tanto assim. E talvez essa fosse a pior parte. Lá dentro, as risadas continuavam, os planos seguiam, o casamento ainda estava de pé. Mas ali fora duas pessoas que nunca terminaram de verdade finalmente estavam começando a encarar tudo o que deixaram para trás. E pela primeira vez não havia fuga suficiente para impedir o que vinha depois.
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