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Era noite. Estávamos sentados na cama, os três. Ester cochilava com a cabeça em minha perna e Gregory olhava para o nada, provavelmente pensando na aldeia, em nossos irmãos e em mamãe. Não posso reclamar, também não conseguia tirar isso da mente. Eu olhava para a curandeira que misturava alguns ingredientes para a sopa no fogão de lenha.
— Qual é o seu nome? — Lancei do nada, a pegando de surpresa no meio do silêncio que tomava conta do local havia alguns minutos.
— O que? — Ela perguntou, experimentando um pouco da sopa com uma colherzinha.
— O seu nome — Disse novamente, olhando e acariciando o amuleto que a Octar nos deu. — Ficamos juntos a maior parte do dia, você nos ajudou e nem sabemos seu nome...
— Ah... — Ela soltou com um leve sorriso que pareceu acariciar meu coração, enquanto colocava mais uma pitada de sal na grande panela de sopa e misturava mais. — Me chamo Clythia. Nunca conheci mais ninguém com esse nome, minha mãe tinha um gosto peculiar para nomes.
Clythia.
— Seu nome é bonito! — Ester falou com voz de sono, ainda deitada na minha perna. Me assustei quando ela falou, achei que ainda estivesse dormindo. — Parece o nome da mãe da minha amiguinha.
Cinthia. Ester se referia a Cinthia, a mãe de sua melhor amiga. Ela é uma bruxa incrível, apesar de quase ter matado meu irmão mais velho com suas plantas mágicas uma vez. Foi engraçado.
— Obrigado, querida. — Clythia agradeceu minha irmã, que coçava o olho, tentando despertar do sono que acabara de ter.
Ester era nova mas sempre fora muito inteligente e esperta, tenho certeza que será uma ótima bruxa quando for mais velha. Quando tudo isso passar...
— Venham meninos, sentem-se aqui para comer. — Clythia falou, colocando 4 tigelas na mesa, ao lado da grande panela de sopa de legumes. O cheiro estava divino.
Enchi o meu prato e o de Ester, a curandeira colocou a comida para Gregory e para ela.
O prato estava bonito, muito colorido.
— Obrigado. Muito obrigado! — Agradeci, olhando para Clythia. Ela me deu um sorriso acolhedor. A pele escura como carvão brilhava com as velas que iluminavam a cabana e os olhos refletiam aquele tom de mel.
Gregory agradeceu. Olhei para Ester que estava sentada do meu lado, já de boca cheia. Ela me olhou e sorriu.
Aquele sorriso me envolveu e penetrou em minhas células e alma. Senti um arrepio percorrer meu braço. Eu precisava lutar e persistir, ir atrás dessa tal Eloah que poderia salvar a todos. Precisava continuar e ser forte por Ester, por Gregory, pela mamãe...
Então, todos nos olhamos, sorrimos e começamos a comer. Estava delicioso.
Comi 2 pratos bem cheios, Ester 1 e Gregory também comeu 2. Clythia tinha duas camas em sua cabana. Me perguntei de quem seria a segunda. Ela falou para Gregory ficar em uma cama e eu e Ester um outra, disse que iria dormir na cabana da irmã e que nos veríamos pela manhã. Não questionei.
Quando a porta se fechou e ficamos sozinhos na cabana iluminada por velas e lampiões, consegui respirar fundo. Esperamos alguns segundos e fui até a janela que dava para as outras cabanas. Pude ver a curandeira entrando em uma outra cabana, mas nãe enxerguei o que tinha dentro, apenas uma mulher nova com a pele e o cabelo iguais aos de Clythia. Sua irmã.
Fechei a janela e me voltei para meus irmãos que me olhavam de olhos arregalados.
Tudo estava indo de acordo com o plano. A vila acreditava na nossa história de crianças perdidas, agora tínhamos mais comida fora a que a Octar colocou em nossas mochilas, poderíamos dormir ali e teríamos um lugar mais calmo para estudarmos o que precisávamos fazer para ajudar a mamãe, por algum tempo pelo menos...