A Temida Pergunta

923 Palavras
A festa tinha avançado. As luzes estavam mais suaves, a música mais alta, as conversas mais soltas. O clima era de celebração. Mas não para todos. Aurora sentia o peso invisível crescendo ao redor dela. Ana Liz agora estava no colo de Owen, apontando para as luzes no teto. — Daddy, look! It’s like stars! (Olha, papai! Parece estrelas!) Owen sorriu. — They are beautiful. (São lindas.) Ele falava com aquela calma segura que sempre teve. Não percebia as conversas em português ao redor. Não entendia os cochichos. Mas percebia os olhares. Principalmente o de Matteo. Do outro lado do salão, Matteo fingia prestar atenção em um grupo de amigos, mas seus olhos voltavam repetidamente para a menina. Ele observava detalhes agora. O formato do sorriso. A maneira como ela inclinava a cabeça ao ouvir algo. O jeito que franzia a testa quando tentava entender. Padrões. Ele não estava procurando. Mas estava encontrando. Bia se aproximou, ainda radiante. — Você está estranho. — Só cansado. Ela segurou o rosto dele entre as mãos. — Hoje não é dia de ficar pensando em nada. Ele concordou. Mas estava pensando. Cinco anos. Ele fez a conta novamente. A lembrança da despedida com Aurora começou a voltar com mais nitidez do que ele gostaria. Do outro lado, Aurora percebeu o olhar fixo. — Don’t look now — ela murmurou para Owen. — But Matteo is staring. (Não olha agora… mas o Matteo está olhando.) Owen demorou dois segundos antes de virar discretamente. — Why? (Por quê?) — I don’t know. (Eu não sei.) Mas sabia. Ela sentia no corpo. Matteo então decidiu se aproximar. Sem pressa. Sem expressão acusadora. Apenas curioso demais. — Ela já melhorou mesmo? — ele perguntou, referindo-se ao tombo anterior. — Já — Aurora respondeu firme. Ana Liz inclinou o corpo para frente, analisando Matteo de perto. — Você dança bem. Ele quase riu. — Você viu? — Vi. Owen observava a interação sem entender as palavras, mas entendendo a proximidade. — What is she saying? (O que ela está dizendo?) — She said you dance well. (Ela disse que você dança bem.) Matteo ergueu as sobrancelhas. — Ela entende tudo, né? Aurora assentiu. — Entende. O silêncio caiu de novo. Matteo não desviava. Ele estava comparando. Agora consciente disso. O formato dos olhos sob a luz. O tom da pele. A linha do queixo. Era sutil. Mas não invisível. Owen então segurou a mão de Aurora, firme. Um gesto pequeno. Mas territorial. E Matteo viu. Não havia prova. Não havia acusação. Mas havia uma sensação que começava a se transformar em hipótese. E hipóteses, quando começam a se formar, dificilmente param sozinhas. Aurora soube naquele instante: Aquela noite não terminaria apenas com música e bolo. Terminaria com perguntas. A música mudou. As luzes diminuíram levemente, e um ritmo mais lento começou a preencher o salão. Alguns casais se aproximaram da pista outra vez. Bia puxou Owen pela mão antes que Aurora pudesse reagir. — Vem dançar! — ela disse, sorrindo, ignorando o fato de que ele provavelmente não entendia metade do que ela falava. Aurora traduziu rápido: — She wants you to dance. Owen soltou um pequeno riso. — I told her I don’t dance. (Eu disse que não danço.) — Too late — Aurora murmurou. Bia já o arrastava gentilmente para o centro. Owen lançou um último olhar para Aurora, como se pedisse ajuda silenciosa. Ela apenas sorriu. E foi nesse segundo que Matteo apareceu diante dela. Sem pressa. Sem pedir permissão verbal. Ele apenas estendeu a mão. Aurora hesitou. Por menos de um segundo. Mas hesitou. E ele percebeu. Ainda assim, ela colocou a mão na dele. A música envolveu os dois. A distância era socialmente aceitável. Formal. Respeitosa. Mas a tensão não era. — Você está diferente — Matteo disse, baixo o suficiente para que só ela ouvisse. — Você também. Ele a conduziu devagar pelo salão. Do outro lado, Bia ria enquanto tentava ensinar Owen os passos básicos. Ele estava rígido demais, educado demais, claramente deslocado — mas se esforçando. — Ele parece bom com ela — Matteo comentou. Aurora sabia que ele não falava de Bia. — Ele é. — Desde quando? A pergunta veio suave. Mas precisa. Aurora manteve o rosto sereno. — Desde sempre. Matteo não desviou o olhar. — Cinco anos, né? O coração dela falhou uma batida. — O quê? — A idade dela. A música parecia distante agora. — É. Ele a girou lentamente, mantendo o controle da dança. — Engraçado como o tempo passa rápido. Ela sentiu o aperto leve nos dedos dele. Não era força. Era tensão. — Por que você está perguntando isso? Ele demorou alguns segundos antes de responder. E quando respondeu, não havia acusação na voz. Só algo mais perigoso. Dúvida. — Porque… — ele inclinou levemente o rosto, mantendo o tom baixo — às vezes a vida dá umas coincidências estranhas demais. Aurora sustentou o olhar. Sem piscar. — Coincidências? Ele respirou fundo. E então, quase como se estivesse comentando algo trivial no meio da música: — Os olhos dela… são iguais aos meus, não são? O mundo não parou. A música continuou. As pessoas riram. Bia girava Owen do outro lado da pista. Mas, para Aurora, o chão desapareceu. Ela sentiu o peso da pergunta. Não havia grito. Não havia confronto. Só a primeira rachadura. Matteo manteve o olhar fixo nela. Esperando. Não por uma confissão. Mas por uma reação. E naquele instante, Aurora soube: O segredo não estava mais adormecido. Ele estava acordado.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR