Sinais...

1064 Palavras
A festa acontecia no salão ao lado da igreja. Luzes amarelas pendiam do teto, mesas redondas cobertas por toalhas claras, música suave preenchendo o ambiente enquanto os convidados circulavam com taças na mão. Bia estava radiante. Matteo, ao lado dela, parecia dividido entre felicidade e exaustão emocional. Aurora observava tudo com um sorriso tranquilo. Ana Liz estava sentada ao lado da avó, comendo bolo e respondendo perguntas das senhoras da cidade com a confiança de quem não se intimida. — Você mora fora mesmo? — Moro. — E gosta mais de lá ou daqui? — Gosto dos dois. Simples. Direta. Owen estava próximo, atento, mesmo sem entender todas as conversas. Ele percebia os olhares — principalmente quando Ana Liz alternava naturalmente entre português e inglês. — Daddy, can I have more juice? Algumas cabeças viravam sempre que ela o chamava assim. Não era comum. Não naquela cidade. Do outro lado do salão, Matteo conversava com dois amigos quando seu olhar caiu sobre a menina. Ele não sabia exatamente o que tinha chamado sua atenção. Talvez o jeito que ela inclinava levemente a cabeça quando escutava algo. Talvez a forma como seus olhos acompanhavam o movimento das pessoas. Ou talvez… Os olhos. Matteo franziu levemente o cenho. Castanhos claros. Com um tom quente sob a luz. Ele já tinha visto aquele olhar antes. Ele desviou, tentando afastar a ideia. Coincidência. Crianças têm traços parecidos. Era apenas impressão. Mas, minutos depois, enquanto atravessava o salão para cumprimentar mais convidados, ele passou mais perto da mesa onde Ana Liz estava. Ela riu de algo que o avô disse. E levantou o rosto. Os olhos encontraram os dele por um segundo. Curiosos. Firmes. Matteo sentiu algo estranho no peito. Não reconhecimento. Mas familiaridade. — Ela é filha da Aurora, né? — um conhecido comentou ao lado dele. — É. — Parece esperta. — É… parece. Ele continuou andando, mas o pensamento não saiu. Do outro lado do salão, Aurora percebeu o olhar. Não foi demorado. Não foi óbvio. Mas foi suficiente. Ela conhecia Matteo desde sempre. Sabia quando ele estava distraído. Sabia quando algo o tirava do eixo. E naquele instante, ele não parecia apenas um noivo feliz. Parecia alguém tentando encaixar uma peça que não sabia que estava faltando. Owen se aproximou dela. — Is everything okay? Aurora forçou um sorriso leve. — Yes. Just… people looking. Ele seguiu o olhar dela discretamente até Matteo. — Why? — Small town. Mas não era só isso. Do outro lado, Matteo pegou uma taça de bebida e respirou fundo. Ele não estava desconfiando de nada concreto. Não havia história. Não havia data. Não havia memória específica. Só um detalhe que incomodava. Os olhos. Ele riu de si mesmo. Era absurdo. Mas, ainda assim, quando Ana Liz correu pelo salão alguns minutos depois, passando perto dele outra vez, ele não conseguiu evitar olhar de novo. E dessa vez, o frio que subiu pela espinha não foi coincidência. Foi intuição. E intuição, ele sabia, raramente vinha do nada. A música aumentou. Risadas se misturavam ao som dos talheres e das conversas animadas. Ana Liz já estava inquieta. Criança nenhuma aguenta cerimônia + festa por muito tempo. Ela escapou da cadeira da avó e começou a correr entre as mesas, desviando das cadeiras com aquela confiança perigosa de quem acha que tem total controle. — Ana Liz, devagar! — Aurora chamou. Mas já era tarde. O salto fino de uma convidada ficou no caminho. O pé pequeno enroscou. O corpo projetou para frente. O tombo foi rápido. Seco. O som do impacto fez alguns convidados virarem o rosto. Antes que Aurora alcançasse, alguém já tinha chegado primeiro. Matteo. Ele estava mais perto do que ela imaginava. Abaixou-se imediatamente, segurando a menina antes que ela tentasse levantar sozinha. — Ei, ei… calma. A voz dele saiu mais suave do que ele esperava. Ana Liz segurava o joelho, os olhos marejados, mas segurando o choro com orgulho. Aurora chegou quase ao mesmo tempo. — Filha, você está bem? — I’m okay… — ela murmurou, mas a voz falhou no final. Matteo examinou o joelho pequeno. Um arranhão superficial começava a aparecer. — Não foi nada grave. Ele ergueu o olhar. E foi aí. Os três ficaram ali. Muito próximos. Aurora ajoelhada de um lado. Matteo do outro. Ana Liz entre os dois. A menina respirou fundo, tentando ser forte, mas quando os olhos dela encontraram os de Matteo novamente, algo ali ficou suspenso. Ele não sabia explicar. Era só um olhar. Mas era intenso demais para ser casual. — Você é corajosa, sabia? — ele disse. Ana Liz fungou e respondeu em português: — Eu não chorei. — Eu vi. Aurora sentiu o coração bater mais rápido. Matteo pegou um guardanapo da mesa próxima e limpou cuidadosamente o pequeno arranhão. O toque foi cuidadoso. Instintivo. Natural demais. Ana Liz o observava com curiosidade. — Você é o noivo? — ela perguntou. Um leve sorriso surgiu no rosto dele. — Sou. — Você tá feliz? A pergunta simples atravessou mais fundo do que deveria. — Tô… — ele respondeu. — Muito. Aurora sentiu que precisava interromper aquilo antes que o silêncio começasse a dizer coisas demais. — Vamos lavar isso no banheiro, filha. Ela estendeu a mão para ajudar Ana Liz a levantar, mas a menina ainda segurava a mão de Matteo. Por um segundo. Um segundo longo demais. Quando finalmente soltou, Matteo ficou ali ajoelhado por um instante a mais do que o necessário. Observando. Analisando. Aurora percebeu. — Obrigada — ela disse, firme, controlada. Ele assentiu. Mas quando ela virou para levar Ana Liz até o banheiro do salão, sentiu o olhar dele nas costas. Não era mais curiosidade de cidade pequena. Era dúvida. Matteo se levantou devagar. O som da festa voltou a preencher o ambiente, mas algo tinha mudado. Ele não tinha provas. Não tinha memória concreta. Não tinha acusação. Mas agora tinha proximidade. E proximidade desmonta certezas. Do outro lado do salão, Owen conversava com um convidado que tentava se comunicar em inglês improvisado. Ele não tinha visto o início do tombo. Mas viu o final. Viu Aurora e Matteo ajoelhados no chão. Viu a forma como os três estavam próximos. E viu o jeito como Matteo demorou para se afastar. Algo sutil passou pelo olhar dele. Não desconfiança. Mas atenção. E, às vezes, atenção é o começo de tudo.
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