Kate.
Porra. Eu vou matar alguém.
Isso não pode acontecer. Não pode acontecer.
Foda-se. f**a-se. f**a-se com força.
O desdém. A ironia. O karma torto do universo. Seja lá o nome que se dê a isso, não me escapa.
A única razão pela qual passei por toda essa farsa — infiltrando-me, sorrindo, fingindo — foi para escrever uma exposição definitiva sobre os O’Rourke. Sobre o que aquela família tirou de mim. Sobre o que destruíram. Sobre a pessoa que assassinaram.
E agora sou eu quem está pronta para cometer um assassinato.
Espancar alguém até a morte com as próprias mãos.
— Gary, que diabos é isso? Quem publicou aquilo? Eu não enviei meus artigos!
Estou em pé no escritório do meu editor, a porta fechada atrás de mim. Não estou gritando, mas deveria. Sinto cada palavra vibrando nos meus dentes, como se a qualquer momento eu fosse explodir.
Nunca senti uma raiva assim antes. Eu era jovem demais quando a Máfia matou meus pais. Jovem demais para entender o que significava terrorismo, máfia, alianças sujas. Jovem demais para sentir ódio da maneira certa.
Mas agora eu sinto.
Eu não lembro do som dos tiros.
É estranho como a mente protege certas coisas. Não lembro do momento exato em que meus pais morreram. Não lembro de gritos. Nem de sangue. Nem da porta sendo arrombada.
Mas lembro do silêncio depois.
Lembro das luzes vermelhas refletindo na janela da sala, piscando como se estivessem me avisando que nada jamais voltaria ao normal.
Meu pai devia aos O’Rourke.
No começo, eram “empréstimos”. Depois vieram as drogas. Depois vieram as ameaças. Ele dizia que ia pagar. Dizia que era temporário. Dizia que estava tudo sob controle.
Eu era jovem demais para entender o que era vício. Jovem demais para entender o que significava dever dinheiro a homens como eles.
Mas não era jovem demais para sentir medo.
Eu ouvia incontáveis discussões à noite. Sussurros cortados. Choro abafado na cozinha.
Meu pai espancava minha mãe todas as noites, covardemente. Eu me escondia dentro do guarda-roupa e tinha medo de sair. Passei muitos anos me culpando por isso.
Uma noite, eles vieram cobrar a dívida.
Os O’Rourke não são conhecidos por paciência.
Não houve segunda chance. Não houve negociação. Apenas execução.
Naquela noite, homens vestidos de preto entraram na minha casa e me tiraram de lá à força. Eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, apenas lembro das mãos firmes me segurando e dos gritos da minha mãe ecoando atrás de mim. Eu chorei, tentei voltar, mas eles me impediram. Enquanto me afastavam, ouvi o som dos disparos — secos, brutais — e depois o silêncio pesado que sempre vem depois da morte. Os gritos da minha mãe foram a última coisa que lembro antes de tudo desaparecer.
Uma dívida precisa ser paga. E quando o dinheiro acaba, eles enviam uma mensagem.
Eu me tornei parte da mensagem.
Fiquei órfã numa única noite.
E isso não foi o fim.
Eu não fui mandada para um orfanato. Não oficialmente. Não legalmente.
Eu fui “transferida”.
Foi assim que explicaram anos depois.
Transferida para quitar o que ainda restava da dívida.
Eu não entendia para onde estava indo. Só sabia que o lugar cheirava estranho. Perfume doce demais misturado com fumaça antiga. As mulheres usavam maquiagem pesada e falavam alto demais, como se o volume escondesse alguma coisa.
Elas olhavam para mim com pena.
Uma delas chorou quando achou que eu não estava vendo.
Eu não entendia por quê.
Eu era pequena demais para compreender o que era aquele lugar. Pequena demais para entender o que significava ser deixada ali.
Eu só sabia que não queria ficar.
Não sei quanto tempo passei lá. Dias? Semanas? Minha memória é fragmentada, como vidro quebrado.
Então, um dia, um casal apareceu.
Velhos. Gentis. Firmes.
Disseram que havia irregularidades. Que papéis não estavam certos. Que alguém tinha denunciado.
Nunca soube quem.
Talvez alguém ali dentro ainda tivesse consciência.
A mulher segurou meu rosto com mãos quentes e disse:
— Você vem conosco agora.
Eu não perguntei para onde. Crianças aprendem rápido quando o mundo não é seguro.
Saí daquele lugar segurando a mão dela.
Ela cheirava a talco e hidratante barato. Ele tinha mãos trêmulas e olhos que não julgavam.
Eles me deram uma casa. Um quarto. Um nome que não estivesse ligado à dívida de um homem morto.
Só muitos anos depois entendi a verdade completa.
Os O’Rourke mataram meus pais por causa de drogas.
E depois tentaram usar a filha como pagamento.
Eu era jovem demais para entender na época.
Mas agora eu entendo.
E é por isso que eu voltei.
Não é apenas jornalismo.
É ajuste de contas.
Eles tiraram tudo de mim.
— Kate, eu não sei — Gary responde, passando a mão pelo cabelo já grisalho. — Foi uma surpresa para mim também. Acordei com o Chuck gritando no meu ouvido às quatro da manhã. Ele nunca quis que você publicasse essa série, e eu não tinha contado a ele sobre isso. Tivemos sorte de não nos barrarem na entrada hoje.
— Isso não é suficiente. — Minha voz sai baixa, mas afiada. — Eu tinha notas no final daqueles rascunhos que não eram para consumo público. Aquilo fora de contexto é dinamite. Coloca minha integridade jornalística em risco.
Gary me observa por um longo momento antes de se inclinar na cadeira.
— Não acho que isso tenha a ver com edição ou qualidade. Você está arrependida.
— Estou arrependida porque não estavam prontos! Não enviei para você nem para revisão por um motivo. Quero saber quem nos hackeou. Quero saber o que mais acessaram. Minhas anotações? Meus e-mails? Minha nuvem inteira?
Meu coração começa a bater mais rápido.
Vou pedir para Sergei e Anton verificarem. Não confio na TI daqui. Nem nos chefões. Se alguém entrou no meu sistema, quero saber até onde foi.
Depois de ter sido seguida ontem à noite, estou assustada. Muito mais do que quero admitir.
E o pior de tudo?
Diferente de ontem, eu não posso ligar para Oliver.
Não posso pedir que ele me proteja.
A ironia quase me faz rir. Ou chorar.
Eu me mantenho firme na frente do meu chefe, mas por dentro sinto como se meu mundo tivesse implodido e depois explodido. Primeiro me esmagaram. Depois me estilhaçaram.
Cheguei atrasada hoje porque estava em Connecticut. Fui ver minha avó. Não menti para meus avós nem para Gary. Se fosse qualquer outro motivo, ele teria se irritado. Mas família é sagrada para ele. Ele perdeu a esposa e o filho em um acidente de carro. Depois perdeu a filha para o câncer.
Trabalho nunca vem antes da família.
Ver minha avó ajudou… um pouco. Não foi um dos dias bons dela. Ela ainda cheirava a pó compacto e Oil of Olay. Contou histórias sobre mim quando eu era pequena — mas não sabia para quem estava contando. Eu era uma estranha para ela naquele momento.
Ainda assim, qualquer tempo com ela eu aproveito.
Ela me criou. Eu a amava.
— Gary, preciso falar com meus CIs. Se eles já viram isso, não vão gostar.
A menos que…
Eles tenham feito isso?
— Como isso está repercutindo com os O’Rourke? — ele pergunta. — Se eles suspeitarem que foi você…
— Eles podem achar que fui eu quem vazou as informações recentes. Mas não sabem como consegui o resto. Vão presumir que alimentei alguém com o material novo.
— E não viriam atrás de você?
Eu engulo seco.
— Não importa o que aconteça, estou segura com os O’Rourke. Eles podem nunca me perdoar… mas não sou o alvo deles.
Ou pelo menos é isso que eu quero acreditar.
— Estou mais preocupada com quem fez isso. Foi alguém aqui dentro?
— A TI está tentando descobrir como entraram na sua nuvem e como publicaram direto no nosso sistema.
— Isso não deveria ser impossível de rastrear! É um dos maiores jornais do país, pelo amor de Deus!
Pode-se ter esperança.
— Seus CIs podem ficar de olho em você? Proteger você?
— Podem. Mas não quero que chegue a esse ponto. Quero isso resolvido até o fim do expediente.
Não espero resposta. Saio da sala.
Caminho até meu cubículo sem olhar para os lados, mas sinto os olhares. Sei que todos viram a manchete. Mackenzie me ligou às quatro e meia da manhã, direto da academia.
— Olha o site — ela disse.
Quando vi a matéria com meu nome estampado ali, senti o mundo girar. Deixei o telefone cair, corri para o banheiro e vomitei.