Oliver.
Ergo os olhos quando alguém bate na porta da frente da minha casa no Brooklyn.
Não sei qual dos gêmeos é, mas Sean e Conor entram sem esperar resposta. Temos chaves das casas uns dos outros e uma política de portas abertas. Como nenhum de nós leva mulheres para casa, não há preocupação com invasão de privacidade.
Mudo de posição na poltrona reclinável abarrotada da minha sala e olho por cima do laptop apoiado no meu colo. Talvez eu seja jovem demais para ter um uma poltrona assim, mas gosto do meu conforto quando estou em casa.
Não preciso olhar para saber que Sean fala primeiro. Conheço os dois desde antes de conseguir formar qualquer memória.
— Você viu isso?
— O artigo da noite passada? Sim.
— Não. O de hoje de manhã.
Baixo o computador devagar.
— O quê? Que p***a é essa?
Conor já está estendendo o telefone para mim. Pego e começo a ler.
Puta. Que. Pariu.
Esse é ainda mais condenatório que o anterior. Não cita nomes diretamente, mas não precisa — não se você conhece o submundo de Nova York. O primeiro artigo mergulhava na história da família, voltando quase vinte anos. Este traz informações atuais. Operações recentes. Movimentações financeiras. Alianças implícitas.
Devolvo o telefone.
— Está escrito como o da noite passada. É bom. Mas não está polido. Isso vazou antes da versão final. Quero saber quem escreveu e quero saber quem apertou o botão de publicar.
— E depois? — Conor pergunta, enfiando o celular no bolso de trás.
— Se for um homem, ele pode adivinhar o que acontece. Se for uma mulher, nós a demitimos e garantimos que nunca mais trabalhe em um veículo relevante. Que vá escrever para alguma gazeta insignificante no meio do nada. Quero essa pessoa fora da cidade e permanentemente silenciada.
Posso levá-los à falência se quiser. Mas isso cria outro tipo de problema. Pessoas desesperadas fazem escolhas imprevisíveis. E eu já deixei claro: não tolero mulheres sendo machucadas.
Mas também não sou misericordioso.
Passo a mão pelo rosto.
— O que o Finn descobriu?
Sean cruza os braços antes de responder. Ele é o quieto. O difícil de irritar. Mas também o mais teimoso de todos nós. Quando éramos crianças, ele nunca tinha ataques de raiva. Ele simplesmente se recusava a fazer qualquer coisa que não quisesse. Sentava no chão e ficava em silêncio até vencer pelo cansaço.
Ele fala agora, com aquela mesma calma inabalável.
— Finn está tentando identificar quem poderia ter acesso a informações tão antigas. Quem escreveu isso tem uma rixa. Quem vazou quer resultado rápido. Ou extorsão. Aposto na segunda opção. E quem publicou fez isso sem passar por editor.
— Descubra quem está surtando na redação. Alguém lá dentro deve estar em pânico por isso ter ido ao ar antes de estar pronto. Quero essa pessoa sentada na minha frente até as três da tarde. Hoje.
Sean me lança um olhar avaliador.
— Finn sabe que agora não é mais um pedido?
— Sabe. E agora é uma ordem. Não podemos permitir outro artigo. Temos gente dentro do jornal. Faça-os falar.
— Multar — Conor diz com um meio sorriso.
Ele é nosso elo com a imprensa. Estudou jornalismo no ensino médio e na faculdade. Intrometido quando quer ser. Sean é o hacker — nosso principal coletor digital. Mas Conor entende pessoas. Consegue informações trocando favores e segredos.
Sean se joga no sofá. Conor gira a outra poltrona para nos encarar.
— Temos a mesma idade que todos, exceto Salvatore e Enrique — Sean continua. — Eles sabiam de tudo porque estavam lá naquela época. Crescemos com os filhos deles. Se alguém aprendeu algo sobre nós, pode ter sido naquela época.
Ele não está errado.
Salvatore comanda a Cosa Nostra. Enrique Diaz lidera o cartel colombiano. Ambos estão na casa dos cinquenta. Ambos no poder há mais de vinte anos.
E ainda vivos.
Isso não é coincidência.
Quando éramos crianças, todas as quatro famílias moravam no Queens. Jogávamos peewee, ligas infantis, esportes escolares juntos. Não frequentávamos a mesma escola primária, mas acabamos na mesma escola secundária — uma coincidência política conveniente.
Dentro do campo, éramos aliados.
Fora dele… rivais em formação.
Passávamos de amigos a inimigos dependendo da temporada. Não mudou muito.
A única família que não estava totalmente inserida era a Bratva. Eles chegaram mais tarde. Ocupados demais sobrevivendo ao próprio pakhan — um psicopata que se excitava com tortura.
Mas no ensino médio, os Morozov e os Andreyev dominavam os times junto com os Mancinelli e nós.
Tínhamos que jogar limpo na escola. Havia alunos não afiliados. Não podíamos levar a Organização para dentro do ginásio.
Mas fora dali?
O jogo real começava.
— Ei. — Conor estala os dedos na minha frente. — Você quer que eu cobre favores ou não? E quanto está disposto a pagar?
Volto ao presente.
— Nada, se for homem. Diga que é melhor para a saúde dele colaborar. Se for mulher… pergunte ao Finn quanto podemos oferecer para que desapareça em silêncio.
Finn é nosso contador. O homem equilibra livros como se fosse religião. Cada centavo reconciliado diariamente há mais de uma década.
Sou três meses mais velho que ele.
Sean e Conor são gêmeos irlandeses de Finn — dez meses mais novos. Cormac e Conor também. Conor nasceu prematuro; por isso a diferença é de sete meses. Hoje, ninguém imaginaria.
Nossos pais planejavam apenas dois filhos por casal. Quebrar o estereótipo.
Não funcionou.
Sean e Conor vieram dois por um.
Eu também não fui filho único.
Colleen era um ano e meio mais nova que eu.
Engulo em seco.
A sala parece menor de repente.
Colleen.
O nome ecoa.
Sean percebe primeiro. Ele sempre percebe.
— Ei — ele diz, mais baixo agora.
Passo a mão pela nuca.
— Esse artigo… — minha voz falha por um segundo — menciona Donovan e Declan. Está trazendo o passado de volta. Tudo.
Conor fica sério.
Donovan herdou o posto quando meu avô morreu no acidente de avião. Ele perdeu a cabeça quando feriu a esposa de um homem da Bratva. Pagou com a vida. Declan assumiu e repetiu o erro.
Dois líderes mortos por cruzarem uma linha que nunca deveria ter sido cruzada.
E eu herdei a guerra.
— Eles estão tentando nos empurrar para o mesmo buraco — Sean diz.
— Não vão conseguir — respondo.
Mas minha mandíbula está travada.
Porque o problema não é só reputação.
É memória.
É o que foi feito.
É o que eu tive que permitir para que a família sobrevivesse.
— Encontre o vazamento — digo por fim. — Antes que publiquem a terceira parte.
Sean já está com o celular na mão.
Conor já está mandando mensagens.
E eu fecho o laptop devagar.
Porque isso não é mais só imprensa.
Isso é guerra.
E alguém acabou de disparar o primeiro tiro.
Engulo o nó que se forma na minha garganta, inspiro fundo e solto o ar devagar.
— Vocês sabem que eu confio pessoalmente em vocês para lidar com tudo isso. — Passo a mão pelo rosto, tentando organizar a avalanche de pensamentos. — Eu tenho uma reunião com Hollands e Watling. Cormac e Conor me contaram um segredinho bem interessante sobre a Hollands. Vai ser útil.
— Oh? — Conor abaixa o queixo e ergue as sobrancelhas ao mesmo tempo. A expressão é a mesma desde o dia em que saiu do útero. Um merdinha arrogante. Ainda bem que eu o amo mais como um irmão do que como primo. Na verdade, todos nós somos mais irmãos do que primos. Nossos pais fizeram questão de nos criar assim.
— Eles descobriram que a Hollands e o Spiegel — um agente do ATF — estão transando. Como se o fato de serem cunhados já não fosse problemático o suficiente. A esposa do Spiegel é a p***a da vice-diretora de Inteligência Nacional.
O sorriso de Conor cresce devagar, quase reverente.
Hollands é diretora do FBI. Segunda no comando, logo abaixo do Diretor de Inteligência Nacional. Um dos cargos mais sensíveis do país. O tipo de posição que exige ética irrepreensível — o que torna toda essa situação ainda mais deliciosa.
Nepotismo colocou os dois onde estão. Favores, sobrenomes certos, portas abertas demais. E agora, um caso extraconjugal estrategicamente inconveniente.
Cormac e Simas colocaram Hollands no nosso bolso em um dia chuvoso, ameaçando contar tudo à irmã do Spiegel. Ninguém na minha família é católico à moda antiga. Que se f**a quem você quiser. Mas se essa informação for útil para nós, então nós vamos saber. E usar.
— Não brinca… — Conor praticamente canta. — Isso é sério?
Ele teve mais de um atrito com Hollands ao longo dos anos. Meu primo cuida principalmente da nossa divisão de construção, mas somos todos coproprietários da empresa de importação e exportação, além da transportadora — que é dele. Conor é o melhor negociador que eu conheço. Já fechou acordos que mantiveram nossos homens fora da prisão quando, no papel, deveriam pegar dez anos fáceis.
— Ah, eu m*l posso esperar para falar com ela de novo — ele diz, saboreando cada palavra. — Isso vai ser bom pra c*****o… pelo menos até ela se aposentar.
— A reunião é em duas horas — interrompo. — Preciso terminar de revisar esses documentos antes de Cormac e eu entrarmos lá. Quero saber cada precedente, cada brecha, antes de sentarmos naquela mesa.
Cormac, Conor e eu somos advogados. Cormac é especialista em direito penal. Conor cuida das nossas entidades corporativas. Eu só consegui exercer por alguns anos antes de assumir o manto de chefe da família.
Tinha acabado de concluir meu LLM em direito corporativo quando tudo desandou. Conor e eu estávamos no meio de uma aquisição gigantesca que deu errado no pior momento possível. Eu já aconselhava o tio Donovan havia anos, mas ele raramente me ouvia de verdade. Durante aquela negociação, ele resolveu bancar o esperto — e se fodeu.
Graças a todos os santos, Declan liderou por apenas um mês.
Um inútil do c*****o. Mais velho do que eu, arrogante demais para aceitar conselhos. Donovan foi chefe por quase uma década porque me escutava. Declan jamais faria isso.
Eles acabaram com uma carreira que eu realmente gostava.
Não tenho mais tempo para atuar, então Conor assumiu tudo. Mas ninguém pode arrancar conhecimento da minha cabeça. Posso ter me especializado em corporativo, mas conheço os códigos criminais como se estivessem tatuados no meu cérebro.
Olho para Conor antes de bloquear a tela do notebook.
— Você tem tempo de vir com a gente? Se a Hollands reagir m*l, Cormac e eu temos o segredo. Agora você também tem. Você pode conduzir a negociação.
— Onde é a reunião? — ele pergunta.
— Gatinhas.
Outro dos nossos clubes de striptease. Gatinhas… gatas… bucetas. Não exige muita criatividade para chegar ao nome.
Nem Hollands nem Watling querem ser vistos se encontrando conosco em qualquer outro lugar — a não ser que seja algemados, dentro de uma sala de interrogatório.
Vejo Sean e Conor flexionarem a mão esquerda ao mesmo tempo. É um sinal que eles nunca exibem fora da família. Nenhum de nós gosta particularmente desses clubes, mas são um m*l necessário no nosso negócio.
Conor só aparece quando precisa fazer a folha de pagamento, revisar estoque ou participar de reuniões. Normalmente resolve as duas primeiras no mesmo dia. Mas agora há outra coisa no ar.
— E então? — pergunto.
Sean sustenta meu olhar. É a vez dele inspirar fundo e soltar o ar lentamente.
— E quanto à Kate?
A pergunta paira no ar, pesada.
E eu sei que, mais cedo ou ma
is tarde, isso também vai virar um problema que dinheiro, influência ou segredos talvez não consigam resolver.