Episódio 12

1504 Palavras
°•~~~~🔥~~~~•° Virginia. Para esta receita, escolha chocolate com alto teor de cacau. Amargo. Seco. Não é para os fracos de coração. Do tipo que não tenta agradar a todos e não se desculpa pelo seu amargor. Derrete lentamente, com manteiga e calor constante, até se obter uma mistura espessa, profunda e impenetrável... Não brilha. É ameaçador. Os ovos são incorporados um a um, cuidadosamente, como se cada gesto devesse ser medido. O açúcar entra depois, mas não doma o cacau. Apenas o amolece o suficiente para torná-lo suportável. A base é pressionada firmemente na forma. Sem delicadeza. Deve suportar peso. Deve resistir. A mistura é despejada por cima e espalhada com movimentos lentos e precisos, como alguém que sabe exatamente até onde pode ir e onde deve parar. O forno não é violento. É paciente. Cozinha por dentro, escurecendo, solidificando, dando estrutura a algo que já era denso desde o início. Ao sair do forno, a superfície parece lisa, perfeita, elegante. Então, o sal marinho é polvilhado. Cristais irregulares. Brancos. Crocantes. Pequenos impactos reais numa superfície polida. O sal não decora. Ele desperta. Quebra a doçura persistente. Obriga você a prestar atenção. Cada mordida é controle a princípio, amargor depois, e finalmente… um aviso que persiste na língua. Não é um bolo de chocolate meio-amargo para consolar. É um bolo para entender que algumas coisas belas são feitas de escuridão, poder… e silêncio bem administrado. Acordo antes dele. Não sei se é o silêncio ou o peso do seu braço em volta da minha cintura, mas abro os olhos lentamente, como se tivesse medo de que fazê-lo rápido demais pudesse destruir tudo. Lorenzo dorme de costas, uma mão no peito, a outra ainda me segurando. A sua respiração é profunda, calma. Vulnerável. E é isso que mais me desarma. Observo-o sem pudor. Cada centímetro dele parece ter sido feito para ser admirado: a linha firme do queixo, a cicatriz quase imperceptível na sobrancelha, a boca que sabe exatamente como me fazer esquecer quem sou. O seu torso é uma obra de força contida, músculos que não se exibem, mas que prometem. Mesmo dormindo, ele impõe presença. Ele é injustamente bonito. Como se pressentisse o meu olhar, ele franze levemente a testa e então abre os olhos. Ele me vê observando-o, e um sorriso lento e perigoso se espalha por seus lábios. — Por que você está me olhando assim? Ele pergunta, com a voz rouca. Sinto o meu rosto corar. — É que... você é muito bonito. Respondo, sem pensar muito. Não tenho tempo para me arrepender. Num movimento rápido, ele me pega, me vira e me coloca embaixo dele. O seu peso não me esmaga, me envolve. Ele me segura com os braços como se eu fosse algo que pudesse escapar. — Quantos homens já ouviram isso dos seus lábios, pecadora Virginia? Ele pergunta, abaixando o rosto até ficar a centímetros do meu. Há algo no seu olhar. Não é raiva. É… algo mais sombrio. Coloco as mãos no seu peito e, com um giro rápido, consigo ficar por cima dele. Me acomodo, triunfante, e sorrio. — Está com ciúmes, Lorenzo? Ele dá uma risadinha suave. Segura os meus pulsos e começamos uma luta leve e divertida. Rolamos entre lençóis amassados, risadas abafadas, beijos que nunca chegam ao destino porque a brincadeira atrapalha. Até que o telefone dele toca, e a mudança é imediata. Ele se enrijece como um animal que acabou de ouvir um tiro. Afasta-se de mim, pega o celular na mesinha de cabeceira e atende sem me olhar. — Fale. Diz ele. Não ouço a outra voz, mas vejo a sua expressão se fechar, endurecer. Ele responde em frases curtas, em italiano, baixo demais para entender. Desliga rapidamente. — Preciso ir. Diz ele, levantando-se. — Agora? Sento-me, franzindo a testa. — Sim, há uma emergência na... fábrica. Assinto, embora algo dentro de mim se enrijeça. — Traga-me chocolates. Digo, tentando parecer descontraída. Ele me olha e a sua expressão suaviza um pouco. — Vou trazer uma montanha. Ele responde, beijando a minha testa. — Descanse um pouco. Ele se veste em silêncio e sai. A porta se fecha e o quarto fica silencioso. Silencioso demais. Permaneço na cama por mais alguns minutos, observando a bagunça: lençóis amassados, roupas espalhadas, claros sinais de uma noite de paixão. Visto-me devagar e ligo para meu pai enquanto caminho pela mansão. Temos a mesma conversa todos os dias: ele pergunta como estou, eu pergunto a ele. Se preciso de alguma coisa, se estou confortável. Se a minha mãe está se comportando. Evitei contar a ele que não tenho notícias de Nara há semanas, desde que ela partiu num iate. Não quero dar a ele nenhum motivo para desgostar ainda mais da ex-esposa. — Então, como está o novo marido de Nara? Ele te trata bem? Paro quando estou caminhando na beira da piscina. — Bem, sim... Mordo o lábio. — Ele é muito atencioso, cuida de mim... — Que bom. Ele murmura. — Embora eu não confie nele. — Por quê? Volto a caminhar em direção à mansão. — Não sei, nada que venha da sua mãe me inspira confiança. Ele suspira. — Mas se você está bem... — Estou, pai. Consigo esboçar um pequeno sorriso. — Eu diria até que... gosto muito mais da companhia do Lorenzo do que da da Nara. — Tudo bem, querida... Se você diz que está bem aí, é o que importa. Ele responde. — Preciso ir, vamos viajar agora. — Perfeito, divirta-se, eu te amo. Tchau! Depois de guardar o celular no bolso, começo a caminhar sem rumo, deixando os meus pés me guiarem. Atravesso corredores intermináveis ​​até chegar à biblioteca. Estou sem fôlego. A sala é enorme. Dois andares de estantes de madeira escura, escadas rolantes, poltronas de couro. Me lembra uma biblioteca que meu pai construiu para um milionário excêntrico quando eu era criança. Entro, observando tudo com fascínio. Os meus dedos percorrem as lombadas dos livros enquanto caminho. Até que paro na prateleira mais alta, apenas alguns centímetros mais alta que as outras. Sustentada por duas colunas de madeira esculpida. Eu tinha oito anos quando meu pai me levou à mansão do homem que o havia contratado para projetar uma biblioteca digna de "um imperador". E embora o homem tivesse um ego enorme, investir numa boa biblioteca não me pareceu tão absurdo. Aquele cavalheiro também lhe pedira para construir uma passagem que levasse ao seu quarto, para que pudesse acessar a biblioteca sempre que quisesse. Inclino a cabeça, observando os livros. E se...? Sem pensar duas vezes, começo a mover cada livro, procurando o interruptor, quase por diversão, e não por curiosidade genuína. Procuro sem querer admitir que estou procurando algo. Até que encontro um livro ligeiramente fora do lugar. Movo-o. Nada. Tento outro... E então acontece. Um clique seco. Preciso. A estante se move lentamente, revelando uma passagem estreita. O ar que sai de lá é frio. Não cheira a livros. Cheira a metal. A confinamento. Hesito. Cada parte racional de mim grita para que eu pare. Mas quando é que eu já ouvi a minha voz racional? É como aquelas cenas de filmes de terror em que você grita para a tela, dizendo para a garota não descer ao porão. Aqui estou eu, descendo voluntariamente ao porão, sabendo que pode haver um assassino do outro lado. O túnel leva a um escritório. Há telas ligadas, exibindo imagens de câmeras de segurança da cidade. Mapas, rotas marcadas com linhas vermelhas. Mais câmeras de segurança, aparentemente de depósitos. E fotografias. Os meus passos param quando as vejo. Entre elas, cinco fotos do carro em que eu estava no dia do acidente. O veículo está amassado e esmagado, com buracos que parecem... buracos de bala. O meu estômago revira. Aproximo-me da mesa como se não tivesse controle sobre o meu corpo. Há uma foto sobre ela: Lorenzo, mais jovem, com uma ruiva encostada no seu ombro. Nenhum dos dois está sorrindo. Há também uma pasta com documentos. Eu não deveria abri-la... mas abro. Há listas de transações, exportações. Uma contagem de drogas, armas. Empresas de fachada, rotas de transporte. Nomes falsos. Meu sangue gela. Mas, de repente, tudo faz sentido. O fato de Lorenzo ter tanto dinheiro, da sua empresa não precisar de redes sociais e ser tão conhecida. O acidente... eu senti, senti que tinha sido planejado... Ouço passos atrás de mim. — O que você está fazendo, Virginia? A voz me faz pular, os papéis se espalhando pelo chão. E me viro lentamente. Lorenzo está parado na porta. O seu rosto está tudo, menos gentil. Não há nenhum traço do homem que me beijou horas atrás. Este Lorenzo não está sorrindo. Ele fecha a porta calmamente atrás de si. Agora eu entendo que o homem por quem estou me apaixonando… nunca existiu. Só este existe. Ele sempre esteve lá, esperando que eu o visse. E eu entendo, com uma clareza devastadora, que eu nunca estive verdadeiramente segura.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR