CAPÍTULO 3 – HERDEIRO FRACASSADO

1518 Palavras
Enrico A chuva cai fina sobre a cidade. Do alto do 42º andar, as gotas escorrem pelos vidros da Torrance Corporation como pequenas rachaduras translúcidas. Sempre gostei de chuva. Ela lava o que é supérfluo, expõe o que é sólido. A diferença é que, hoje, nada parece sólido o bastante. — Senhor Torrance, seu filho chegou — avisa Juliana pela linha interna. Fecho o relatório à minha frente e respiro fundo. É cedo demais para mais uma decepção. — Mande entrar. Alguns segundos depois, a porta se abre. O perfume invade o ambiente antes mesmo que ele diga qualquer coisa. Um aroma doce, misturado com cigarro e bebida, um coquetel que já sei de cor. Afonso entra com as mãos nos bolsos, a roupa desalinhada, o cabelo bagunçado e aquele sorriso de quem acha que o mundo gira em torno dele. — Pai… — ele fala arrastado — podia pelo menos fingir que está feliz em me ver. Olho para ele sem expressão. — Difícil fingir quando o que eu vejo é o contrário do que criei. Ele ri baixo, se jogando na cadeira em frente à minha mesa. — Você trabalha demais, pai. Devia aproveitar um pouco. A vida é curta. — A sua, talvez. — Inclino-me para frente. — Eu trabalho pra garantir que a empresa sobreviva, mesmo que você continue se esforçando pra afundá-la. Afonso revira os olhos e serve o próprio gole do uísque que ele sabe que eu não ofereceria. — Lá vem o discurso. Seguro o impulso de fechar o punho. Já faz tempo que discutir com ele não adianta. — O discurso é o mesmo porque você continua sendo o mesmo — digo com calma. — Festas, cassinos, mulheres diferentes toda semana. Nenhum compromisso. Nenhum propósito. Ele dá de ombros, encarando o copo entre os dedos. — Propósito é relativo. O meu é viver bem. — E o meu é garantir que a Torrance Corporation não termine nas mãos de alguém incapaz de cuidar de si mesmo. O silêncio pesa. Apenas o som constante da chuva preenche o espaço. — Eu continuo sendo seu filho, pai. Quer você queira ou não. — Ele se levanta, os olhos ligeiramente marejados de álcool. — E um dia vai ter que aceitar isso. — Ser meu filho não te dá direito de ser um desastre. — Minha voz sai mais firme do que eu planejava. Ele ri, meio amargo. — Às vezes acho que o que você realmente queria era outro herdeiro. Um que tivesse a sua cara, seu jeito… sua frieza. Ele acende um cigarro, e o cheiro invade o escritório. Passo a mão pelo queixo, controlando a irritação. — Apague isso agora. Ele traga devagar, desafiador, antes de esmagar o cigarro no cinzeiro de cristal. — Pronto, senhor Ceo. Alguma outra ordem? Levanto-me devagar. Sou um homem alto e aprendi cedo que o silêncio, quando pesado o suficiente, assusta mais do que gritos. — Vá pra casa, Afonso. Tome um banho. Durma. E, se ainda lembrar quem você é quando acordar, tente se comportar como um Torrance. Ele dá um meio sorriso e caminha até a porta. Antes de sair, se vira. — Relaxa, pai. Um dia o senhor ainda vai sentir orgulho de mim. — Espero estar vivo pra ver isso. A porta se fecha, e o som do trinco ecoa pelo escritório como um alívio e uma condenação ao mesmo tempo. Sento-me novamente. Pego a caneta e tento retomar o relatório, mas as letras já perderam o sentido. Meu filho é o herdeiro de um império que ergui com sangue e noites sem sono, mas parece ter herdado apenas o gosto pelo prazer. Kathleen, minha esposa, dizia que ele só precisava de tempo, que um dia amadureceria. Ela confiava nisso. Doze anos se passaram desde que ela morreu, e o tempo só o tornou mais inconsequente. Encosto-me à cadeira e fecho os olhos por um momento. A voz dela ainda vive dentro de mim às vezes, doce, calma, serena. Mas a serenidade dela me abandonou junto com o último adeus. — Senhor Torrance… — Juliana bate à porta suavemente. — Entre. Ela surge pontual, tablet em mãos, postura impecável, como sempre. — As análises de contratos estão em andamento. E sobre o assunto… pessoal, o senhor pediu que eu filtrasse alguns perfis. Assinto, voltando à realidade. — Alguma candidata adequada? Ela hesita, olhando para o tablet. — Apenas uma respondeu positivamente de imediato. — Imediatamente? — levanto uma sobrancelha. — Explique. — Mandei a proposta reservada esta manhã, e a resposta veio em menos de dez minutos. O nome dela é Naya Reese. Trabalha no setor de abastecimento, prédio secundário da empresa. — Setor de abastecimento? — Sim, senhor. Quatro anos de casa, fichas exemplarmente limpas, sem ocorrências. Aproximo as mãos, pensativo. — Nenhuma exigência? Nenhuma pergunta? Juliana balança a cabeça. — Nenhuma. Apenas pediu que eu encaminhasse os formulários e informasse que aceitava todos os termos, “sem condições”. A frase se repete na minha mente. — “Sem condições.” — outra curiosidade me surgiu — Ela pediu pra conhecer o rapaz antes? — pergunto. — Não, senhor. Nem mencionou o nome dele. Isso é estranho. A maioria das candidatas anteriores recuou ao descobrir que o casamento seria com Afonso. — Interessante… — sussurro. — Deseja que eu verifique antecedentes mais detalhados? — Não por enquanto. — Giro a caneta entre os dedos. — Apenas siga com os trâmites. Juliana hesita por meio segundo, depois concorda. — Como quiser. Quando ela sai, volto o olhar para o horizonte, a metrópole cintilando por trás da cortina de chuva. Uma mulher que aceita um casamento cego, sem hesitar? Ou está desesperada… ou sabe exatamente o que quer. Abro a pasta com os documentos sobre a família Reese que Juliana deixou sobre a mesa. As informações são básicas. Uma casa hipotecada, uma mãe doente, um irmão com registros de processos por dívidas e furtos. Tudo faz sentido agora. Desespero. Passo o polegar sobre o papel e sinto uma pontada de incômodo no peito, algo entre compaixão e curiosidade. O telefone toca. — Fala. — Aqui é o departamento jurídico — uma voz masculina responde. — Confirmando se é para iniciar o processo de união civil conforme o modelo padrão. Olho para o selo da empresa impresso no topo do documento. — Sim. Inicie. — Deseja adicionar cláusulas extras? Penso por um instante, depois balanço a cabeça, mesmo que o interlocutor não possa ver. — Não. Se ela aceita tudo… que seja exatamente como está. — Entendido, senhor. Desligo. As luzes do escritório refletem meu rosto no vidro da janela. Linhas de idade começam a marcar mais fundo minha expressão. Quarenta e nove anos. Meia-idade. Solidão administrada com eficiência, como qualquer outro problema que o dinheiro pode adiar, mas não resolver. Meu olhar percorre a cidade abaixo. Lembro do garoto que fui, pobre, determinado, com as mãos sujas de graxa e o sonho de ter o próprio nome gravado em algum prédio. Consegui. Mas junto com o império, veio o vazio. A porta se abre novamente, discretamente. — Senhor? — Juliana aparece outra vez. — O senhor precisa assinar a autorização principal. Ela estende o documento. Leio o nome dela: Naya Reese Torrance (proposta de contrato civil), e meu olhar prende naquelas letras. Nunca vi esse rosto, mas o nome carrega um peso inesperado. Assino. A caneta risca o papel com firmeza, selando mais um negócio da minha vida. Só que, por alguma razão, essa assinatura parece diferente. Juliana recolhe as folhas com cuidado e me entrega uma cópia. — Tudo pronto. Ela deve assinar amanhã, no setor jurídico. — Ótimo. Ela sai. Fico sozinho outra vez. A noite cai devagar, e o escritório escurece aos poucos até restar apenas o brilho da cidade. Fecho o laptop e sirvo um uísque. O líquido âmbar gira dentro do copo, refletindo a luz suave da luminária. Levo aos lábios, mas não bebo. Vejo o reflexo do prédio vizinho e, por um momento, acho que enxergo minha própria juventude ali, arrogante, sonhadora, invencível. Tudo que Afonso acredita ainda ser. Mas ser invencível é o primeiro passo pra cair. Deixo o copo de lado. Pego a pasta com o nome dela: “Naya Reese”. Não sei por quê, mas meus dedos demoram um pouco mais pra soltá-la. — “Um casamento em nome do controle.” — pensei. Uma forma de dobrar o filho rebelde. Mas, pela primeira vez em muito tempo, algo me diz que estou prestes a perder o controle. Olho novamente para o horizonte, sentindo o peso das escolhas que sempre fiz em nome da razão. — Se ela quer esse casamento… — falo para o vidro, usando a própria imagem como juiz — …que seja. Sento-me de volta na poltrona, o som da chuva recomeça, firme e constante, como um prelúdio. Não sei quem é Naya Reese. Não sei o que a trouxe até mim. Mas sei que o destino, uma vez em movimento, não dá pra parar. E o destino, eu sinto, acabou de virar a chave.
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