Enrico
A chuva cai fina sobre a cidade. Do alto do 42º andar, as gotas escorrem pelos vidros da Torrance Corporation como pequenas rachaduras translúcidas. Sempre gostei de chuva. Ela lava o que é supérfluo, expõe o que é sólido. A diferença é que, hoje, nada parece sólido o bastante.
— Senhor Torrance, seu filho chegou — avisa Juliana pela linha interna.
Fecho o relatório à minha frente e respiro fundo. É cedo demais para mais uma decepção.
— Mande entrar.
Alguns segundos depois, a porta se abre. O perfume invade o ambiente antes mesmo que ele diga qualquer coisa. Um aroma doce, misturado com cigarro e bebida, um coquetel que já sei de cor.
Afonso entra com as mãos nos bolsos, a roupa desalinhada, o cabelo bagunçado e aquele sorriso de quem acha que o mundo gira em torno dele.
— Pai… — ele fala arrastado — podia pelo menos fingir que está feliz em me ver.
Olho para ele sem expressão.
— Difícil fingir quando o que eu vejo é o contrário do que criei.
Ele ri baixo, se jogando na cadeira em frente à minha mesa.
— Você trabalha demais, pai. Devia aproveitar um pouco. A vida é curta.
— A sua, talvez. — Inclino-me para frente. — Eu trabalho pra garantir que a empresa sobreviva, mesmo que você continue se esforçando pra afundá-la.
Afonso revira os olhos e serve o próprio gole do uísque que ele sabe que eu não ofereceria.
— Lá vem o discurso.
Seguro o impulso de fechar o punho. Já faz tempo que discutir com ele não adianta.
— O discurso é o mesmo porque você continua sendo o mesmo — digo com calma. — Festas, cassinos, mulheres diferentes toda semana. Nenhum compromisso. Nenhum propósito.
Ele dá de ombros, encarando o copo entre os dedos.
— Propósito é relativo. O meu é viver bem.
— E o meu é garantir que a Torrance Corporation não termine nas mãos de alguém incapaz de cuidar de si mesmo.
O silêncio pesa. Apenas o som constante da chuva preenche o espaço.
— Eu continuo sendo seu filho, pai. Quer você queira ou não. — Ele se levanta, os olhos ligeiramente marejados de álcool. — E um dia vai ter que aceitar isso.
— Ser meu filho não te dá direito de ser um desastre. — Minha voz sai mais firme do que eu planejava.
Ele ri, meio amargo.
— Às vezes acho que o que você realmente queria era outro herdeiro. Um que tivesse a sua cara, seu jeito… sua frieza.
Ele acende um cigarro, e o cheiro invade o escritório. Passo a mão pelo queixo, controlando a irritação.
— Apague isso agora.
Ele traga devagar, desafiador, antes de esmagar o cigarro no cinzeiro de cristal.
— Pronto, senhor Ceo. Alguma outra ordem?
Levanto-me devagar. Sou um homem alto e aprendi cedo que o silêncio, quando pesado o suficiente, assusta mais do que gritos.
— Vá pra casa, Afonso. Tome um banho. Durma. E, se ainda lembrar quem você é quando acordar, tente se comportar como um Torrance.
Ele dá um meio sorriso e caminha até a porta. Antes de sair, se vira.
— Relaxa, pai. Um dia o senhor ainda vai sentir orgulho de mim.
— Espero estar vivo pra ver isso.
A porta se fecha, e o som do trinco ecoa pelo escritório como um alívio e uma condenação ao mesmo tempo.
Sento-me novamente. Pego a caneta e tento retomar o relatório, mas as letras já perderam o sentido.
Meu filho é o herdeiro de um império que ergui com sangue e noites sem sono, mas parece ter herdado apenas o gosto pelo prazer.
Kathleen, minha esposa, dizia que ele só precisava de tempo, que um dia amadureceria. Ela confiava nisso. Doze anos se passaram desde que ela morreu, e o tempo só o tornou mais inconsequente.
Encosto-me à cadeira e fecho os olhos por um momento. A voz dela ainda vive dentro de mim às vezes, doce, calma, serena. Mas a serenidade dela me abandonou junto com o último adeus.
— Senhor Torrance… — Juliana bate à porta suavemente.
— Entre.
Ela surge pontual, tablet em mãos, postura impecável, como sempre.
— As análises de contratos estão em andamento. E sobre o assunto… pessoal, o senhor pediu que eu filtrasse alguns perfis.
Assinto, voltando à realidade.
— Alguma candidata adequada?
Ela hesita, olhando para o tablet.
— Apenas uma respondeu positivamente de imediato.
— Imediatamente? — levanto uma sobrancelha. — Explique.
— Mandei a proposta reservada esta manhã, e a resposta veio em menos de dez minutos. O nome dela é Naya Reese. Trabalha no setor de abastecimento, prédio secundário da empresa.
— Setor de abastecimento?
— Sim, senhor. Quatro anos de casa, fichas exemplarmente limpas, sem ocorrências.
Aproximo as mãos, pensativo.
— Nenhuma exigência? Nenhuma pergunta?
Juliana balança a cabeça.
— Nenhuma. Apenas pediu que eu encaminhasse os formulários e informasse que aceitava todos os termos, “sem condições”.
A frase se repete na minha mente.
— “Sem condições.” — outra curiosidade me surgiu — Ela pediu pra conhecer o rapaz antes? — pergunto.
— Não, senhor. Nem mencionou o nome dele.
Isso é estranho. A maioria das candidatas anteriores recuou ao descobrir que o casamento seria com Afonso.
— Interessante… — sussurro.
— Deseja que eu verifique antecedentes mais detalhados?
— Não por enquanto. — Giro a caneta entre os dedos. — Apenas siga com os trâmites.
Juliana hesita por meio segundo, depois concorda.
— Como quiser.
Quando ela sai, volto o olhar para o horizonte, a metrópole cintilando por trás da cortina de chuva.
Uma mulher que aceita um casamento cego, sem hesitar? Ou está desesperada… ou sabe exatamente o que quer.
Abro a pasta com os documentos sobre a família Reese que Juliana deixou sobre a mesa. As informações são básicas. Uma casa hipotecada, uma mãe doente, um irmão com registros de processos por dívidas e furtos.
Tudo faz sentido agora. Desespero.
Passo o polegar sobre o papel e sinto uma pontada de incômodo no peito, algo entre compaixão e curiosidade.
O telefone toca.
— Fala.
— Aqui é o departamento jurídico — uma voz masculina responde. — Confirmando se é para iniciar o processo de união civil conforme o modelo padrão.
Olho para o selo da empresa impresso no topo do documento.
— Sim. Inicie.
— Deseja adicionar cláusulas extras?
Penso por um instante, depois balanço a cabeça, mesmo que o interlocutor não possa ver.
— Não. Se ela aceita tudo… que seja exatamente como está.
— Entendido, senhor.
Desligo.
As luzes do escritório refletem meu rosto no vidro da janela. Linhas de idade começam a marcar mais fundo minha expressão. Quarenta e nove anos. Meia-idade. Solidão administrada com eficiência, como qualquer outro problema que o dinheiro pode adiar, mas não resolver.
Meu olhar percorre a cidade abaixo. Lembro do garoto que fui, pobre, determinado, com as mãos sujas de graxa e o sonho de ter o próprio nome gravado em algum prédio. Consegui. Mas junto com o império, veio o vazio.
A porta se abre novamente, discretamente.
— Senhor? — Juliana aparece outra vez. — O senhor precisa assinar a autorização principal.
Ela estende o documento. Leio o nome dela: Naya Reese Torrance (proposta de contrato civil), e meu olhar prende naquelas letras. Nunca vi esse rosto, mas o nome carrega um peso inesperado.
Assino.
A caneta risca o papel com firmeza, selando mais um negócio da minha vida. Só que, por alguma razão, essa assinatura parece diferente.
Juliana recolhe as folhas com cuidado e me entrega uma cópia.
— Tudo pronto. Ela deve assinar amanhã, no setor jurídico.
— Ótimo.
Ela sai. Fico sozinho outra vez.
A noite cai devagar, e o escritório escurece aos poucos até restar apenas o brilho da cidade.
Fecho o laptop e sirvo um uísque. O líquido âmbar gira dentro do copo, refletindo a luz suave da luminária. Levo aos lábios, mas não bebo.
Vejo o reflexo do prédio vizinho e, por um momento, acho que enxergo minha própria juventude ali, arrogante, sonhadora, invencível. Tudo que Afonso acredita ainda ser.
Mas ser invencível é o primeiro passo pra cair.
Deixo o copo de lado.
Pego a pasta com o nome dela: “Naya Reese”. Não sei por quê, mas meus dedos demoram um pouco mais pra soltá-la.
— “Um casamento em nome do controle.” — pensei.
Uma forma de dobrar o filho rebelde. Mas, pela primeira vez em muito tempo, algo me diz que estou prestes a perder o controle.
Olho novamente para o horizonte, sentindo o peso das escolhas que sempre fiz em nome da razão.
— Se ela quer esse casamento… — falo para o vidro, usando a própria imagem como juiz — …que seja.
Sento-me de volta na poltrona, o som da chuva recomeça, firme e constante, como um prelúdio.
Não sei quem é Naya Reese.
Não sei o que a trouxe até mim.
Mas sei que o destino, uma vez em movimento, não dá pra parar.
E o destino, eu sinto, acabou de virar a chave.