Enrico
A noite em que empurro meu próprio filho para o abismo começa como tantas outras, com um telefonema dizendo que ele está chegando tarde demais e sóbrio de menos.
O relógio marca quase meia-noite quando a porta do meu escritório se abre sem que eu autorize. Afonso entra cambaleando, camisa meio aberta, gravata enfiada no bolso, o mesmo perfume feminino barato impregnado nele.
— Paiiiii… — ele arrasta a palavra, rindo. — Ainda trabalhando? Você devia conhecer um negócio chamado “cama”.
— Você devia conhecer um negócio chamado “responsabilidade” — respondo, sem levantar da cadeira.
Ele ignora. Se joga na poltrona em frente à minha mesa, as pernas abertas, o corpo desleixado. Pega a garrafa de uísque que deixei de lado e, sem pedir licença, enche o copo.
— Hoje não, pai. Faz isso não. — Ele bebe um gole generoso. — Eu estou numa vibe boa.
— Ótimo — digo, seco. — Porque eu também.
Abro a pasta à minha frente. O contrato repousa ali, com o nome dele bem claro. “Afonso Torrance”. E, logo abaixo, um espaço vazio, esperando por uma assinatura.
— Preciso que você assine alguns documentos da empresa — anuncio, com a mesma calma com que aprovei fusões e demissões em massa.
Ele revira os olhos.
— Mais papelada? Você realmente precisa de mim pra isso?
— Você é o herdeiro — lembro. — Portanto, precisa participar de decisões importantes.
Ele ergue o copo para mim, como se brindasse à palavra “herdeiro”.
— Herdeiro fracassado, né? Não finge.
Não respondo. Apenas deslizo o contrato na direção dele, junto com uma caneta.
— Assine.
Afonso pega a caneta, mas nem olha o documento.
— Do que se trata?
— Mais um assunto da empresa. — Mantenho o olhar firme. — Você não liga pra isso, lembra?
Ele dá uma risada rouca.
— É verdade. Eu confio em você, pai. Sempre cuidou de tudo.
O brilho do lustre reflete no metal da caneta enquanto ele gira o objeto entre os dedos. Em seguida, abaixa o olhar apenas o suficiente para encontrar a linha em branco e escreve o próprio nome com a mesma facilidade com que assina uma conta de bar.
Sem ler.
O som da caneta riscando o papel é curto. Definitivo. Ele empurra os documentos de volta e bebe o resto do uísque.
— Pronto. Agora posso voltar pra minha vida real?
Olho para a assinatura. Por um instante, sinto uma mistura amarga de triunfo e desprezo.
— Pode ir — respondo. — Sua parte está feita.
— Ótimo. — Ele se levanta, um pouco tonto. — Você devia mesmo relaxar, pai. Leva uma mulher pra casa, sei lá.
— Boa noite, Afonso.
Ele sorri, larga o copo na mesa e sai batendo a porta.
Fico sozinho com o barulho da chuva e o contrato assinado. Sinto o peso da escolha. Não é orgulho que cresce em mim. É algo mais escuro.
Desprezo.
Não por tê-lo enganado, isso eu aprendi a fazer com o mundo inteiro há anos. Mas por ele ter permitido ser enganado com tanta facilidade. Nenhum homem que se deixa conduzir como um bêbado em uma mesa de apostas merece liderar um império.
Dobro o contrato, guardo-o na pasta e desligo as luzes do escritório. A noite ainda não terminou para mim, mas para Afonso… algo terminou sem que ele saiba.
Na manhã seguinte, acordo antes do despertador. O hábito de quem carrega empresas e fantasmas nas costas.
O noticiário fala sobre economia enquanto tomo meu café preto. Não presto atenção. Minha mente está nos papéis que assinei, nos que ele assinou sem saber, e no nome que agora está preso ao dele por um vínculo legal que não pode ser desfeito tão facilmente.
No carro, a cidade passa do outro lado do vidro, cinza e apressada. Penso em Kathleen, em como ela me acusaria de ser duro demais. Talvez ela estivesse certa. Mas, sem dureza, tudo que construí teria ruído muito antes.
Quando chego ao prédio, Juliana já me espera na porta do escritório, tablet em mãos.
— Bom dia, senhor Torrance.
— Relatórios na minha mesa em dez minutos — digo, passando por ela.
— Sim, senhor. E… tem uma informação importante sobre o seu filho — ela acrescenta, fechando a porta atrás de nós.
Tiro o paletó, penduro no cabideiro e a encaro.
— O que aconteceu agora?
— Ele não apareceu para a reunião com o setor financeiro. E, segundo o motorista, não dormiu em casa.
Não é novidade. Suspiro, passando a mão pelo rosto.
— Verifique onde ele está e me avise assim que conseguir falar com ele.
— Já verifiquei, senhor. — Ela hesita um pouco, como se escolhesse as palavras. — O cartão dele foi usado hoje de manhã no aeroporto.
Meu olhar se estreita.
— Aeroporto?
— Sim. Ele embarcou num voo internacional com dois amigos. Destino: Amsterdã.
Por alguns segundos, o mundo fica mudo. Apenas o estalo de algo dentro de mim, se quebrando devagar.
— Quando?
— Duas horas atrás.
Ando até a janela. A cidade continua lá, indiferente.
Afonso fugiu.
Não sei se foi consciência tardia, medo ou apenas mais uma fuga inconsequente. Só sei que, em algum lugar entre a ressaca e a realidade, ele deve ter lembrado palavras soltas da noite anterior: responsabilidade, contrato, compromisso. Talvez até a palavra “casamento” tenha ecoado.
E, como sempre, ao invés de enfrentar… correu.
Fecho os olhos por um instante. Não grito. Não xingo. Não quebro nada. Só sinto, pela primeira vez em muito tempo, uma espécie de cansaço que não tem a ver com trabalho.
— Informe o jurídico que o contrato já está assinado por ele — digo, após alguns segundos. — E que, independentemente da localização, o vínculo permanece.
— Sim, senhor. — Juliana anota, profissional. — Quanto à outra parte…
— A senhorita Reese?
— Sim. Ela tem horário hoje à tarde com o advogado da empresa para assinar a documentação final.
Assinto.
— Avise o jurídico que quero uma confirmação assim que ela sair de lá.
— Claro.
Ela se retira, e eu fico de novo sozinho.
Olho meu reflexo na janela. Um homem de quase cinquenta anos, com linhas de expressão fundas, encarando o próprio fracasso como pai e a própria frieza como Ceo. Mas decisões são decisões. Uma vez tomadas, ou se sustenta seus efeitos… ou se deixa tudo desmoronar. E eu nunca fui do tipo que deixa algo desmoronar.
Do outro lado da cidade, em uma sala bem menos sofisticada que o meu escritório, o destino da mesma história segue por outra mão.
Sei disso porque, horas depois, recebo a ligação do jurídico.
— Senhor Torrance? Aqui é o doutor Leblanc. A senhorita Naya Reese já esteve aqui.
— E o que me diz dela? — pergunto, enquanto folheio um relatório qualquer, mais por hábito do que por interesse.
— Discreta. Assustada. Muito educada. — Ele faz uma pausa. — E… extremamente grata.
Paro de folhear.
— Grata?
— Sim. Ela mencionou a mãe. Uma senhora tetraplégica. Perguntou se os cuidados continuariam mesmo em caso de separação futura.
Levo a mão ao queixo, pensativo.
— O que respondeu?
— Que tudo está incluído: enfermeiros, equipamentos de última geração, cama hospitalar, adaptações residenciais. Tudo conforme o contrato, sem prazo definido.
Ouço um silêncio breve na linha antes de ele continuar:
— Ela chorou, senhor.
Fecho os olhos por um instante.
— Chorou?
— De alívio. Disse que não queria luxo, só dignidade para a mãe. Repetiu isso mais de uma vez: “Eu só quero que ela viva com dignidade”.
A frase fica ecoando entre nós.
Vejo, em minha mente, uma mulher que eu ainda não conheço, segurando uma caneta com as mãos trêmulas, assinando a própria vida em troca de segurança para alguém que ama. Não por ganância. Não por vaidade. Mas por necessidade.
Não é tão diferente do que eu mesmo fiz tantos anos atrás, quando vendi meus últimos dias de descanso em troca do primeiro investimento. Nunca mais parei.
— Ela assinou tudo? — pergunto, voltando ao presente.
— Cada página. Sem questionar as cláusulas financeiras, sem pedir aumentos, sem pedir vantagens pessoais. Apenas pediu que o nome da mãe constasse como beneficiária vitalícia dos cuidados.
Respiro fundo. Há uma honestidade brutal nesse tipo de desespero.
— Então está feito — digo. — A partir de hoje, ela é, oficialmente, Naya Reese Torrance.
— Exatamente, senhor. — O advogado faz uma pequena pausa. — Entreguei a ela também as chaves da mansão Torrance.
— Ótimo.
— Aviso que ela deve se mudar nos próximos dias.
— Mantenha-me informado.
Desligo.
Olho para o copo vazio sobre a mesa, depois para a cidade lá embaixo. Em algum canto dela, uma mulher está agora com um molho de chaves nas mãos, provavelmente apertando-as como se ainda duvidasse que sejam reais.
Casada com meu filho. Ligada ao meu sobrenome. E completamente alheia ao fato de que o marido dela atravessa oceanos para fugir do próprio destino.
Ela não viu o rosto dele. Ele não foi homem o suficiente para mostrar a própria face. Sinto um incômodo que não sei nomear.
Volto para a cadeira, passo os dedos pela borda da mesa e encaro o espaço à minha frente.
A mansão Torrance vai recebê-la antes de mim. Ela vai entrar por aqueles portões como esposa do herdeiro, mas encontrará apenas corredores vazios, empregados discretos e o eco de decisões tomadas por outros.
Não sei ainda em que momento nossos caminhos vão se cruzar. Não sei quando vou, finalmente, olhar nos olhos dessa mulher que vendeu o próprio futuro pra salvar o passado da família.
Só sei que, a partir de hoje, nada do que fiz pode ser desfeito. Meu filho está longe. Minha assinatura está nos contratos. E ela… está oficialmente ligada a nós. Sem jamais ter visto o rosto do homem com quem se casou.