Beatriz acordou com a sensação incômoda de que tinha atravessado uma linha invisível.
Não era arrependimento.
Não era culpa.
Era consciência.
O quarto ainda estava mergulhado naquela luz preguiçosa da manhã, e por alguns segundos ela ficou imóvel, encarando o teto, ouvindo a respiração calma ao seu lado.
Eduardo dormia.
O braço dele ainda envolvia sua cintura, pesado, quente, protetor demais para alguém que, meses antes, m*l parecia notar sua existência.
Beatriz se moveu devagar, afastando-se daquele contato com cuidado, como se temesse acordar algo — nele ou nela mesma.
Sentou-se na beirada da cama.
O corpo ainda lembrava de tudo.
Do toque.
Da voz baixa.
Da forma como ele a observara depois, como se estivesse gravando cada detalhe para nunca esquecer.
— Merda… — murmurou.
Ela passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.
Não podia fingir que aquilo não tinha acontecido.
Mas também não podia deixar que uma noite mudasse decisões que tinham levado meses para amadurecer.
Vestiu-se em silêncio, escolhendo roupas simples, quase como uma tentativa simbólica de voltar à realidade. Quando saiu do quarto, foi direto para a cozinha, encheu um copo d’água e bebeu como se estivesse atravessando um deserto.
Precisava pensar.
Precisava respirar.
Precisava lembrar quem era antes de Eduardo acordar dentro dela de um jeito que parecia… definitivo.
— Fugindo?
A voz veio baixa, rouca de sono.
Beatriz virou-se devagar.
Eduardo estava encostado no batente da porta do quarto, ainda descalço, camisa aberta, o cabelo bagunçado. O olhar era atento, mas não acusatório.
— Pensando — ela respondeu.
— Pensar geralmente acontece antes — ele comentou, com um meio sorriso.
Ela não sorriu de volta.
— Não começa.
Eduardo ergueu as mãos em rendição.
— Não vou pressionar.
— Ótimo.
— Mas também não vou fingir que isso não significou nada.
Beatriz suspirou.
— Eduardo, uma noite não apaga meses de descaso.
— Eu sei — ele respondeu, sério. — Mas também não foi só uma noite.
Ela o encarou.
— Foi uma escolha — ele completou. — Sua.
As palavras a atingiram com força.
— Isso não quer dizer que eu fique.
Eduardo assentiu lentamente.
— Eu sei.
Ela franziu o cenho.
— Você está estranho.
— Estou atento — corrigiu ele. — Tem diferença.
Antes que ela pudesse responder, o interfone tocou.
Uma vez.
Depois outra.
Beatriz sentiu o estômago gelar.
— Você está esperando alguém? — perguntou.
Eduardo já parecia saber a resposta.
— Não.
O interfone tocou de novo, mais insistente.
Beatriz caminhou até o aparelho e atendeu.
— Pois não?
— Beatriz Alencar? — a voz feminina perguntou.
— Sim.
— Aqui é da Comissão Familiar Elenhardt. Estamos no saguão.
O chão pareceu sumir sob seus pés.
— Agora? — ela perguntou, incrédula.
— Precisamos falar com os dois. É urgente.
Beatriz desligou devagar.
— Eles estão aqui — disse, virando-se para Eduardo. — Agora.
Eduardo fechou os olhos por um segundo.
— Eu devia ter previsto.
— Você fez isso de propósito? — ela disparou.
— Não — ele respondeu, firme. — Mas sabia que viria.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Eu não estou pronta pra isso.
Eduardo se aproximou, mas parou a uma distância respeitosa.
— Você não precisa estar — disse. — Eu estou.
Beatriz respirou fundo.
— Então vamos deixar uma coisa clara — ela avisou. — Eu não vou ser usada como símbolo de destino, de linhagem ou de qualquer merda mística que sua família acredita.
O olhar dele escureceu.
— Nisso nós concordamos.
Desceram juntos.
No saguão, três pessoas os aguardavam: uma mulher de meia-idade, elegante demais para aquela hora; um homem mais velho, olhar duro; e um rapaz jovem, sério, segurando uma pasta.
— Senhor e senhora Elenhardt — disse a mulher, com um sorriso estudado. — Obrigada por nos receberem.
Beatriz sentiu o incômodo imediato.
— Eu não uso esse sobrenome — corrigiu.
A mulher inclinou levemente a cabeça.
— Ainda assim, a ligação permanece.
Eduardo deu um passo à frente.
— Digam logo o que vieram dizer.
O homem mais velho pigarreou.
— O pedido de divórcio ativou cláusulas que não podem ser ignoradas.
— Vocês estão falando de contrato — Beatriz disse. — Não de pessoas.
— Para nossa família, é a mesma coisa — respondeu ele.
Eduardo virou-se bruscamente.
— Não ousem falar assim dela.
O clima mudou.
Beatriz percebeu.
Eduardo não estava apenas defendendo uma posição.
Estava defendendo ela.
— A revelação já ocorreu — disse a mulher. — Negar isso só prolonga o sofrimento.
— Que revelação? — Beatriz perguntou, sentindo o peito apertar.
O rapaz abriu a pasta e retirou um documento antigo.
— Há gerações, os Elenhardt seguem sinais específicos — explicou. — Sonhos, rupturas, tentativas de fuga antes da união se consolidar.
Beatriz sentiu um arrepio.
— Isso é ridículo.
— Você tentou ir embora — a mulher disse. — Ele despertou. A conexão se ativou.
Eduardo deu um passo à frente, a voz carregada de autoridade.
— Chega.
Todos se calaram.
— Vocês não vão colocar esse peso sobre ela — continuou. — Nem usar isso como chantagem para manter um casamento.
— Então você rejeita a linhagem? — o homem perguntou.
Eduardo virou-se para Beatriz por um instante.
O olhar dele era intenso, mas havia algo novo ali.
Pedido.
— Eu escolho ela — disse, finalmente. — Mesmo que isso signifique romper com tudo.
O silêncio foi absoluto.
Beatriz sentiu o coração disparar.
— Eduardo… — ela começou.
— Não — ele a interrompeu, suave. — Não é para te prender. É para te proteger.
A mulher respirou fundo.
— Isso terá consequências.
— Eu sei.
— A comissão dará trinta dias — anunciou ela. — Se até lá a união não for reafirmada, haverá ruptura definitiva.
— Ruptura de quê? — Beatriz perguntou.
— De tudo — respondeu o homem. — Nome. Herança. Proteção.
Eduardo não hesitou.
— Então está decidido.
Quando a comissão foi embora, o silêncio que ficou parecia ensurdecedor.
Beatriz se virou para ele.
— Você acabou de jogar sua vida fora.
Eduardo se aproximou.
— Não — respondeu. — Eu acabei de escolher a única parte que importa.
Ela sentiu o nó na garganta.
— E se eu for embora mesmo assim?
Eduardo a encarou, sério.
— Então eu vou sofrer — disse. — Mas não vou te culpar.
Ela desviou o olhar.
— Você está me colocando no centro de algo grande demais.
— Não — ele respondeu. — Isso sempre esteve em você. Eu só acordei tarde.
Beatriz respirou fundo.
— Eu ainda não decidi ficar.
— Eu sei.
— E mesmo assim você está disposto a perder tudo?
Eduardo se aproximou, tocando o rosto dela com cuidado.
— Eu já perdi uma vez — disse. — Quando te ignorei.
Ela fechou os olhos.
E, naquele momento, percebeu algo que a assustou mais do que a obsessão dele:
Ela não estava mais pensando em como ir embora.
Estava pensando em quanto doeria ficar.